Papa des-norteia

Data de publicação: 22/01/2015

Francisco, um papa popular que desnorteia e reorienta

Moisés Sbardelotto*
 
Papa Francisco visita crianças em uma fundação em Manila, nas Filipinas

Francisco, o papa que veio “quase do fim do mundo”, está indicando novos caminhos, novas rotas, novos horizontes possíveis. De uma Igreja fortemente romana, italiana, europeia, Francisco aponta para as periferias do mundo. Um papa que dá ouvidos ao Sul menosprezado, tirando da agenda eclesial a centralidade do Norte – e, portanto, “des-norteia”. Um papa que chama a atenção para a vida viva e vivida no Oriente ignorado pelo Ocidente autorreferencial – e, assim, “re-orienta”. Um papa que desnorteia e reorienta a Igreja porque sente, pensa, fala e age como o povo comum dos cantos mais esquecidos do planeta. E, por isso, é autenticamente “popular”.
São inúmeros os sinais disso. A começar pela escolha dos lugares a visitar: Brasil, Terra Santa, Coreia do Sul, Albânia, Turquia, Sri Lanka e Filipinas. Pouco Ocidente. Mesmo quando as viagens são dentro da Itália, são as periferias que têm prevalência: principalmente Lampedusa, a “periferia europeia”, aonde chegam os incontáveis botes superlotados de migrantes em busca de um futuro melhor. Mais recentemente, a nomeação dos novos cardeais: poucos europeus, nenhuma “sede cardinalícia” histórica, mas muitos asiáticos e africanos (Cabo Verde, Etiópia, Mianmar, Panamá, Tonga, Tailândia, Vietnã...).
Não se trata de uma mera questão de geopolítica eclesial: é um chamado a perceber o valor das culturas, de cada uma e de todas elas, especialmente as periféricas. Na simbologia do papa, culturas que não são vistas como uma “esfera”, todas iguais, equidistantes ao centro, mas como um “poliedro”, em que as diferenças, harmonizadas, contribuem para o enriquecimento e o crescimento de todas. Assim, Francisco critica a “colonização ideológica”, que avassala e tenta subordinar as culturas, que invade e desrespeita os povos. Como disse na entrevista coletiva no voo de retorno da Ásia, no dia 19 de janeiro passado, “é importante globalizar”, mas contanto que “cada povo, cada parte mantenha a sua identidade, o seu ser, sem acabar colonizada ideologicamente”. Na sua exortação apostólica, Francisco também já havia deixado isso claro: “Não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adotadas pelos povos europeus num determinado momento da história, porque a fé não pode ser confinada dentro dos limites de compreensão e expressão de uma cultura” (Evangelii gaudium 118). Daí a necessidade de um “des-norteamento” e de uma nova “re-orientação” para a Igreja.
Para Francisco, as culturas são compreendidas e se expressam no seu povo. Inclusive em termos cristãos: “Ser Igreja significa ser povo de Deus” (EG 114). A linguagem do papa – “popular” demais, segundo alguns – também desnorteia aqueles que se acostumaram com um estereótipo pontifício e reorienta a Igreja para a verdadeira vocação do sucessor de Pedro. É uma linguagem que desfaz todo um protocolo real e imperial construído historicamente ao redor do pontífice máximo, que rebaixa o papa ao nível do homem comum, com palavras e gestos simples. Dessa forma, Francisco remodela a práxis da autoridade papal: não superiora e intocável, mas servidora e próxima. Por isso, fala “como o povo”, diretamente a ele, sem necessidade de tradução e de intermediários.
Foi assim com a frase do “soco”. No voo de ida para as Filipinas, na semana passada, questionado sobre a liberdade religiosa e de expressão, ainda no clima do caso Charlie Hebdo, o papa fez questão de “falar claro”: “Se o Dr. Gasbarri [o organizador das viagens papais], grande amigo, me diz um palavrão contra a minha mãe, chega-lhe um soco. É normal! É normal. Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros, não se pode zombar da fé”. E, poucos instantes depois, puritanos de plantão começaram a dizer que o papa havia fomentado a violência religiosa, o olho por olho, a agressão retributiva, em vez de ter sido mais evangélico e “oferecer a outra face”. Um colunista brasileiro, dito católico, chegou até a clamar em alta voz que o papa “se calasse”.
Sim, o papa é um líder religioso tão violento e hamurábico que, dois dias depois, ofereceu a outra face da própria religião, de uma forma extremamente pacífica e significativa: reunindo sete milhões de pessoas para uma celebração totalmente centrada no sofrimento inocente e silencioso (absurdamente inocente e silencioso!) do Filho que Deus, que morre numa cruz. A “violência” da religião, como mostrou Francisco, está na sua força humana e simbólica diante do absurdo e do não sentido que o mundo de hoje vive. A verdadeira religião é “violenta”, sim, para os parâmetros deste mundo: agride os acomodados ao status quo, os conformados com o sistema, os incomodados com as mudanças sociais. Do ponto de vista desses fariseus do século XXI, Francisco é extremamente “violento” – e, por isso, perigoso.
No voo de volta à Itália, como se não bastasse o escândalo provocado em alguns pela frase sobre o “soco papal”, Francisco incomodou ainda mais os puritanos ao sugerir que também é capaz de dar chutes “lá onde não bate o sol”. Palavras de Francisco. Um chute hipotético, mas bem direcionado: aos corruptos. Ao contar uma tentativa de suborno contra ele, ocorrida quando ainda era bispo, ele disse: “Naquele momento, pensei: o que fazer? Ou os insulto e dou-lhes um chute onde não bate o sol, ou me faço de tolo. Fiz-me de tolo”. Assim, ele desnorteia porque tem essa proximidade com o povo, com o seu linguajar, com a sua realidade, porque sente um “prazer espiritual de estar próximo da vida das pessoas” (EG 268).
Na mesma entrevista, questionado sobre o crescimento populacional, Francisco teve também a ousadia de dizer que “alguns creem – desculpem a frase – que, para ser bons católicos, devem ser como coelhos”. Como um papa pode falar assim da reprodução humana? O contexto mais amplo, para Francisco, é a paternidade responsável, a partir dos desafios e das dúvidas de inúmeros casais de carne e osso com quem ele partilhou a fé como pastor. Daí deriva a sua autoridade, “que é sempre um serviço ao povo” (EG 104).
Mas o papa também desnorteia quando não sabe o que dizer. Para o Ocidente, uma autoridade, um líder religioso deve ter respostas sempre prontas. E, quando não as tem, deve mostrar que as tem ao menos discursivamente, retoricamente. Mas Francisco reorienta a Igreja ao silêncio diante do Mistério. Nas Filipinas, questionado pela pequena Glyzelle, o pontífice máximo se cala. A menina de 12 anos “fez a única pergunta que não tem resposta”: por que Deus permite a prostituição de meninas da sua idade? Quando nos deparamos com as grandes perguntas, como a da pequena Glyzelle, afirmou o pontífice, “que a nossa resposta seja ou o silêncio, ou a palavra que nasce das lágrimas”. Diante da imensa multidão dos sete milhões reunidos na orla de Manila, o supremo pontífice silenciou uma segunda vez. “Muitos de vocês perderam tudo [por causa do tufão Yolanda]. Eu não sei o que lhes dizer. (...) Eu somente guardo o silêncio e os acompanho com o meu coração, em silêncio”, afirmou Francisco.
Teólogos e comentaristas se debatem sobre esses “silêncios culposos” de Francisco. Como um papa pode silenciar? Não dizer nada diante do sofrimento alheio? Nenhuma “palavrinha de consolo”? Contudo, para Francisco, “existe uma compaixão mundana que não nos serve para nada”. Talvez seja justamente essa compaixão da “palavrinha de consolo”. Muito mais agressiva do que um soco ou um chute. “Certas realidades da vida – disse o papa aos filipinos – só se veem com os olhos limpos pelas lágrimas. (...) Se você não aprende a chorar, não é um bom cristão.” Antes de sair arrotando teologias e dogmatismos, é preciso superar “a psicologia do computador, de acreditar que sabemos tudo”, disse o papa aos filipinos. Primeiro, o pastor deve “pôr-se à escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir. Um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo” (EG 154). E, diante do sofrimento indizível, “a grande resposta que podemos dar é aprender a chorar”, falou Francisco em Manila.
O papa também desnorteia os puritanos da liturgia. Para estes, o atual papa é um dessacralizador. Não respeita as rubricas litúrgicas, usa destroços de barcos como altar, ambão e báculo, como em Lampedusa em 2013, lava e beija os pés de mulheres (inclusive muçulmanas!) na Quinta-feira Santa de 2014. Nas Filipinas, ele teve a desfaçatez de celebrar uma missa pública usando uma aberrante capa de chuva amarela, de plástico!, sobre os paramentos litúrgicos. Onde fica o respeito sagrado às “coisas de Deus”?
Francisco demonstra que respeita imensamente as “coisas de Deus”: as pessoas concretas, de carne e osso, que estavam naquele parque a céu aberto durante horas, debaixo da chuva torrencial, sob o risco de um tufão, à espera do seu pastor. Um pastor que presta atenção “ao povo concreto com os seus sinais e símbolos” (EG 154). Ele não tem pruridos por sujar a brancura dos seus paramentos. Ao contrário, como discípulo daquele jovem judeu que tocava os leprosos, ele suja o que for necessário para ser a presença de Deus junto do seu povo. Até “fazer-se semelhante” a ele, vestindo uma capa de chuva amarela, em plena sacrossanta cerimônia eucarística.
Dessa forma, Francisco reorienta a Igreja, afastando-a dos trejeitos reais, imperiais e majestáticos da Europa tradicional. E a reaproxima das culturas populares, marginais, periféricas, que concretizam e conjugam, muito mais profundamente do que o Norte ocidental, os elementos da linguagem triádica segundo Jorge Mario Bergoglio: mente, coração e mãos. Ele mesmo a explicou aos jovens filipinos: “Pensar o que se sente e o que se faz; sentir o que se pensa e o que se faz, fazer o que se pensa e o que se sente”. Harmoniosamente. Sem separações cartesianas.
Por isso, os “bien-pensants” do século XXI poderiam compreender que uma frase – como a do soco ou a do chute – é dita dentro de um contexto: não só textual, mas também existencial. Um contexto relacional que envolve o povo de um Deus que convida a chorar diante do sofrimento, a “aprender a mendigar”, a “amar os pobres”, a “não ter medo das surpresas”, como também disse o papa nas Filipinas. Esses mesmos “bien-pensants”, no meio de um tufão de novidades, ficam lá catando minúcias, grãozinhos na areia. A eles, cabe – não um soco nem um chute – mas aquilo que o “papa do soco e do chute” também disse: “A realidade é superior à ideia”. É a essa realidade que o Papa Francisco busca responder, “ouvindo o clamor de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra” (EG 190).
Desnorteando, Francisco vai reorientando a Igreja ao encontro do povo. Um povo concreto, de carne e osso, muitas vezes ignorado ou esquecido. Não esférico, mas poliédrico, multifacetado. “Nos diferentes povos, que experimentam o dom de Deus segundo a própria cultura, a Igreja exprime a sua genuína catolicidade e mostra a beleza deste rosto pluriforme” (EG 116). Parafraseando o artista uruguaio Joaquín Torres Garcia, em tempos de Francisco, o Norte da Igreja é o Sul do mundo.

* Jornalista, doutorando em Ciências da Comunicação pela Unisinos (RS) e La Sapienza (Roma), autor de “E o Verbo se fez bit” (Ed. Santuário).




Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Entradas e acompanhamentos
Quer um novo cardápio? O pepino, apesar de levar a fama de ser indigesto, podem ser uma boa opção.
Bolos de liquidificador
Não há quem não se renda ao cheirinho de um bolo caseiro sendo assado.
Caldos, sopas e consumês
Neste inverno, além dos cuidados com a pele, é importante se preocupar com a alimentação.
Conservas caseiras
Resgate o antigo hábito de fazer conservas caseiras. Além da economia, aproveitando os legumes.
Páscoa
Na Páscoa, é muito comum as famílias se reunirem para uma confraternização.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados