O direito de sorrir

Data de publicação: 09/03/2015


Uma cirurgia de aproximadamente 45 minutos pode resgatar o sorriso de muitos filhos e a alegria de muitos pais

César Vicente

Defeitos físicos de nascença mais comuns em todo o mundo, o lábio leporino e a fenda palatina acometem um a cada 650 bebês segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que a cada três minutos nasça uma criança com o problema. Apesar da alta incidência, ainda não há um consenso sobre suas causas. Tanto o lábio leporino, quando o lábio apresenta uma secção semelhante ao focinho de uma lebre – daí sua denominação – quanto a fenda palatina, uma fissura no céu da boca, podem ser atribuídos a fatores genéticos ou a deficiências nutricionais ocorridas no desenvolvimento do embrião. Isso acontece devido à falta de ingestão de ácido fólico e de vitamina B12, que também ajudam a prevenir casos de má-formação fetal, ou mesmo à exposição da gestante à radiação e ao hábito do tabagismo e do consumo de bebidas alcoólicas. O certo é que os problemas podem ser diagnosticados por ultrassom ainda durante a gravidez.
Para uma melhor reconstituição do lábio superior e reposicionamento do nariz, o recomendável é a fissura labial ser corrigida cirurgicamente entre 24 e 72 horas após o parto. Nos casos de fissura do palato – divisão óssea e muscular entre as cavidades oral e nasal –, indica-se uma reconstituição cirúrgica do céu da boca por volta do primeiro ou segundo anos de vida. Segundo especialistas, o ideal é realizar a cirurgia nem cedo demais, para não afetar o crescimento do osso, nem muito tarde, para não prejudicar a fala. O que poupa sofrimento às crianças. Isso porque os bebês com fenda palatina, por exemplo, são mais propensos a apresentar infecções no ouvido e podem ter dificuldade para se alimentar. A interação social também fica prejudicada, pois a má-formação do palato impede uma boa articulação dos sons e o aprendizado da fala. O desenvolvimento da arcada dentária também pode ficar comprometido.



Beleza oculta –
Todo o tratamento pode ser feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que, só em 2013, realizou 4.849 cirurgias reparadoras em todo o País. Mas como o serviço público não consegue dar conta da demanda, principalmente entre a população mais carente, a Organização Não Governamental (ONG) Operação Sorriso realiza periodicamente mutirões cirúrgicos pelo Brasil (veja boxe). Em dezembro passado, por exemplo, um mutirão em Porto Velho (RO) resultou na realização de 70 intervenções no Hospital Santa Marcelina. Em setembro, 92 crianças haviam sido operadas em Fortaleza (CE) e, no mês anterior, as beneficiadas foram 73 crianças de Santarém (PA).
Uma dessas crianças foi o garoto Eminem Endrill Araripe, de 1 ano e 6 meses, de Pacajus, no interior cearense, que viajou à capital do estado com a mãe, Elisabete Batista, de 24 anos, para se submeter a uma cirurgia reparadora do lábio leporino. “Pedi à minha madrinha que ficasse com as outras crianças para vir com ele”, conta a mãe, que se surpreendeu com o novo rosto do filho. A cada voluntário que entrava no quarto do Hospital Infantil Albert Sabin, de Fortaleza, ela perguntava: “Você viu como ele ficou lindo com este sorriso novo?”. Tal reação também é frequente entre as crianças que ignoravam possuir tanta beleza escondida. “Tá bonito”, balbuciou o menino Luiz Gabriel da Silva, de 2 anos e meio, ao ver no espelho um lábio onde antes havia dentes e gengiva à mostra. “Chorei antes da cirurgia, de preocupação. Chorei depois, de emoção”, lembra a mãe, Roseneide da Silva, de 29 anos, que vive com o marido agricultor em um assentamento de Jaguaretama, a 250 quilômetros de Fortaleza.
Após a cirurgia, que nos casos comuns dura cerca de 45 minutos, a recuperação costuma acontecer de forma rápida. Com o tempo, as cicatrizes faciais tornam-se praticamente imperceptíveis, fazendo as crianças perderem a timidez e vencerem as barreiras que as impediam de se relacionar com os amigos da mesma idade. As complicações pós-operatórias são raras, o que não significa que os pais devam ficar desatentos, mesmo porque pode ser necessário o acompanhamento de dentistas, para alguns ajustes na correção da arcada dentária, e de psicólogos ou fonoaudiólogos, para a criança, quando necessário, recuperar uma fala mais clara – muitas, em função da má-formação, apresentam uma fala fanhosa, baixa autoestima e buscam o isolamento social. Segundo o Ministério da Saúde, esse acompanhamento multidisciplinar é oferecido em 28 hospitais e clínicas habilitados pelo SUS. Hospitais de grande porte credenciados são outras opções, além dos hospitais parceiros da Operação Sorriso.

“Nossa compensação é um sorriso”
Criada em 1982, nos Estados Unidos, pelo cirurgião William Magee e sua esposa, Kathy Magee, a Organização Não Governamental (ONG) Operação Sorriso, tida como a maior organização médica voluntária do mundo, internacionalizou suas ações. Tal fato ocorreu após uma proposta formulada pela bem-aventurada Madre Teresa de Calcutá para que a entidade fosse a Portugal tratar de crianças com lábio leporino. Hoje, a ONG atua em 60 países e já atendeu mais de 140 mil crianças, 4.400 apenas no Brasil, onde está há 17 anos. “E sempre com um alto padrão de qualidade”, afirma, na entrevista a seguir, sua diretora-executiva no País, a administradora Ana Silvia Stabel.

Em 2014, a ONG realizou mutirões em Fortaleza (CE), Porto Velho (RO) e Santarém (PA). Qual é o critério adotado para escolher uma região?
Ana Silvia – A demanda. Vamos a locais onde não há centro de referência para atender as crianças com esses defeitos de má-formação. Na prática, vale dizer que vamos mais para as regiões Norte e Nordeste, onde informantes dos hospitais públicos e particulares dessas regiões nos mantêm informados. Há sempre muitas crianças a serem operadas, pois, além desse problema ser o defeito físico mais comum, ele não é uma prioridade dentro das políticas públicas de saúde por não apresentar riscos à vida das crianças.

Quantos mutirões serão realizados este ano?
Ana Silvia – Em março, estaremos em Maceió (AL); em maio, em Natal (RN); e em agosto, de novo em Santarém. Em Fortaleza, voltaremos em agosto. E, em dezembro, em Porto Velho. Precisamos visitar uma cidade mais de uma vez para fazer os procedimentos pós-operatórios e tratar de novas crianças e daquelas que não puderam ser atendidas da primeira vez. Claro que contamos com a parceria de secretarias da saúde dos municípios, dos estados e do SUS (Sistema Único de Saúde), além de patrocinadores essenciais como a Johnson & Johnson, Icatu, Temasek, Associação Citi Esperança, Azul Linhas Áreas e outros.

Como é feito um mutirão?
Ana Silvia – Cada um implica seis meses de preparação e envolve perto de 65 voluntários, entre cirurgiões, pediatras, anestesistas, fonoaudiólogos, dentistas etc. Só no Brasil, contamos com 250 voluntários. Ainda envolve uma complexa logística, pois transportamos, por avião, todos os equipamentos e materiais. Dos recursos locais, utilizamos apenas as dependências físicas. Isso porque seguimos protocolos de atendimento global, pois temos voluntários cirurgiões do mundo inteiro e nossa ONG foi concebida para oferecer o mesmo atendimento tanto aqui quanto na África ou na Ásia. Em primeiro lugar, para garantir a excelência dos nossos serviços. Em segundo, para nossos voluntários terem sempre os mesmos recursos e equipamentos. Assim, em dez dias, podemos atender 80 crianças ou até mais.

Os resultados compensam?
Ana Silvia – Basta ver como eram as crianças antes e como ficaram depois. É uma mudança da água para o vinho. Nossa compensação é o sorriso delas. Não tem preço.




Fonte: FC ediçao 949 - Janeiro2015
Postado por: Família Cristã




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