O todo é superior à parte

Data de publicação: 27/11/2014

Moisés Sbardelotto *



O Sínodo dos Bispos sobre a Família e a poliedricidade da Igreja, família de famílias

"Cristo quis que a sua Igreja fosse uma casa com a porta sempre aberta na acolhida, sem excluir ninguém.” Essa é a mensagem que a 3ª Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos quis deixar para a Igreja do mundo inteiro. Como sinal do “caminhar juntos” (syn-odos) eclesial, os quase 200 participantes convocados pelo papa ao Vaticano, para refletir Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização, puderam debater as realidades e as problemáticas da família em cada Igreja particular do mundo inteiro.

A melhor “lente” para ler este Sínodo talvez sejam os quatro princípios de Francisco expostos na Evangelii Gaudium (EG), que mostram como “as diferenças se harmonizam dentro de um projeto comum” (nº 221).

O primeiro diz que o tempo é superior ao espaço (EG 222-225). Este Sínodo foi um kairós para a Igreja perceber que os processos humanos são lentos, mas, assim que iniciados, são impulsionados pelo vento de Pentecostes, que ocorre no momento oportuno.

O segundo princípio afirma que a unidade prevalece sobre o conflito (EG 226-230). Mediante as divergências – desde o “enrijecimento hostil” até o “bonismo destrutivo”, como denunciou o papa no discurso de conclusão –, é possível chegar a uma convergência, não construída humanamente, mas pela força do Espírito, “verdadeiro promotor e garantia da unidade e da harmonia na Igreja”.

O terceiro princípio diz que a realidade é mais importante do que a ideia (EG 231-233). Antes de toda teorização e sistematização da doutrina sobre o Matrimônio, o que importa é a realidade das famílias, os “batimentos deste tempo”, o “cheiro das pessoas de hoje”, nas palavras de Francisco na vigília do Sínodo. Por fim, o todo é superior à parte (EG 234-237). A
Igreja é maior do que todo particularismo, porque “é Una, Santa, Católica, Apostólica e composta por pecadores”, necessitados da misericórdia de Deus, afirmou o papa no discurso de conclusão.

Unidade na diversidade – Diante de uma temática complexa como a família hoje, Francisco esclareceu que não havia nada a se deixar de lado ou a se ocultar nos debates sinodais por temor à reação dele ou dos outros. “Falar com parrésia (franqueza) e ouvir com humildade” foram as condições indicadas pelo papa. Esta é a sinodalidade para Francisco: uma Igreja que caminha em unidade na diversidade. Não uma Igreja monolítica, enrijecida, fechada como uma esfera. Mas aberta e livre: “O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade” (EG 236). Essa poliedricidade da Igreja ficou estampada em todo o caminho sinodal: no tema, nos agentes, no seu contexto social.

O Sínodo reuniu-se para abordar todas as “experiências familiares”: tradicional, monoparental, homossexual, poligâmica, com cônjuges divorciados em segunda união, com esposos “separados por amor” devido às migrações etc. E também a experiência familiar como um todo: a espiritualidade, a sexualidade, a generatividade, a educação, o trabalho, o lazer, enfim, a sua “vocação e missão”, assim como os seus “obstáculos, incompreensões e sofrimentos”, como afirma a Relatio Synodi, o relatório final do Sínodo, disponível aqui.

Os agentes que participaram da assembleia também se mostraram poliédricos. O relatório sinodal explicita essa diversidade de pensamento em vários parágrafos, em que as posições são divergentes e ainda não suficientemente discernidas dentro da Igreja. Do total, apenas três parágrafos da Relatio não obtiveram a maioria qualificada de dois terços dos votos – embora tenham obtido a maioria simples – e não foram aprovados. Mas, por decisão do papa, eles permanecerão no texto final (que traz até o número de votos a favor e contra que cada um dos 62 parágrafos recebeu e que será enviado às Igrejas locais, para que o debate continue).

Os parágrafos não aprovados foram: 52 e 53 (sobre o acesso dos divorciados em segunda união aos sacramentos) e 55 (sobre a atenção pastoral às pessoas homossexuais). Alguns padres sinodais rejeitaram tais parágrafos por considerarem-nos um desvio doutrinal, enquanto outros acharam-nos insatisfatórios diante da realidade atual e, portanto, preferiram recusá-los até que se chegue a uma formulação mais corajosa. Nesse debate, Francisco não se posicionou como um “senhor supremo”, que define tudo sozinho, de cima, mas como o “supremo servidor, o ‘servus servorum Dei’”, cuja tarefa é “lembrar a todos que a autoridade na Igreja é serviço”, como dissera na conclusão do Sínodo. Mas ele deixou claro: a Igreja “tem as portas escancaradas para receber os necessitados, os arrependidos, e não só os justos ou aqueles que acreditam ser perfeitos”.

Pensar o impensado – Por fim, o Sínodo foi o reconhecimento da poliedricidade do mundo, da sociedade e da cultura de hoje. Porque vivemos tempos novos. Como alguns padres sinodais apontaram, se fosse para repetir as mesmas coisas de sempre sobre a família, o papa não teria convocado um sínodo extraordinário. Se foi convocado, é porque as respostas que temos não respondem às perguntas de hoje. É preciso novidade. E Deus “não tem medo das novidades!”, afirmou Francisco na missa de encerramento. “Continuamente ele nos surpreende, abrindo-nos e conduzindo-nos a vias impensadas.”

Por isso, agora chegou a hora de cada católico/a pensar o impensado e “pressionar” a sua Igreja particular, como disse um dos padres sinodais. Só assim poderão ser encontrados os “caminhos de verdade e de misericórdia para todos”, com o “envolvimento de todo o povo de Deus sob a ação do Espírito Santo” (Relatio Synodi, n0 62). A missão é encontrar soluções concretas, realmente pastorais, para os desafios das famílias hoje, amadurecendo a reflexão nas Igrejas locais até a assembleia de 2015, sobre A vocação e a missão da família na Igreja.

O primeiro passo a partir de agora? Ler e refletir sobre o relatório sinodal, contribuindo no debate sobre o “Evangelho da família”, com franqueza e transparência, em comunhão com os nossos irmãos e irmãs de caminhada – sejam eles bispos, padres, religiosos ou leigos – em sinodalidade. E, depois, admirar e se deixar admirar pelo “Deus das surpresas”, como disse o papa na homilia do dia 13 de outubro. Um Deus “que nos surpreende sempre”. Que surpresas ele ainda nos reserva? E o que faremos, como Igreja, para acolhê-las na nossa pastoral, junto com todas as famílias e com a família como um todo?

* Moisés Sbardelotto é jornalista e doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). É autor de E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosa na internet ( Editora Santuário, 2012) e membro da Comissão Especial para o Diretório de Comunicação para a Igreja no Brasil, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).




Fonte: Família Cristã 947 - Nov/2014
Postado por: Família Cristã




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