Casas de barro

Data de publicação: 11/03/2015



Eles usufruem de uma prática milenar e transformam a terra em casas. É com essa técnica saudável e sustentável que alguns moradores de Rio de Contas, na Chapada Diamantina, constroem suas moradias


Texto e fotos Marcelo Barbalho


Enquanto a construção civil adota cada vez mais o sistema de construção industrializado, caracterizado principalmente pela rapidez na execução da obra e que, consequentemente, provoca alto impacto ambiental, um pequeno grupo de moradores de Rio de Contas, na Chapada Diamantina, Bahia, privilegia a técnica artesanal do adobe (tijolo de argila acrescido de capim ou palha), utilizada desde a fundação da cidade no século 18. O material adobino é considerado um dos antecedentes históricos do tijolo de barro e seu processo construtivo é uma forma rudimentar de alvenaria. Os tijolos adobinos de Rio de Contas, no caso, são produzidos com terra crua, água, palha e, algumas vezes, outras fibras naturais. Em sua maioria, eles são moldados através de processos artesanais.
A construção com terra crua tem cerca de 11 mil anos de história em diversas regiões do mundo. E, ao se resgatar tecnologia tão antiga, colabora-se para manter vivo um importante patrimônio imaterial – tarefa complementar à do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pela preservação do conjunto arquitetônico de Rio de Contas, característico do período colonial no Brasil. Um exemplo é o Espaço Nordeste de Negócios Cultura e Cidadania, espécie de centro cultural e de negócios do Banco do Nordeste (BNB), inaugurado em dezembro passado na Praça da Matriz.
Responsável pela construção desses espaços em cidades do interior do Nordeste e técnico em edificações do Instituto Nordeste Cidadania (Inec), Paulo Campos conta que integrantes do Instituto de Permacultura da Bahia (IPB) ministraram oficinas para 20 pedreiros sobre as técnicas empregadas na obra, entre elas reboco natural, superadobe, saneamento ecológico e tinta de terra. Sob orientação de Nagoy Sol e David Borja, ambos do IPB, os profissionais levaram três meses para reformar um casarão do século 19 e construir um espaço de eventos. “O resultado final valoriza a identidade local, forma mão de obra e capacita operários para reformas arquitetônicas desenvolvidas pelo Iphan”, afirma Paulo Campos, que organiza uma espécie de “manual de construção” para ser publicado pelo BNB.

Nada de capital  – A arquiteta Cinira d’Alva, especialista em construção vernacular (aquela que é própria de uma determinada região ou país) pelo Northern New Mexico College, no Novo México, Estados Unidos, afirma que a bioconstrução, da qual as edificações adobinas são um bom exemplo, é algo necessariamente local. “Não existem ‘respostas certas’, materiais universalmente adequados ou normas de desenho. Tudo depende da ecologia, geologia e clima da região; das características do sítio onde a obra será construída e das necessidades e personalidades dos construtores e usuários. Funciona melhor se os criadores, os construtores, os proprietários e os habitantes forem as mesmas pessoas”, afirma a arquiteta.
Cinira d’Alva explica que bio-construção é qualquer uma que valoriza a sustentabilidade social e ambiental. “Assume-se a necessidade de minimizar o impacto ambiental das habitações, proporcionando simultaneamente um ambiente saudável, bonito e confortável. Bioconstrutores enfatizam técnicas simples, fáceis de aprender e baseadas em recursos localmente disponíveis e renováveis. Estes sistemas dependem fortemente do trabalho humano e da criatividade e quase nada de capital, alta tecnologia e especialização”. Em sua opinião, a bioconstrução ensina que todos têm ou podem facilmente adquirir as habilidades necessárias para construir suas próprias casas.

Argila, areia e sol – Nagoy Sol, do IPB, encarna de modo exemplar os preceitos da bioconstrucão, pois é, ao mesmo tempo, criador, construtor e proprietário da casa de adobe em que vive desde o ano passado com sua mulher e filha. Ele esteve à frente de todo o processo de construção da casa e elaborou a planta com auxílio de um arquiteto. Também providenciou materiais, portas e janelas; preocupou-se em captar e armazenar água da chuva, aproveitar iluminação natural através de garrafas e vidros incrustados nas paredes e criar um sistema de esgoto com uso de filtros biológicos para reaproveitamento de água. O resultado é um lar ecologicamente correto, confortável e em harmonia com seu entorno socioambiental.
O material predominante na casa de nagay Sol é, claro, o adobe. O tijolo de barro é feito de terra umedecida com água, palha de arroz ou outras fibras e colocado para secar, de preferência sob sol forte. O tamanho “padrão” de cada tijolo é de 30 centímetros de comprimento por 15 centímetros de largura e 10 centímetros de altura. O melhor solo para o adobe deve ter entre 15% e 30% de argila, sendo o restante essencialmente areia. Muita argila fará o tijolo encolher e rachar, enquanto pouca areia permitirá sua fragmentação.
O pedreiro Antônio Carlos Lima Santos conta que confeccionar adobe dá mais trabalho do que ir à loja comprar tijolo cozido. Sob sol forte, são necessários três dias para um tijolo ficar pronto. Com o tempo nublado, oito. Se chover é imprescindível cobrir com plástico, caso contrário o trabalho estará perdido. Mas depois de seco, garante o pedreiro, o adobe é muito resistente. Além disso, a construção com esse material dispensa cimento, o que torna o custo da obra mais baixo.

Forças invisíveis – Antônio Santos trabalha com adobe desde que reformou e ampliou sua própria casa há 12 anos e hoje é uma referência na confecção deste material em Rio de Contas. Nos últimos três anos, ele constatou um aumento no número de clientes. Em janeiro, produziu 4 mil tijolos em duas semanas para Maurizio Morelli e Gláucia Soares que iniciaram a construção de um novo lar – o casal, em 2010, também reformou com adobe um antigo casarão para instalar o Espaço Imaginário, que funciona como centro cultural e pizzaria. Em seguida, Antônio Santos confeccionou mais 10 mil tijolos para a casa de David Borja, do IPB.
David Borja salienta que é preciso, acima de tudo, “valorizar o que há de intrínseco no adobão”, como o tijolo é conhecido na região. Ele explica, também, que a bioconstrução é parte de um sistema mais amplo, o da permacultura (cuidado com a terra, as pessoas e a distribuição equilibrada e permanente dos recursos naturais), que apresenta aspectos como espiritualidade, educação, economia, saúde, alimentação, agroecologia, saneamento ecológico, arte, lazer, manejo, uso e posse da terra. “Só o adobão pelo adobão não vale a pena. É preciso valorizar o homem, a qualidade de vida e os recursos locais. Utilizar as forças invisíveis da construção para disseminar a ética da permacultura  e seus princípios elementares. Cooperar em lugar de competir, utilizar padrões da natureza para implementar sistemas sustentáveis e realizar pequenas ações com menor gasto de energia para obter grandes resultados”, afirma David Borja, que organiza eventos e cursos sobre a permacultura na Chapada Diamantina.
 
 




Fonte: FC ediçao 926- FEV 2013
Postado por: Família Cristã




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