Símbolos natalinos

Data de publicação: 05/12/2014

Deus entre fraldas

No dia 25 de dezembro nossas casa deverão servir de albergue para Deus.  Estaremos preparados?

Por prof. dr. Fernando Altemeyer Junior
O evento central − Deus nascido entre fraldas, na vila de Belém, numa noite de inverno. Eis o mistério emocionante do Natal cristão. Uma surpresa escondida no meio da noite. Um paradoxo de gratuidade frente à voracidade mercantil de nossos dias. A Igreja chamava esta festa de Festum Nativitatis Domini Nostri Jesu Christi, ou, numa fórmula curta, Dies Natalis Domini. Daí a palavra Natal e por uma corruptela do sul da França, a expressão Noel.
O nascimento do Filho de Deus encarnado em nossa carne e vivendo nossa história é o grande segredo do Deus que por amor e por nossa salvação quis ser um de nós para nos levar um dia à sua glória e plenitude divinas. Este é o mistério da fé. E é claro, o grande segredo do amor. Quem ama se dá a si mesmo completamente e sem esperar troca nem pagamento. Ato gratuito e generoso. Ato de quem é Deus. E que prefere ser chamado secretamente de Deus-conosco. Um Deus nascido num barraco. Ou como dizem os nordestinos, Deus mais nós. Et Verbum caro factum est. E o Verbo se fez carne. Entre fraldas. Entre crianças. Entre pobres. Entre boi e jumento. Entre camponeses. Entre palhas. Há exatos 2.014 anos. Alguém bate à porta. Abramo-la.


A madrugada do dia 25 de dezembro
− Nós ignoramos o dia e a hora do nascimento de Jesus. No século 2º celebrava-se no dia 6 de janeiro a festa do batismo de Cristo e a manifestação, em grego, epifania, de sua divindade. A partir do século 4º a Igreja do Oriente começa a celebrar a festa do nascimento também nesta data. No Ocidente, entretanto, tornou-se oficial celebrar o nascimento de Jesus na noite do dia 25 de dezembro a partir do ano 353. Provavelmente foi uma forma de cristianizar as festas pagãs conhecidas como Saturnais que aconteciam entre 17 e 24 de dezembro antecipando a festa de Janus, o deus de duas faces. A festa dos povos antigos ou pagãos, dedicadas ao Sol, agora se mudam em Festa do Menino Deus que nasce entre nós para nos salvar.
Este nascimento se dá à noite, de madrugada. Noite que é sempre filha do Caos e mãe do Céu. Engendra o sono e a morte, os sonhos, pesadelos, ternura e o engano. A noite sempre simboliza o tempo das gestações, das germinações que irromperão em pleno dia como manifestações da força vital. O que o véu esconde é a semente poderosa do dia. É momento e tempo de virtualidades, de pulsões interiores, de pensarmos na preexistência das coisas e das pessoas.
Entrar na noite escura é voltar para o indeterminado e enfrentar os pesadelos e os monstros obscuros. A noite de Natal é tempo de fecundar o futuro (Quanto mais negra a noite mais carrega em si o amanhecer, Tiago de Mello) e tempo de preparação ativa do novo dia, donde brota ao alvorecer o sol invencível, a luz plena, o grito de espanto diante do Calor de Deus Eterno. Desde o século 4º, um hino latino, cantado na cerimônia de Natal, dizia que Cristo nasce no meio da noite, e daí o costume de assumir a meia-noite como hora do nascimento de Jesus. A Igreja proclama esta Noite Feliz, pelo canto do galo à meia-noite, na conhecida missa do galo. E, desde o século 4º, na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, proclama: "Entre os resplendores da santidade, das minhas entranhas Eu te engendrei antes da luz da manhã". Uma criança nascendo de uma virgem (puer natus est nobis) é sinal de contradição para ontem, hoje e para nosso futuro. Alguém vai bater? Estamos acordados?

O presépio de são Francisco − Outra realidade da madrugada do Natal é o presépio. Foi criado por São Francisco de Assis, no século 13, com gente viva e não bonecos, para reviver o ambiente do nascimento de Jesus, entre camponeses, servos analfabetos e pastores malcheirosos. O presépio nos faz participantes do parto divino. Parteiros de crianças vivas e frágeis. Presépio é sempre realidade nua e crua. Lembra acampamento de sem-terra, lembra favela, lembra gente vivendo nas ruas. É um teatro vivo, carnal a nos fazer mirar as origens da humanidade. No frágil e no pequenino, vemos o eterno. Entre fraldas, vemos Deus. Nas palhas de uma manjedoura, contemplamos o Salvador. Para o Menino não havia lugar na cidade. Pobreza, simplicidade e humildade. Nada de torres e de mármores frios em templos gelados. Naquele presépio do Poverello de Assis, criado em 1223, na região da Úmbria, o irmão Francisco reinventou a opção pelos pobres e refez o impacto da encarnação para os habitantes de Greccio e hoje de todo o mundo cristão. São Francisco não colocou nenhuma representação de Jesus nem Maria ou José no presépio, pois queria mostrar que ele estava presente na eucaristia que era celebrada na missa de Natal.

Boi e jumento − Boi e jumento aquecem o Menino, na madrugada fria e na ausência de carinho desta humanidade que recebe em frágil corpo o Criador do Universo. Esta representação que nos chega dos escritos apócrifos é uma linda lenda dos primeiros tempos do cristianismo. Nenhum dos textos do Evangelho fala da presença destes animais. Seria uma reminiscência do texto do profeta Habacuc, que diz que o Messias se manifestará entre dois animais. Belo texto do século 6º, conhecido como o Evangelho do pseudo-Mateus, faz a descrição da cena com o boi e o jumento. Este Evangelho apócrifo teve grande impacto no imaginário popular. Já nos primórdios das festas de Natal, mantinha-se a ligação ecológica com todo o mundo vivo. Serão um jumento que levará o Recém-Nascido para o Egito fugindo da perseguição e um outro asno a fazer Jesus entrar triunfal em Jerusalém antes de sua morte. Esses animais representam o calor da criação que quer ver vivo tudo o que nasce e deve viver.


Os anjos cantores − Anjos cantores anunciam uma boa notícia. "Glória no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade." Anjos, ou seja mensageiros surgem, nos céus para confirmar o nascimento do Filho de Deus. Pela melodia que entoam prenunciam um novo tempo. São como nossa consciência artística a reforçar junto aos pastores de ovelhas e gado que os seres celestes se encontram com os excluídos da sociedade e garantem a estes sua autoestima, dando valor a cada vida frágil.
Os anjos, na tradição cristã natalina, são representados com traços infantis, como sinal de inocência e de pureza. Seriam marcas de regressão ao homem adulto com saudades de sua infância. Uma valorização do Peter Pan que temos em nós e que pode também simbolizar a vitória sobre a complexidade e ansiedade, bem como a conquista da paz interior e da confiança em si mesmo.



Estrela de Belém − Na ponta da árvore e, muitas vezes, sobre o barraco do presépio, coloca-se a estrela de Belém. Simboliza a estrela guia dos magos e sábios do Oriente. A estrela possui quatro pontas e uma cauda luminosa, como um cometa. Guia os sábios do Oriente por caminhos nunca dantes navegados.









Os três reis magos
− O Evangelho de Mateus é o único a relatar a vinda dos sábios do Oriente. A este texto dos Evangelhos da infância foram acrescentadas inúmeras lendas, uma das quais dizendo que eles teriam vindo da Pérsia, por ser uma cultura versada na astrologia. No século 5º, Orígenes e São Leão Magno propõem chamá-los de reis-magos. No século 7º, eles ganham nomes populares: Baltazar (deformação de Baal-Shur-Usur − Baal protege a vida do rei), Belquior e Gaspar. Eles trazem ouro, incenso e mirra para o Menino Rei, Deus e Salvador. No século 15, a eles são atribuídas etnias: Belquior (ou Melchior) passa a ser de raça branca, Gaspar, amarelo, e Baltazar, negro, para simbolizar o conjunto da humanidade que vê e conhece o Salvador.







Pinheiro de Natal − No amanhecer de Deus, outro símbolo quente é a árvore natalina, um pinheiro enfeitado de luzes e de bolinhas vitrificadas, multicoloridas. Favorecem um clima de resistência. No início dos tempos, já imemorial, grupos pagãos da Europa do Norte, particularmente da Lituânia, traziam pinheiros para dentro de casa e os enfeitavam com guirlandas, ovos pintados e pequenos doces; dançavam ao seu redor e saudavam o solstício de inverno. Era o fim da colheita do ano que findara. Os germânicos introduziram na árvore do Norte gelado flores de papel colorido, algumas brancas para representar a inocência e outras vermelhas para representar o conhecimento. Tradição nascida posteriormente nos tempos medievais, já de fundo cristão, reúne esses dois símbolos religiosos: a luz e a vida. A perenidade das folhas do pinheiro mesmo no gelado tempo invernal e o formato piramidal da árvore, o primeiro para lembrar Jesus e o segundo para evocar a Trindade. Além disso, peças de teatro de fundo religioso eram apresentadas com grande sucesso popular nas igrejas ou em seus átrios de entrada, fazendo sempre alusão ao Paraíso, representado plasticamente por uma árvore carregada de frutos, colocada no centro da cena teatral. Essa árvore do Paraíso ficou como um dos sinais das festas de Natal celebradas a partir do século 11 por toda a Europa.
A atual árvore de Natal aparece na Alsácia (França) no século 16, e no século seguinte se espalha o hábito de iluminá-la com velas. No século 19, a esposa alemã do duque de Orleans introduz esse costume na França no ano de 1837. Em 1848, a Illustrated London News publica uma gravura na qual a rainha Vitória e a família aparecem no Castelo de Windsor em torno de uma árvore de Natal. Em 1912, Boston, nos Estados Unidos, inaugura uma árvore iluminada numa das praças centrais da cidade, e isso se espalha por todo o planeta, inclusive em países não cristãos. Esse pinheiro natalino mostra que, mesmo no inverno mais rigoroso, o verde de seus ramos resiste e as maçãs continuam saborosas e comestíveis, ainda que depois da chegada da nova e rude estação com a neve e geadas permanentes. As maçãs (hoje as bolas vermelhas) presas aos galhos da árvore são sinal de vida diferenciada. Muitos colocam sob a árvore frutas secas e cristalizadas para mostrar o outro lado da vida. Somente neste século 20 começamos a usar o pinheiro como árvore-símbolo dos vegetais que jamais perdem as suas folhas diante da dureza do inverno do Hemisfério Norte.
Para os cristãos é a árvore de Jessé, conforme Isaías 11,1-3, o tronco de onde brota a flor e desta pelo Espírito de Javé e pelo amor de uma virgem nasce Cristo. A árvore se confunde com Maria, e a flor faz germinar Jesus. Assim diz são Bernardo: "O que não era mais que uma flor, ele o chamará Emanuel, e o que não era mais que um ramo, dirá claramente que era uma virgem". A árvore é o símbolo do humano, pois germina, cresce e morre. E da morte de suas sementes novas árvores florescem. Símbolo feminino, pois surge da Mãe Terra, vive de sua seiva, sofre transformações e produz frutos.

As velas − Nas noites de frio, acendemos uma vela. Acender velas nos remete à festa judaica de Chanuká, que celebra a retomada da Cidade de Jerusalém pelos irmãos macabeus das mãos dos gregos. Lembramos também da remota festa pagã do Sol Invencível dos romanos (Dies solis invicti). No Hemisfério Norte, ela é celebrada na noite do solstício de inverno, em 25 de dezembro. Os cristãos apropriam-se desta festa e transformam-na na festa da luz, que é Cristo. Uma luz do céu desceu para nós (Lux magna super terram). Na chama da vela estão presentes todas as forças da natureza. Vela acesa é símbolo de individuação e de nossos anos vividos. Tantas velas, tantos anos. E um sopro pode apagá-las para que de novo possamos reacendê-las no ano vindouro. O sopro do aniversariante é mais forte que os anos que ele já viveu. Para o cristão, simbolizam a fé e o amor consumido em favor da causa do Reino de Deus. Velas são como vidas entregues para viver.





Sinos natalinos
− As renas carregam sinos de anúncio e de convocação. O repique e o toque do bronze mexem com as entranhas do humano. Os sinos simbolizam o respeito ao chamado divino e evocam, quando suspensos em torres, tudo o que está suspenso entre o céu e a terra e, portanto, são o ponto de comunicação entre ambos. Recordam o ambiente rural, o tempo da igreja matriz e seus toques de aviso e de convocação para a vida e para a morte. Sinos ressoam ao ouvido e no coração religioso de todos os povos.









A neve
−  O toque mágico do Natal vem com a brancura e o frio da neve no Hemisfério Norte, que exigem que as pessoas se guardem das ruas e convivam mais dentro das casas. Faltam, aqui no Brasil, que é um país tropical, esta brancura e magia. O frio e a necessidade de casas aquecidas por lareiras sagradas são quase impensáveis para a maioria dos brasileiros, particularmente no início do verão.









Cartões, presentes e ceia de Natal
− Não nos esqueçamos dos cartões de Natal, dos presentes escondidos e da ceia familiar. A ceia nos lembra o ato de amor de Jesus. Lembra também nossa origem judaica enquanto religião que celebra a fé em torno de uma mesa de família. Alguns quebram nozes e avelãs, outros comem uvas a cada badalada do sino da meia-noite.
Tantos símbolos de agrupamento familiar, de ligação do cotidiano fragmentado e de festa. Festa que quer dizer quebra da rotina, momento de prazer e de glória. Tempo de benção. Tempo de reacender a esperança, encontrar parentes, amigos e dar um sinal de paz e justiça em prol das crianças. Cantar o Gloria In Excelsis Deo ao Menino Deus feito gente como a gente.






Papai Noel
− Personagem destacado nessas festas é o Papai Noel. São Nicolau (271-343), chamado Santa Klaus, é o bispo de Myra, na Lícia antiga, sudoeste da Ásia Menor, da atual Turquia. Durante o século 4º, esse homem de fé marcante foi transformado em lenda como um Pai universal e providente que oferece às crianças presentes, brinquedos e carinhos da terceira idade.

Contam seus biógrafos que esse bispo salvou da prostituição três moças jogando-lhes, à noite, pelas janelas, três sacos de ouro, como dote do casamento. Dizia-se também de forma lendária que São Nicolau no dia de sua festa, em 6 de dezembro de cada ano, passaria de telhado em telhado depositando presentes em meias, colocadas aos pés de chaminés. Ele estaria acompanhado de um "homem mau" encarregado de punir as crianças desobedientes. Em 1087, mercadores italianos roubaram de Myra as relíquias desse bispo e as trouxeram para Bari, na Itália, onde hoje se encontram. Sua festa litúrgica no Oriente e Ocidente é feita em 6 de dezembro.
Nicolau foi substituído em alguns países pela lenda do Menino Jesus, que distribuiria presentes na noite do dia 24 de dezembro. Unindo esses contos às antigas lendas nórdicas, renas, trenós de neve e gnomos míticos, hoje todos os ingredientes formam o conto infantil do Hemisfério Norte, capaz de comover até os adultos que ainda sonham com sua infância. Na Antiguidade, trocavam-se presentes na festa do solstício de inverno, como um sinal de renovação. Em Roma, festejava-se a deusa Estrenia. Nos países nórdicos, o deus Odin, a cavalo sobre uma nuvem, trazia para as crianças recompensas ou punições face ao seu comportamento.
O Papai Noel, de roupa vermelha e saco nas costas, surge nos Estados Unidos, na metade do século 19, pelo merchandising da todo-poderosa Coca-Cola, como um São Nicolau transmudado em gnomo ou duende e, logo em seguida transformado em um simpático velhinho. Ele é introduzido na Europa depois da Primeira Guerra Mundial e se impõe pouco a pouco pela pressão comercial daqueles que querem festejar o Natal sem qualquer referência religiosa. Muitas lendas foram criadas e mantidas em diferentes povos, tendo o Pai Noel no centro da narrativa. E, mesmo em países de minoria cristã, o Natal é celebrado com símbolos desses mitos ancestrais.






Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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