Resgates

Data de publicação: 10/03/2015

A reciclagem é um recomeço para o que aparentemente “não presta mais”, e é dessa forma que José Carlos da Silva ressignifica a  própria vida e de pessoas que estão à margem



Por Nathan Xavier

Fotos Sonia Mele


José Carlos “Marmota” da Silva e Cleusa dos Santos Silva, casados há 32 anos, confiam plenamente que a maior dádiva de suas vidas é o amor de Deus, mesmo com as inúmeras adversidades pelas quais passaram. Não muito diferentes das que atingem muitas famílias: como desemprego, alcoolismo, preconceito, depressão e tentativa de suicídio.  O apelido Marmota entrou na vida de José Carlos por diversas maneiras. O nome, muito comum, ajudou e também por chamar a todos de “marmota”.

Marmota e Cleusa conseguiram resposta, há pouco tempo, a uma pergunta que os afligia há mais de 26 anos. Por que ele se tornou persona non grata na Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. (Embraer). Essa justificativa, nunca explicada oficialmente pela companhia, fez com que Marmota não conseguisse nenhum emprego com carteira registrada desde 1988, quando foi demitido.

“Isso muito me entristeceu, pois desconhecia qualquer motivo que justificasse ser merecedor dessa alcunha”, desabafa. José Carlos, apesar de ter vivido nos anos da Ditadura Militar no Brasil, nunca integrou greves ou manifestações.

 

O início − José Carlos tinha cinco irmãos e conta que toda a família sofria muito com o pai: “Ele era alcoólatra e bastante machista. Tanto que, quando morreu, minha mãe mal sabia o que ele fazia, se tinha dinheiro ou não, se tinha conta no banco ou não, pois era ele que cuidava de tudo, era o jeito dele”. As brigas constantes em casa, a dor de cabeça, que só quem tem uma pessoa alcoólatra na família sabe, fizeram os filhos logo casarem e morarem fora. Foram anos de tentativas, de insistências, para que o pai deixasse o alcoolismo, mas sem sucesso. José Carlos também saiu de casa, para entrar no seminário. “Mais para fugir das brigas em casa do que por vocação”, reconhece. “Eu não podia fazer nada pra mudar isso. Era escolha dele, era escolha da minha mãe e não tinha outro jeito.” Assim, muda de cidade e inicia seus estudos no seminário dos redentoristas. Mas logo deixou o seminário.

Conheceu Cleusa e a pediu em namoro na missa de término de um encontro de namorados que haviam preparado na paróquia de que participavam. Na época morava com outros três rapazes numa república e faziam trabalhos de Igreja juntos, tanto que chamavam o lugar de Quartel-General de Jesus. Um deles hoje é o bispo em Campo Grande (MS), dom Dimas Lara Barbosa.

Logo depois que Marmota e Cleusa casaram, com todas as dificuldades de se conseguir um lugar para morar, um casal amigo, que participava do encontro de casais na mesma paróquia, ofereceu o apartamento, num local nobre de São José dos Campos (SP), para que morassem por quatro anos.

 

Crises e superações − Tentaram engravidar por três anos. Chegaram a pensar em adotar, mas a família de ambos criticaram a ideia. A pressão dos pais e deles mesmos que queriam muito um filho fez a relação se corroer, e qualquer motivo era oportunidade para brigar um com o outro.

Fazia uma semana que não se falavam, quando José Carlos convidou a esposa para rezar junto em frente ao sacrário. “Nós ajoelhamos e pedi a Jesus que, se fosse da vontade dele, que nos concedesse a graça de ter filhos, mas se não fosse, que tirasse essa vontade de nosso coração e nos mostrasse o caminho que deveríamos seguir.”

Algumas semanas depois, os dois ouviam emocionados o coração de seu primeiro filho no ultrassom. Cleusa estava grávida há três meses, mas o médico preferiu esperar para dar a notícia, pois, em casos como o dela, a probabilidade de perder o bebê era grande.

No mesmo dia em que ficou sabendo que estava grávida, Cleusa marcou um horário para contar ao sogro, Geraldo da Silva, que ele seria novamente avô. Os sogros tinham um viveiro com diversos pássaros no quintal e, um dia, ela e Geraldo conversavam, num dos raros momentos que o sogro não estava bêbado. Ele desabafara com ela que, dos filhos que deram neto a ele, nenhum ele pôde segurar no colo.

Cleusa prometeu que, se ela engravidasse, ele seria o primeiro a saber e que ela o deixaria segurar o bebê. A sogra contava que, no dia em que ela ligou, marcando horário para falar com ele, Geraldo não saiu de casa, como costumava fazer, para consumir bebida alcoólica. Esperou a ligação o dia todo já prevendo o conteúdo da notícia. “Eu liguei e disse que, em sete meses, ele estaria segurando o neto e que chamaria Geraldo ou Geralda. No mesmo instante ele garantiu que, a partir daquela data, não beberia mais, e assim o fez até o fim da vida. Ele curtiu o neto, Geraldo Matheus dos Santos Silva, muito.”

O menino nasceu em janeiro de 1987 e, desde o ano anterior, José Carlos trabalhava na Embraer, o emprego dos sonhos para quem mora em São José dos Campos. O futuro, então, era favorável: conseguiu, com a ajuda dos amigos e a família, financiar uma casa própria e estava num bom emprego. Mas a boa fase não duraria muito. Em 1988 é demitido. “Depois disso, nunca mais consegui registro em carteira. Sobrevivi como vendedor de rua, jardineiro, trabalhei em parque de diversões; o que dava pra fazer eu fazia.” Marmota também cuidava da casa: “Eu lavava e passava roupa, limpava a casa, levava as crianças à escola, participava na reunião de pais. Eu era o único homem!”. A filha do casal, Mirian Esther dos Santos Silva, nasceria em 1989.

Ele conta que sofreu preconceito com isso, até da própria família. “Falavam que eu não tinha dado certo, ou que era vagabundo, encostado, que não queria trabalhar.” Assegura que por diversas vezes isso o abalou, mas Cleusa sempre o incentivava: “Eu falava que ele é que dava muita importância para isso, que parasse de ouvir os outros. Iria dar tudo certo. E ele fazer os serviços domésticos nunca me importou, nem a mim e nem às crianças. Quando alguma colega de trabalho insinuava alguma coisa, eu dizia que ela estava com inveja. Ao chegar em casa encontrava tudo arrumado, e elas ainda tinham que lavar a louça”.

 

O fundo do poço − No fim da década de 1990, a família, sem conseguir pagar as prestações da casa, é despejada. Passam três meses morando em uma residência à venda, de um amigo, até conseguirem uma para alugar. “O proprietário deixou a gente morar por seis meses sem pagar o aluguel para que arrumássemos a casa. Estava destruída, com encanamento quebrado, taco arrebentado, fiação sem funcionar direito.”

Em meio de tudo isso, Cleusa também perde o emprego. E o motivo rendeu um processo judicial: “A gerente falou que ela não era ‘comestível’”, lembra José Carlos. O casal ganhou o processo e ficou acertado que a empresa pagaria as horas extras e uma indenização por danos morais. “Nós esperávamos esse dinheiro para ajudar a reformar a casa. No entanto, foram pagas apenas as três primeiras parcelas de 12.” Alguns anos depois, a empresa pagou o restante.

Sem conseguir emprego em carteira há mais de dez anos e Cleusa também desempregada, os dois filhos para cuidar e a casa necessitando de reforma, José Carlos entra em depressão. Para Cleusa o que mais doeu foi a tentativa de suicídio do marido: “Soube tempos depois que um dos meus irmãos disse a José Carlos, um dia antes da fatídica tentativa, que, se ele não quisesse cuidar dos filhos, que me largasse e sumisse, que ele sustentaria todos nós, mas que não daria dinheiro pra um vagabundo”.

Marmota, num dia de feriado, disse à esposa e aos filhos que fossem ao clube com o cunhado, pois ele queria ficar em casa. Quando Cleusa voltou, encontrou uma carta do marido. Era uma terça de carnaval e José Carlos injetou cloro no braço e tomou todos os remédios que encontrou. Porém, como nunca havia usado uma seringa, não pegou a veia. Perambulou pela cidade, em pleno carnaval, segurando o braço inchado e já roxo, pedindo várias cartelas de analgésicos nas farmácias, tomando todos os comprimidos com cachaça, para tentar acelerar a própria morte. Parou em frente a uma igreja e pediu para que Deus o levasse. Por fim, foi parar num posto médico e implorou que o ajudassem a morrer. Uma enfermeira, especializada em atendimento psiquiátrico, conversou com ele e disse que o ajudaria com o que queria. Na verdade, deu um anestésico que o fez dormir.

 

O recomeço − Após o episódio, José Carlos após orientação psiquiátrica, intensificou o trabalho que fazia com reciclagem e entrou em contato com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Foi lá que o Marmota se encontrou de vez. “Eu vi aquelas pessoas carentes de tudo, de um abraço, de um afeto, de querer falar, mas ninguém querer ouvir. E eu ouvia o que eles tinham pra dizer, fazia graça com eles e, com o tempo, e as minhas ‘marmotices’, eu consegui com que eles gostassem de ir ao CAPS e, principalmente, fazer com que se abrissem mais e conversassem com os psicólogos e demais profissionais.”

Mesmo diante de tantas dificuldades, José Carlos e Cleusa nunca pensaram em se separar. Nas palestras de encontro de noivos que os dois dão, ele dá o recado: “O que destrói casamento não são os grandes problemas, estes unem o casal e a família; o que destrói o casamento é o acúmulo dos pequenos problemas: é o tubo de pasta apertado no meio, é a toalha molhada em cima da cama. Aquilo você vai deixando e vai aumentando, quando explode, você não sabe de onde veio a explosão”.

 

Os 125 nomes − Somente em 2012 José Carlos descobriu, por acaso, o motivo de nunca conseguir emprego com carteira assinada. Cleusa estava trabalhando em um escritório de uma política. Ao chegar, em uma roda de conversa surgiu que ele havia trabalhado na Embraer. “Eu me assustei, pois, diante de tudo o que aconteceu, eu nem gostava de lembrar que eu tinha trabalhado lá”. No mesmo instante, uma pessoa perguntou o nome completo de Marmota. “Eu dei risada e respondi. Ele puxou uma pasta com a lista de 125 nomes. Eu era o último que faltava para que ele completasse a lista”. A Embraer, empresa governamental e, por isso, controlada por muitos anos pelo governo militar, fazia uma lista de funcionários grevistas, ou que pudessem causar possíveis problemas, e mandava para o departamento de recursos humanos de todas as fábricas do Brasil. “Eu não conseguiria emprego registrado em lugar nenhum.” O motivo de ir parar nessa lista ainda está aberto, e talvez nunca cheguemos a saber, mas existem duas hipóteses: a antipatia que um gerente militar tinha com ele ou os artigos que escrevia no jornal interno da empresa. “Eu sempre fui de Igreja e não entendia nada de política. Eu escrevia as coisas do Evangelho, de liberdade, de busca por dignidade humana, que as pessoas eram imagem e semelhança de Deus, assuntos que visavam a evangelização cristã. Eu não tinha nenhuma intenção política, até porque nem podíamos falar sobre isso, nem sindicalizado eu era.”

O nome comum (na lista constava, pelo menos, mais cinco nomes iguais o dele), fez com que a busca durasse anos. Na lista não constava telefone, nem endereço. O que batia era o dia da demissão. O mesmo da sua carteira de trabalho, 12 de maio de 1988. José Carlos da Silva era um anistiado político e tinha o direito de receber todas as indenizações e aposentadoria vitalícia. “Eu não acreditava e fiquei feliz, por, finalmente, saber o motivo de nunca conseguir emprego. Eu passava nos processos de seleção e fazia até a entrevista, em alguns lugares cheguei a fazer o exame médico admissional, mas quando chegava na hora da contratação sempre dava errado, sempre voltavam atrás, sem explicação.”

 

A marmotice salva − Hoje Marmota é formado em Gestão de Pessoas, com especialização em Psicologia Organizacional, faz “marmotices” para variados públicos e tem consciência de que tudo que passou o ajudou a ficar mais forte e a testemunhar o que vive atualmente: além do trabalho com os pacientes com transtornos mentais do CAPS, desenvolve atividades também com internos da Fundação Casa, população em situação de rua, alcoólatras, viciados em drogas e todas as pessoas que, como ele, foram excluídas de uma sociedade que taxa o sucesso profissional de mais valia que o ser humano “que não deu certo”. Procura resgatar essas pessoas, trazer esperança e ânimo para que elas também superem a fase ruim que estão passando e, assim, ganhem um novo sentido na vida: “Costuma me marcar muito Santo Agostinho, que diz ‘saia para evangelizar e, se for preciso, fale’. Quando as pessoas perguntam se vou bem, eu respondo que só não vou melhor para não causar inveja”, conta às gargalhadas. “Eu não tenho tempo pra ficar triste.”

“Gosto muito da Logoterapia de Viktor Frankl, que coloca o ‘para que’ e não ‘por que’. Então eu pergunto para as pessoas para que você está nervoso, para que você está triste, que sentido tem isso para você. Isso faz toda a diferença”. E resume a fonte de sua força: “Eu não saio de casa sem estar armado”, mostrando o terço que deixa sempre no bolso. “Não fico um só dia sem rezar, seja onde estiver. Deus é meu chão, é meu tudo, preciso conversar com ele, todos os dias.

 





Fonte: FC ediçao 949-Jan 2015
Postado por: Família Cristã




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