Um rosto Paulinas

Data de publicação: 19/02/2015

Religiosas, leigos consagrados e Cooperadores Paulinos dão vida à missão centenária. São histórias de uma gente diversa, cheia de cor, sotaque e amor que coloca a vida a serviço da comunicação

Por Karla Maria

Chegamos cedo à Cidade Regina, casa de retiro das Irmãs Paulinas, local de oração, das jovens em formação à Vida Religiosa Consagrada Paulina e das Irmãs Paulinas idosas. Localizado na Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo (SP), esse espaço acolhe a história viva dessa congregação que celebra seus 100 anos. Entre tantas histórias começamos pela de irmã Silvana Candian.
Ela estava sentada na recepção da casa. Montava tercinhos corderosa – miçanga por miçanga – com mãos que carregam marcas de 90 anos. Por momentos, o trabalho manual era interrompido pelo telefone que tocava insistentemente, o que não a incomodava, já que esta é sua função preferida: comunicar-se com as pessoas diretamente, “sem essa coisa fria de internet”, afirma.
Sentamo-nos de frente uma para a outra. Com um sorriso constante de avó, foi para a infância que ela nos levou. Foi para os tempos de criança de Silvana e de tantos outros que corremos, para descobrir quem são essas pessoas que dão vida, cor, graça e humanidade à missão iniciada por padre Tiago Alberione e a irmã Tecla Merlo.
Silvana nasceu em 11 de agosto de 1924, a bengala em que se apoia, os lisos e finos cabelos brancos apontam a idade. Tinha 12 irmãos, três morreram bem pequenos, ela era o xodó da família. Sua história junto à vida religiosa começou na Juventude Operária Católica (JOC), em Amparo (SP), onde fazia retiros de carnaval. Foi ali naquela convivência que teve o primeiro contato com freiras. “Eram as irmãs da Congregação de Jesus Crucificado, elas sorriam, eram felizes, me encantaram”, diz Silvana, que naquele tempo carregava ainda o nome de batismo, Carolina.
“Daí conheci uma das Irmãs Paulinas e com isso me comuniquei com as irmãs. Um dia elas foram a minha casa. Perguntaram se eu queria ser irmã, disse que sim. Então, em outro dia, elas vieram e conversaram com os meus pais”, conta.
A conversa não foi fácil. O pai não queria que a menina fosse freira. A família era pobre, e Carolina tinha de trabalhar para ajudar em casa. “Daí eu disse, bueno, se o senhor não me deixa ir, eu vou igualmente. Ele não falou que sim, e assim foi”, conta a irmã, que aos 17 anos seguiu para São Paulo para começar a formação à vida religiosa.
Rapidamente iniciou seu apostolado, saía com as irmãs para fazer a propaganda dos livros, da Revista Família Cristã. Visitava as famílias de porta em porta. Seis meses depois de entrar na congregação recebeu o hábito de religiosa. “Era fácil usar o hábito. Não sei se eu sentia muito calor”, conta sorrindo, lembrando-se dos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II.
Depois de um ano de apostolado veio o noviciado e a profissão religiosa na congregação, quando recebeu o nome de Silvana. “Não gostei deste nome”, revelou em seu livrinho espiritual escrevendo nele com seu próprio sangue Silvana, Silvana, Silvana... “Era para que eu me aceitasse e aceitei, agora gosto muito”, garante.
Trabalhou em Belo Horizonte (MG), São Paulo e depois Austrália, onde ficou por dez anos. “Eu não sabia o inglês, lá é que fui aprender. Foi difícil porque durante o dia eu ia para a missão, e à noite, já cansada, tinha aula de inglês e eu tinha muito sono. Olha, o quanto eu dormi nesta classe de inglês”, diz, divertindo-se.
Achou o povo australiano muito gentil. “Até diziam que eu falava bem inglês, mas que mentira, eu não falava nada”, conta. Depois da Austrália partiu para a Venezuela, onde permaneceu por 38 anos, divulgando a Palavra de Deus na Paulinas Livraria e nos trabalhos de casa. Gostou tanto que até hoje carrega consigo o sotaque hispânico. “O idioma espanhol era muito mais fácil de aprender. Realmente eu me adaptei à Venezuela como se eu fosse uma venezuelana. Vivi feliz”, recorda.
Carolina nunca pensou em ser mãe, chegou a paquerar quando jovem, mas nada a encantava. “Realmente o Senhor estava preparando o meu coração para ele.” E preparou!
Irmã Silvana é feliz. Aos 90 anos, continua acordando cedo, muito cedo. Às vezes, às 4h15 para abrir as portas e desligar o alarme da casa. “Quando não tenho que vir até aqui, levanto-me para rezar”, conta.
Conheceu a irmã Tecla Merlo. “Que mulher mais bonita, meu Deus. Ela falava com todas, estava sempre em nosso meio com toda a simplicidade do mundo. Que bonita! Amava a Deus! Chegou a dizer no fim da vida dela: ‘Se eu tivesse mil vidas, mil vidas eu as doaria para o Evangelho’, que lindo!”
E garante que é bom ser freira, porque “servir a Deus, amar a Deus e amar as pessoas, querê-las bem é uma coisa muito linda. Mira, a felicidade deste mundo é passageira. Quando você ama a Deus, realmente é feliz, porque esta felicidade brota de dentro do coração”.

Uma vida entre livros – A poucos metros de onde encontramos irmã Silvana estava a cerquilhense Angela Moretti, com seus 83 anos. Entre os livros da livraria que tanto propagou, iniciamos a conversa. Filha de Antonio Moretti e Maria Denadai, revela que teve uma infância muito comunicativa, em meio à família grande que vivia na roça. Desde pequena ia para a lavoura com os irmãos, gostava de cantar e passear. Em casa só falavam o italiano, já que o pai e os avós eram italianos. O idioma português Angela só foi aprender na escola aos 13 anos.
 A casa era grande e a família se reunia em volta da mesa pra rezar o terço, a ladainha, as intenções. Para irem à missa, caminhavam durante uns 20 minutos pela roça, que tinha milho, café e frutas.
Conheceu as Irmãs Paulinas aos 13 anos. Lembra-se de duas irmãs que foram de charrete até o sítio. “Quando eu vi o sorriso delas, eu pensei: é uma freira dessas que eu quero ser. Elas conversaram comigo, tomaram meu nome e disse ao papai que eu queria ser uma irmã daquelas, e o papai disse que era muito cedo. Dizia que, se fosse vocação, aconteceria.”
Angela já sabia das Paulinas, pois a família era assinante da Revista Família Cristã. “Quando ela chegava era uma alegria, porque naquele tempo não tinha outros jornais a não ser um em italiano. Então, eu fui lendo a revista, cultivando a minha fé e minha vontade de ser freira”, revela.
A mãe era devota de Nossa Senhora Aparecida e orientou a filha para que conversasse com a “Mãe Morena” sobre a vocação e assim, obediente, o fez quando viajou pela primeira vez a Aparecida (SP), na ocasião o pai estava muito doente. Fui e cheguei lá na Nossa Senhora e disse: “Ó mãezinha, eu vim aqui pedir a cura do meu pai, e a mamãe falou pra eu pedir a vocação, mas eu não quero mais não, só se Deus quer”, conta sorridente.
E assim fez o pedido a Nossa Senhora Aparecida. Tinha 14 anos. Aos 17, depois de paquerar um jovem, falou para a colega que queria ser freira paulina e foi. Era 1948, o ano em que entrou para a congregação.
Já na missão seguia por São Paulo e Rio de Janeiro (RJ), embarcava no ônibus com o material de evangelização: livros, a Revista Família Cristã, saía batendo de porta em porta. Por conta do hábito, em algumas comunidades fluminenses eram chamadas de urubus. “Algumas famílias não nos atendiam, mas a gente nem ligava”, revela.
Depois de cinco anos no Rio fez sua profissão perpétua na congregação em 1956. Sobre as dificuldades no processo de formação, revela: “Eu tive crises muito fortes. As dúvidas acontecem, mas ao mesmo tempo na vida de oração a gente encontra a certeza”, enfatiza.
Perguntamos se nunca pensou em casar e ter filhos, e com sorriso franco respondeu que sim. “No começo, quando eu estava namorando cheguei sim a pensar em ser mãe, mas não era algo firme. Mas eu pensava: se eu casar, eu posso ter quantos filhos? Dez, 12, mas se eu seguir a Jesus, eu vou ter muitos filhos, então este amor foi renovado para isso e, de fato, eu tenho muitos filhos na missão.”
Quanto à solidão, também admitiu que já a sentiu. “Existe sim solidão na vida religiosa, Jesus passou por isso e é por isso que a Palavra de Deus é conforto. A vida comunitária é uma fortaleza, uma força, porque juntas a gente partilha as maravilhas de Deus, o dom, as fraquezas que cada um tem e a missão, que é belíssima no carisma da congregação, que é a comunicação”, diz irmã Angela, que realizou missão em diversas cidades: Corumbá (MS), Cuiabá (MT), Cáceres (MT), Vitória (ES), Maringá (PR) e Niterói (RJ), até adoecer e retornar a São Paulo, onde atualmente reside.
Hoje vive na Cidade Regina para recuperar sua saúde. Trabalha na livraria das 10 às 12 horas e das 14 às 17 horas, todos os dias. “Eu me sinto muito bem, se mandassem eu ir para outro lugar, eu iria sabendo que Deus está comigo, porque ‘já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim’.”

Coração missionário –
A gaúcha Maria Renata Munari, de 71 anos, também está nestas páginas. Natural de Torres (RS), Renata conta que sua infância foi simples e saudável em meio aos dez irmãos. Ela entrou para a congregação aos 12 anos, mas antes participava da igreja. O pai, Lino Munari, sempre foi muito engajado na igreja e até ajudou a construí-la. Faleceu em 2008, com 95 anos, mas até os 94 anos serviu como pôde.
É dessa fonte que surgiu a vocação de irmã Renata, ao lado da mãe Elia Munari. “Conheci as Irmãs Paulinas porque tenho primas paulinas, e elas iam de férias visitar a família ainda no tempo de formação, e eu achava muito bonito e desejei sempre ser uma irmã, sempre falava. Tinha um desejo grande de ser missionária, e não sabia nem bem o que era ser isso”, afirma sorrindo. Mal sabia ela que a missão lhe reservava duas grandes surpresas: Bolívia e China.
Realizou estudos de Filosofia, Teologia e fez Comunicação Social por dois anos em Roma. Também visitava as famílias e conta com detalhes. “Levávamos os primeiros discos, os LPs, o Evangelho, a Bíblia e carregávamos a mala de livros bastante pesada, mas era tudo tão bonito! A gente dizia: ‘Estou levando Jesus para as pessoas’.” Passou pelo interior de São Paulo, Porto Alegre (RS), Manaus (AM), Porto Velho (RO), Recife (PE), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro.
Trabalhou nas livrarias e na expedição da Revista Família Cristã. “Era bastante difícil e pesado, não contávamos com computadores e nada, mas fazíamos com uma alegria enorme, porque a gente sempre pensava que aquela revista ia chegar às famílias e ia fazer muito bem”, conta irmã Maria Renata.
Da Bolívia trouxe o “carinho terno e humilde do povo”. Lá produziu e apresentou um programa de rádio diário, o Tiempo de Dios, na rádio Nueva Amanecer. Na China, em 2004 conheceu Macau e seu povo. Na livraria as publicações eram vendidas em três idiomas, português – já que Macau foi por muito tempo colônia portuguesa –, inglês e chinês. “Era um mundo novo, tudo muito diferente. Ainda não sabia o inglês e na Ásia a gente precisa do inglês para sobreviver, mas eu fui praticar e aprender melhor por lá”, diz. Lá viveu por nove anos.
Sobre os desafios, encontrou alguns bem difíceis. Voltou da China, em 2013, por ter sido diagnosticada com câncer no pulmão direito. Fez cirurgia e depois quatro meses de quimioterapia. Perdeu os cabelos e, em certos momentos, a força. “Fiquei carequinha. Eu cheguei ao ponto final da minha resistência. Achei que fosse morrer”, desabafa irmã Renata, que hoje aos 71 anos de vida e 51 de congregação segue cheia de cabelo, sorriso e vida. “Daquilo que fiz e por onde andei, o mais importante para mim é o ser, a vida, é aquilo que você vive, porque ser missionária é uma questão de doação na alegria.”

Persistência e fé – Encontramos a pernambucana Joana Severina da Silva, 46 anos. Natural de João Alfredo, interior do estado, a única mulher entre os cinco filhos de Severina e Martin Luis entrou na congregação aos 25 anos. A tarefa não foi fácil. O fato de ser a única menina da família a fez sofrer por um tempo, já que pai e mãe eram contra a entrada dela na congregação.
“Quando pequena eu ouvia muitas histórias de santos, e eu queria ser santa”, conta sorridente, com aquele sotaque das terras do frevo. “Com o tempo minha mãe foi se afastando da Igreja Católica, mas eu ainda criança ia com a vizinha para a igreja, até que um dia, com nove anos, estava na missa e chegou uma irmã – da qual não se lembra o nome – e perguntou se eu havia recebido Jesus na Eucaristia, eu disse que não e fiquei encantada com o jeito que ela me convidou. Eu queria ser como aquela irmã. Quando eu disse para minha mãe, ela não me levou a sério, o tempo passou e o desejo permaneceu guardado”, conta Joana.
Aos 16 anos a paixão ficou mais forte e aconteceu o primeiro contato com as Irmãs Paulinas. Lembra-se de que irmã Edimá Enedina dos Santos, – que está em missão na África – a convidou para ser vocacionada, a conhecer a comunidade paulina em Recife. Joana aceitou e começou a participar de encontros vocacionais. O pai faleceu, e a mãe continuava negando a vocação da filha. “Ela ia se firmando na igreja evangélica e eu na católica, mas só decidi mesmo entrar para a congregação quando estava com 25 anos, em 1994”, diz com emoção, mas voz firme. Realizou a primeira profissão em 1999, morou em Curitiba (PR), Salvador (BA) e tantas outras cidades.
“Sinto-me feliz, realizada como Filha de São Paulo, mas aquele tempo em que eu entrei na congregação a minha mãe não queria nem falar por telefone”, conta, lembrando que em 1996 armou com o irmão uma estratégia. “Diz pra mãe que é uma amiga que quer falar, não diz que sou eu”, conta com jeito divertido. Assim, dona Severina atendeu o telefone e a primeira coisa que Joana fez foi pedir a bênção. “Foi muita emoção, a gente foi conversando um pouco”, diz.
Quando ia de férias para casa, dona Severina não perguntava da vida religiosa da filha. Um protesto silencioso pela decisão de ser freira. “Depois deste telefonema, cada vez que eu ia em casa de férias ela perguntava: ‘Está feliz, e as irmãs, quantas são?’.”
Joana nem convidava mais a mãe para conhecer a comunidade. Mas, quando voltou a viver na comunidade paulina em Recife, a mãe e os irmãos apareceram. Era novembro de 2013, depois de 20 anos de vida religiosa. “Só Deus sabe a alegria que senti”, desabafa.
Quando questionada sobre o motivo por que decidiu enfrentar a família para viver a vida religiosa, Joana respondeu de pronto. “A motivação é ter a certeza de que nós devemos anunciar aquele em quem acreditamos. Anunciar que Cristo caminha e faz história conosco. Como São Paulo diz: ‘Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim, mas é uma necessidade’”, conclui deixando um sorriso largo, alvo e carinhoso.

Uma luz no caminho – A caçula destas páginas é a catarinense Mery Elizabeth de Sousa, 26 anos, filha de Manuel de Sousa e Ivonete Alvas de Oliveira, irmã de Cristina e Francine. A moça é inteligente, bonita, simpática e prestativa.
Conversamos sentadas no chão da capela. Mery não quis tocar no assunto, mas observei que sofreu com a separação dos pais, que aconteceu quando tinha cinco anos. Quem não sofre? Viveu com o pai, Manuel, até os 19 anos, quando decidiu entrar para a congregação.
Aos 14 anos Mery jogava futebol na escola, era lateral-direita e confessa que era “mais ou menos” com a bola no pé. Entre as amigas que batiam bola estava uma em especial, Cristiane Luz. “Ela foi uma luz no meu caminho. Ela sempre ia à escola rezando o terço, e isso me chamava muito a atenção, até que um dia eu perguntei o motivo e foi a deixa para o convite de participar de um grupo de jovens”, conta.
Depois de três convites da amiga, Mery começou a participar do Grupo de Jovens Kairós e, a partir daquele momento, seu envolvimento com atividades pastorais e sociais na Igreja se efetivou. À medida que participava do grupo, a moça já se virava. Foi tia de perua escolar e babá nas horas vagas. “A gente tinha de trabalhar para ajudar o pai e ter as coisas que a gente precisava em casa”, lembra.
Gostava – e deve ainda gostar, mas lhe falta tempo – de dançar vanerão, forró. Ouvia músicas gauchescas e o hip hop, isto porque aos 15 anos passou a trabalhar em uma loja de artigos de rap, na qual surgiu o gosto pelas composições do Poeta do Rap Nacional, Gog, que tratava de questões sociais e da valorização da cultura negra. “Acho que o rap me ajudou a ter um olhar social diferente”, avalia.
O contato com as Irmãs Paulinas surgiu quando tinha 16 anos, mas o desejo de ser religiosa havia surgido um tempo antes. Recebeu um convite das irmãs por meio de outra amiga, que mandou o endereço de Mery para as irmãs de Curitiba. Tempos depois, a jovem recebeu um convite pelo correio para fazer uma experiência vocacional com as irmãs. E assim, em 2005, entrou em contato com elas e, depois de dois anos de acompanhamento vocacional, ingressou na congregação.
“Foram várias coisas que me levaram a entrar para a congregação. O ser missionário, rezar pelas realidades de diferentes continentes, realidades muito sofridas. Eu queria partilhar este Deus em que eu acredito e que pra mim é tão bom”, afirma irmã Mery, que este ano inicia seus estudos de Teologia a caminho da profissão perpétua.
Mery optou por seguir Cristo na vida religiosa consagrada. “Eu era livre e a minha resposta é de amor e de fé, então eu escolhi”, e assim deu seu passo na fé.

A dádiva de amar – Do Sul para o Nordeste do País, encontramos a alagoana Maria Ferreira Fontes com seus inacreditáveis 74 anos, aparenta muito menos. Talvez seja sua vivacidade e alegria que a mantenham tão jovial. Foi em Santana do Ipanema que Maria Fontes nasceu e viveu com os 13 irmãos. A infância foi feliz, a família era muito religiosa.
O nome Maria não foi por acaso, era devoção da mãe a Nossa Senhora Aparecida. Até os 14 anos, a menina não pensava em ser freira, permanecia apenas cantando na igreja. “Eu sonhava em ajudar as pessoas, em fazer o bem. Achava bonito minha mãe ajudar os pobres, ela nunca dizia não para quem batia à porta e pedia ajuda.”
A mãe se chamava Sebastiana e o pai, Lourival, que não gostou da ideia da filha se tornar religiosa. Tudo começou em uma semana catequética nacional, que as irmãs realizaram em Santana. Maria tinha 17 anos quando se encantou com a congregação e, em 1956, entrou para a Família Paulina. 
Questionada sobre outras possibilidades de opção de vida, foi categórica.“Pensei sim em ser mãe, porque na juventude há o despertar da maternidade e, junto a isso, tem seus sentimentos, a feminilidade, e a gente vai administrando, porque eu sentia que havia algo que superava todos esses sentimentos, havia outro tipo de maternidade, uma outra opção”, diz.
Sobre o celibato, explica. “É uma escolha, um estilo de vida e nele você se realiza, porque o que está na base de tudo isso é o amor, a doação, é você ser para o outro”, conclui. Destaca que os melhores momentos da sua vida foram na juventude, sua missão na África, a luta por liberdade durante o regime militar. “O meu tempo mais apaixonante foi no tempo da ditadura, eu estava estudando Teologia, a gente lutava pela liberdade. Isso foi alimentando utopias, coisas que faziam a gente se movimentar por dias melhores na sociedade, na congregação”, explica. Para Maria, eram tempos de luta, embora a congregação não tivesse esse feitio de participar de movimentos. “Mas a gente sempre encontra brechas para aquilo que a gente ama e que é justo e verdadeiro”, conta, com uma santa travessura nos olhos.
De 2002 a 2004, morou em Angola, na África, e conta que realizou um trabalho administrativo, mas que nos fins de semana com os jovens percebia a riqueza cultural daquele povo. “A gente diz que os missionários quando vão para a África voltam com o ‘mal da África’, que é uma nostalgia, uma dívida de amar mais este povo.”

A Família Paulina – A congregação é composta também por leigos e leigas, que dentro de suas realidades vivem o carisma da congregação no dia a dia como Cooperadores Paulinos. É o caso de Valdenira Lopes Marinho Barreto, 35 anos, e Maurício de Souza Barreto, 43 anos, casados há 15 anos, que residem em Caieiras (SP).
Valdenira conheceu as Irmãs Paulinas ainda jovem, quando corria até a Paulinas Livraria para comprar papéis de carta e apenas anos depois passou a se interessar e a integrar a congregação. O mesmo acontecia com Maurício, que frequentava a livraria apenas para comprar livros, como fazia em outras lojas.
Já casados, em 2008 participaram de um curso de estudos sobre as cartas de Paulo e, naquele momento, receberam o convite para experimentarem, de modo particular, o carisma da congregação como Cooperadores Paulinos. “Sem entendermos muito, dissemos que sim, fizemos a experiência e ela continua a ser feita até hoje”, conta Maurício, que é administrador e professor.
Em 2009 começaram a formação, entraram em contato com o carisma e com os fundadores, até que em 2012 fizeram as promessas de pertença à congregação. “E aí a gente começou a entender que ser Cooperador Paulino é você atuar dentro do metrô, no ambiente de trabalho, seja aonde você for. Você vai passar esse carisma através da comunicação, da escuta”, explica a também professora e psicopedagoga Valdenira.
“Nós temos a nossa família, os nossos problemas, a vida de casal, o trabalho e o estudo e em nenhum momento precisamos abrir mão disso, muito pelo contrário, vivemos essa espiritualidade e a comunicamos no nosso dia a dia”, revela o administrador.
Maria Lúcia Gomes Silva também é Cooperadora Paulina. Tem 60 anos e é casada com Orlando Silva. Juntos há quase 30 anos, têm dois filhos, Tiago e Camila, e uma netinha, Maria Eduarda. Tornaram-se Cooperadores em 2012. “Ser Cooperador Paulino fortaleceu nosso trabalho na comunidade, nos deu pedagogia e espiritualidade para divulgar a Palavra. Foi um sopro do Espírito”, diz Maria Lúcia, que é pedagoga, ministra da Palavra e conselheira tutelar em Osasco (SP).
“Agrega muito, porque eu aprendi a ouvir melhor. Aquelas mães e pais chegam até a gente com uma carga muito grande de problemas e, se eu não tenho a disposição de ouvir e encaminhar as questões, não consigo somar. Aprendi a me sensibilizar mais, ouvir mais, com o carisma paulino”, revela a pedagoga.
Missionário do Instituto Sociedade das Missões Estrangeiras da Província de Quebec (Canadá), o chileno Luiz Alfredo Horazabal Solar, 50 anos, chegou ao Brasil em 2006. Foi missionário nas dioceses de Coari (PA) e em Manaus. Atualmente está na Diocese de Borba (AM), um território de 80 mil metros quadrados, o equivalente a 12 campos de futebol. É o administrador de oito paróquias e três áreas missionárias, cortadas pelos rios amazônicos, povoados por ribeirinhos e indígenas. Para chegar até a sua última paróquia, são necessários dois dias de viagem de barco. Para chegar à última comunidade, são necessários outros cinco dias, também de barco.
Conheceu o carisma paulino ainda no Chile com os Padres Paulinos, com os quais tentou a vida sacerdotal, mas desistiu. Depois, já em Borba, passou a estreitar os laços com as Irmãs Paulinas, quando ia à capital comprar hóstias, vinho e material na Paulinas Livraria. Começou assim sua história como Cooperador. “Ser Cooperador Paulino é estar à disposição da evangelização, pronto para ajudar, a comunicar a Palavra a todo mundo. Levamos o ser cristão a uma expressão maior. O principal é dar testemunho, eu não posso dar aquilo que não tenho, então para mim o fundamental é dar testemunho”, diz Luiz, emendando: “Não posso ficar calado com a mensagem na qual eu acredito e não usar os meios que tenho para espalhar esta mensagem”, conclui.
Ao optar por ser leigo consagrado, a dedicar sua vida à Igreja, Luiz, assim como as freiras, abriu mão de construir sua família biológica, sua carreira profissional. “O leigo consagrado é uma pessoa que fez promessas de castidade, pobreza e obediência, mas não necessariamente vive em comunidade. Eu trabalho, tenho uma atividade dentro da Igreja, me dedico a ela 100%”, conta.
Sobre constituir uma família, foi enfático. “Não sinto falta de família, tenho a minha no Chile e as Irmãs Paulinas de Manaus também são minha família. Minha vocação é madura. Eu sabia o que estava deixando”, diz Luiz, que abriu mão de ter sua esposa, seus filhos.
“O celibato não é problema, a obediência sim. Às vezes é difícil obedecer”, afirma sorrindo, que até seus 36 anos foi chefe. Com o tempo tudo se acertou e hoje o missionário segue agindo com o coração e com o sorriso.



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Fonte: Familia Crista ed. 950
Postado por: Família Cristã




Comentários

Enviado por: Ir. Josefa Saores dos Santos


Gostei muito dos testemunhos. Parabéns a equipe da Família Cristã por essa inciativa. Obrigada as pessoas que partilharam, com alegria, simplicidade e autenticidade. Quase que já queria contar minha experiência vocacional. Grande abraço e boa quaresma.


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