A misericórdia e a doutrina

Data de publicação: 05/01/2015

Entrevista - Dom Raymundo Damasceno Assis

Por Irene Paz

Após duas semanas de trabalho – de 5 a 19 de outubro de 2014 –, o 3º Sínodo Extraordinário dos Bispos sobre a Família, realizado no Vaticano, culminou com a publicação do Relatio Synodi, um documento de 62 parágrafos aprovado pelos 191 bispos e cardeais com direito a voto – os chamados padres sinodais. “Nele, evidenciou-se a unidade da Igreja, pois apenas três parágrafos não obtiveram a maioria necessária dos dois terços, mas receberam pelo menos a metade dos votos mais um, significando não terem sido rejeitados”, contabiliza um dos cardeais votantes, o arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dom Raymundo Damasceno Assis.

De acordo com um dos três presidentes-delegados do Sínodo nomeado pelo papa Francisco, a Igreja vive um momento inédito. “Pela primeira vez, um papa promoveu um Sínodo em duas etapas tratando do mesmo tema, que é complexo. O próximo Sínodo, ordinário, marcado para outubro de 2015, também enfocará a família, facilitando o aprofundamento da Igreja sobre a questão”, revela o cardeal brasileiro, que, após retornar ao Brasil, conversou com a Revista Família Cristã a respeito da família, democracia e de suas perspectivas para o novo governo. A seguir, os principais trechos do diálogo com dom Raymundo Damasceno Assis.

FC – O senhor já participou de vários sínodos. Qual a diferença deste último para os anteriores?
Dom Raymundo – Poder se aprofundar mais sobre o tema, uma vez que, pela primeira vez, teremos dois encontros tratando da família. O próximo Sínodo, ordinário, marcado para outubro de 2015, também se debruçará sobre questões familiares, embora sob um enunciado ligeiramente diferente. É uma boa novidade introduzida pelo papa Francisco. O documento aprovado agora, não conclusivo, serão os lineamenta ou um texto que irá para as conferências episcopais onde será estudado pelas dioceses e outros órgãos. Após este estudo, será elaborado o documento que deverá guiar os trabalhos do Sínodo de 2015. Para resumir, é como se vivêssemos um período sinodal, estivéssemos sob um grande Sínodo dividido em duas etapas. Esse processo só chegará ao seu término após a realização de sua segunda etapa e se o papa julgar conveniente produzir uma Exortação pós-Sinodal para divulgar suas conclusões finais. Então é importante deixar claro que até agora não há nenhuma decisão sobre os temas tratados na primeira etapa do Sínodo.

FC – As sugestões e propostas apresentadas apontam para alguns caminhos?

Dom Raymundo – Não estávamos discutindo a indissolubilidade do matrimônio, um ponto consensual. Mas foi possível observarmos duas linhas de reflexão entre os padres sinodais: uma acentuando mais a doutrina e outra buscando acolher e encontrar uma solução mais misericordiosa e caridosa para as pessoas que vivem nas chamadas famílias feridas, como a dos recasados em segunda união, mas sem alterar a doutrina. Foram sugeridas algumas propostas como a adoção de um caminho penitencial para esses casais, já adotado pela Igreja Ortodoxa, para se conceder o acesso à comunhão. Mas sempre tendo em mente casos concretos e não como uma solução geral. Ou mesmo dar um pouco mais de autonomia aos bispos locais, diocesanos. Mas em determinadas condições bem precisas.

FC – Bastante interessante o fato de o papa Francisco ter concordado com esse clima de abertura, não?
Dom Raymundo – Sim. E também de muita escuta entre os padres sinodais para cada um falar o desejado sobre a temática. Com o papa Francisco, ficou claro que as portas da Igreja não foram fechadas para encontrar caminhos para as situações pastoralmente difíceis e especiais. E certamente continuarão abertas na próxima etapa do Sínodo.

FC – Tanto que repercutiu bem uma fala do relator-geral do Sínodo, o arcebispo húngaro, de Budapeste, cardeal Peter Erdo, que, durante um dos debates, esclareceu que os homossexuais têm qualidades a oferecer às comunidades cristãs.
Dom Raymundo – Embora a questão não tivesse sido um tema do Sínodo, sua citação foi um sinal de boa vontade do cardeal e da Igreja. Não podemos ignorá-la. É uma situação humana presente no dia a dia. Nossa experiência nesse campo não é a de julgar, mas respeitar. Mais do que oferecer qualidades às comunidades, os homossexuais, como filhos de Deus, devem ser tão bem acolhidos como quaisquer outros. Se eles por acaso vivem em uniões civis, isso se dá por necessidade de garantias e direitos, embora esse tipo de união, perante à Igreja, não seja equivalente à de um matrimônio. Para a Igreja, dentro da nossa antropologia cristã, matrimônio é a união permanente, estável, indissolúvel no amor e aberta à vida entre um homem e uma mulher. O que não impede de respeitarmos e acolher outras pessoas. O ser humano criado à imagem de Deus sempre terá uma dignidade pessoal e, portanto, não podemos discriminar ninguém.

FC – No encerramento do Sínodo, o papa Francisco lembrou que Deus não tem medo de novidades. Como o senhor interpretou o recado?
Dom Raymundo – Quando o papa nos diz isso, relembra o Espírito Santo, cujo dom é também o de nos surpreender sempre. O Espírito Santo sopra onde, como e quando quiser, e devemos estar dispostos a recebê-lo com abertura, sensibilidade pastoral, ligados aos sinais dos tempos e em situações vividas no dia a dia. Mas sem perder a fidelidade ao Evangelho. A Igreja tem a missão de guardar o depósito da fé que lhe foi confiada e, ao mesmo tempo, como diz o papa, não ser proprietária desse depósito. Logo, ela deve atualizar esse depósito para anunciar e comunicá-lo para todos os tempos e todas as épocas e pessoas, sem romper a fidelidade desse depósito. Assim, o papa nos orientou quanto à tentação de nos fecharmos na lei e não nos deixarmos surpreender pelas surpresas de Deus. Por outro lado, orientou para também não cairmos na tentação da permissividade e em que tudo seja permitido em nome de uma misericórdia por vezes enganadora. No fundo, ele retomou um pouco as tendências apontadas no Sínodo, entre a doutrina e a misericórdia. Creio que essas reflexões serão bastante aprofundadas daqui para diante, por serem as mais desafiadoras.

FC – Voltando o foco para o Brasil, que balanço o senhor faz de 2014 em relação à CNBB?
Dom Raymundo – Atuamos pastoralmente tendo como referência as diretrizes da Igreja, aprovadas a cada quadriênio pela assembleia dos bispos. A partir daí, dioceses e paróquias elaboram seus planos de pastoral respeitando a caminhada de cada Igreja particular. Neste fim de ano, estamos concluindo mais um quadriênio. No próximo ano, em abril, teremos uma assembleia eletiva que atualizará as atuais diretrizes à luz do magistério do papa Francisco. Isso quer dizer que a CNBB nunca deixou de dar uma palavra para orientar o povo de Deus, apoiar os bispos em suas dioceses através de mensagens feitas quase que mensalmente. Nunca fugimos à realidade do povo e, nesse sentido, o balanço de 2014 é positivo.

FC – Uma prova dessa presença da CNBB foi o engajamento na campanha por um projeto de lei de iniciativa popular pela reforma política?
Dom Raymundo – Claro. Ninguém nega no Brasil a necessidade de uma reforma política. É um tema complexo, mas necessário, e necessitava de alguma iniciativa. Encontramos alguns pontos de consenso com a Ordem dos Advogados do Brasil e outras entidades da sociedade civil. A proposta será levada ao Congresso e caberá a ele decidir. De resto, sempre nos manifestamos quando surgem questões de interesse nacional como as envolvendo as populações indígenas, reforma agrária, violência no campo e na cidade etc. Neste ano, por exemplo, o debate promovido com os presidenciáveis, em Aparecida, levantou questões não devidamente aprofundadas em outras ocasiões, como política pública para a família, juventude, superação das desigualdades sociais etc. Nos demais debates o que sempre prevalecia eram as questões macroeconômicas. A Igreja precisa ter outra sensibilidade, mais humana. As angústias, sofrimentos, dores e alegrias do povo são também as angústias, sofrimentos, dores e alegrias da Igreja. Não temos que assumir um protagonismo político, mas defender a justiça social e colaborar para que ela aconteça. Sobretudo para os marginalizados, os que mais sofrem pela exclusão, falta de emprego, renda, moradia, saúde e educação.

FC – A propósito da justiça social, o que o senhor espera do segundo mandato da presidente Dilma?
Dom Raymundo – O que esperamos de qualquer candidato vencedor pelo voto: cumprir as promessas feitas durante a campanha. Que seja cultivado o diálogo com a sociedade e com os partidos representados no Congresso. Que haja um diálogo transparente, construtivo e baseado em propostas concretas para atender às grandes questões do País no campo social. As divergências são normais em qualquer democracia e até a fortalecem. Desejamos, portanto, para o Brasil, uma democracia cada vez mais forte e plural, de fortalecimento e respeito às instituições. O Brasil é um só e não pode ficar dividido! Cada um de nós tem uma contribuição a dar e é responsável pela construção deste País. Um bom 2015 a todos os leitores da Revista Família Cristã!




Fonte: Família Cristã 948 - Dez/2014
Postado por: Família Cristã




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