A família pede socorro

Data de publicação: 17/12/2014

Texto e foto Silvia Torreglossa



No 4º Simpósio Nacional da Família, ocorrido em maio de 2014, a escritora Adélia Prado ressaltou a importância de se olhar para a família contemplando cada indivíduo



A escritora Adélia Prado Freitas, que, em seus textos retrata o cotidiano com perplexidade e graça, orientadas pela fé cristã e permeadas de esperança, lucidez e crítica, desta mesma forma falou sobre a família no 40 Simpósio Nacional da Família, realizado na cidade de Aparecida (SP), no mês de maio. Para a escritora, a família não é um bloco e não deve ser tratada em um conjunto, mas é preciso voltar o olhar para a pessoa. Ela ainda questionou em que as tecnologias, as metodologias, as novas pastorais, podem ajudar os indivíduos no núcleo familiar. E ressaltou que a Palavra de Deus, o Evangelho, e as atitudes de Jesus Cristo são a esperança da família. Jesus nunca se dirigiu à família instituída, Ele se dirigia sempre às pessoas, Ele personalizava o contato.

Com famílias, em família

“Além de ter sido participante de um movimento familiar cristão há muitos anos, na década de 1960, em Divinópolis (MG), trago também o testemunho daquilo que vivi, de minha experiência pessoal, e um interesse muito grande pelo humano dentro da família. Então o que eu vou dizer é uma coisa pessoal, não dogmática e muito eivada daquilo tudo que nos constitui, nossas paixões, nossos sentimentos, nossas frustrações e desejos.”

A busca da felicidade

“Eu quero colocar um censo universal, todos nós queremos ser felizes, não tem uma pessoa que ao ser perguntada ‘o que você quer ser?’, não responda: ‘eu quero ser feliz!’. Antes de qualquer profissão, de qualquer estatuto social, ‘eu quero ser feliz’, isso é universal. Eu tinha uma amiga de trabalho, ela fazia um trabalho muito lindo como servente da nossa escola. Um dia ela fez um desabafo interessantíssimo, ela disse assim, ‘que vontade de arrumar um namorado, nem que fosse para me proibir de passar batom’. Isso provocou em mim uma reflexão muito grande. ‘Nem que seja para me proibir de passar batom’, quer dizer, ‘alguém me olha, alguém confirma a minha existência, eu existo, pelo amor de Deus, alguém presta atenção em mim’.

E uma outra experiência que me tocou demais, foi a de uma pessoa  amiga muito simples, que estava com um câncer terminal, e, visitando-a nesses últimos instantes, ela me contou uma história. Disse que todos sabiam que não havia mais um recurso da medicina para ela, e ela também, intuitivamente, sabia disso. Mas pediu ao médico: ‘Ô, doutor, me ajuda, por favor, me ajuda’, e o médico, sabendo que não havia mais um recurso clínico, pegou a mão dessa paciente e a levou à capela do hospital, foi só isso, ele disse: ‘Vamos rezar, eu vou rezar com você’. Isso, para mim, foi a única medicina e terapia possível naquela hora, concluiu. Foi como se ele fizesse com que aquela pessoa experimentasse uma atenção real com ela, como pessoa humana em estado de extremo sofrimento. Quer dizer, um médico assim é confiável porque coloca toda a compaixão humana, toda a atenção que se deve à outra pessoa, em primeiro lugar, como a melhor das terapias. E este desejo de felicidade nos constitui, e na família, ele permanece.”

Família, indivíduos e crise

“A família não é um bloco, não deve ser tratada em um conjunto, não existe uma entidade chamada família. ‘Olha lá família, vamos conversar’, nós conversamos com pessoas de uma família, então tudo deve ser dirigido à pessoa, é personalizado, não há tratamento para famílias, se não se considerar as pessoas que as constituem. Então, o que fazer? O que podemos fazer como cristãos quando nós observamos que hoje a crise na família está saltando para um total desastre, está em queda livre? Não é por sermos famílias cristãs que estamos longe disso. Pelo contrário, parece que somos provados nisso até de maneira cruel, dentro das nossas próprias casas. O que está acontecendo de descaminho, de perda de valores...!

A família – a gente ouve desde criança – é a célula mater da sociedade, isto está empoeirado sob camadas de séculos de pó e desatenção. O que nós chamamos de célula-mãe da sociedade está doente. Para que a gente tenha esperança de uma recuperação da célula familiar a gente tem que olhar em que estado a família está, não adianta colocar sal sobre carne podre. Não há pastoral que avance sem essa compreensão e sem essa aceitação de que estamos em crise como família, a instituição familiar está em crise profunda.”

Esperança

“Nós estamos cercados de tecnologias, de metodologias, de novas  pastorais, e em que isso pode ajudar? A nossa esperança está na Palavra de Deus, especialmente nos Evangelhos, na palavra de Jesus Cristo, que nunca se dirigiu à família. Ele se dirigia sempre às pessoas. Seu contato era personalizado. Era sempre com pessoas, e pessoa é coisa dificílima, porque somos misteriosos e milagrosamente iguais e diferentes, não há uma pessoa igual à outra.

Existe um livro de sabedoria antiquíssimo chamado I Ching, o qual diz: ‘A compreensão que sabe perdoar é a suprema forma de justiça’, mais cristão que isso, é impossível. É um livro pagão, de séculos antes de Cristo, quer dizer, que o amor, a compreensão, está além do bem e do mal, e a justiça divina se faz disso, dessa compreensão que sabe perdoar.

E, então, é muito interessante observar a atitude pessoal de Jesus Cristo. A primeira pastoral que deve ser feita é para dentro, é uma atitude, um propósito de conversão pessoal, pessoal mesmo, de cada um, a começar de quem pode mais, que são os pais, para que a família se restaure. E isso é amor, isso é salvação, isso é cura de doença, porque a gente observa que sem isso a redenção da família não pode acontecer, não há pastoral que dê conta, não há psicologia que dê conta.”




Fonte: Família Cristã 943 - Jul/2014
Postado por: Família Cristã




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