Um tempo para os odres novos

Data de publicação: 31/03/2015

“A vida consagrada no Brasil se sente abraçada e beijada por Deus, neste ano, e agradece a Francisco. Deus o abençoe, Santo Padre, por esta convocação!”


Por Sérgio Esteves



“As pessoas consagradas não são um material de ajuda, mas são carismas que enriquecem as dioceses.” Com tal exortação, no fim de 2013, durante a 82ª Assembleia Geral da União dos Superiores Gerais (USG), realizada em Roma (Itália), o papa Francisco dedicou 2015 como o Ano da Vida Consagrada, que já está sendo vivido com ardor pelos seus interessados: os consagrados e consagradas da Igreja Católica. “Trata-se de uma bênção. Sem que o soubéssemos, nós a pedimos a Deus, como fazem filhas e filhos a seus pais, no início e no término de um dia de vida e de labuta”, explica a irmã Márian Ambrósio, ex-presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) nacional durante dois mandatos (2007 a 2010 e 2010 a 2013) e a entrevistada desta edição. Hoje coordenadora-geral da Congregação das Irmãs da Divina Providência, ela não hesita em afirmar que os carismas da Igreja estão vivos e atraentes, mas talvez “como vinhos novos engarrafados em odres velhos, inadequados para os tempos de renovação que atravessamos”.

FC – A convocação de Francisco para este Ano da Vida Consagrada pode diminuir a distância entre as congregações e fazê-las se unirem em direção dos que precisam não só de Deus, mas da ação das mulheres e homens a ele consagrados? Afinal, às vezes, temos a impressão de que as congregações estão distantes umas das outras...
Irmã Márian – Francisco é um grande convite à conversão... Mas ele tem uma insistência anterior à sua pergunta: ele desafia a vida religiosa consagrada a voltar à intuição carismática das fundadoras ou dos fundadores. E isso, eu mesma, considero fundamental para uma autêntica renovação. O fato de ele nos desafiar a ir aos mais pobres é uma consequência desse primeiro passo. Por exemplo: se um instituto foi fundado a partir da intuição carismática primeira voltada para a educação dos jovens, o papa impulsiona para uma fidelidade a esse primeiro apelo. Eu o ouvi pessoalmente, em fevereiro do ano passado, afirmar que um carisma deve ser reassumido e impulsionado para o dia de amanhã. Gosto também de ouvi-lo falar em “sair” para as periferias, mas não como uma ONG (Organização Não Governamental), e sim como testemunhas carismáticas junto a todas as formas de periferia – periferias humanas, religiosas, sociais, culturais etc.

FC – E quanto a uma maior união das congregações?
Irmã Márian – Graças a Deus não é necessário ouvir isso do papa, pois cresce em nós essa consciência, uma vez que temos frentes de missão intercongregacionais há bastante tempo. Mas o alerta sempre ajuda! Gosto de afirmar que precisamos crescer na organização de nossa solidariedade! As experiências intercongregacionais junto aos mais empobrecidos de nossa sociedade se multiplicam. A comunidade de Vila Prudente, por exemplo, que existe na capital paulista, é uma entre tantas: estivemos por dez anos no Timor Leste cultivando a cultura da paz em tempos de guerra e superando a desnutrição com a implantação da Pastoral da Criança. Também estamos no Haiti pós-terremoto com inúmeros projetos de apoio à dignidade de vida para os mais excluídos da sociedade. Estivemos e estamos em distintos locais da Amazônia, onde se destaca o projeto itinerante interinstitucional que atende comunidades ribeirinhas. Sem falarmos de outras regiões. Reconhecemos, sim, que há sinais de fragilização em vários aspectos de nossa vocação, seja na perspectiva da radicalidade no seguimento de Jesus, seja na dimensão testemunhal de relações evangélicas entre nós e fora de nós, seja em opções mais coerentes no engajamento missionário. Toda crise pode ser uma chance de conversão e, com certeza, as provocações do Ano da Vida Consagrada nos ajudarão a renovar nosso compromisso.

FC – De que forma a senhora entende que este ano deverá ser interpretado pela sociedade civil? Um povo, infelizmente um tanto alheio às coisas divinas, poderá se lembrar de que através da vida consagrada há um caminho de salvação para os mais necessitados?
Irmã Márian – Antes de qualquer opção por um determinado estilo de vida – sacerdócio, laicato e vida consagrada –, existe uma resposta vocacional primeira, comum toda a pessoa batizada. Cada qual responde, a partir de sua fé, ao chamado de Deus, ao sinal de seu amor num mundo sempre mais distanciado de Deus. Assim, padres, religiosas e religiosos, leigas e leigos partilham entre si o mesmo dom. O que nos distingue é um estilo de vida, uma forma específica de trilhar o itinerário de fé na mesma Igreja segundo o mesmo Evangelho. A vida religiosa tem um traço fundamental: seu testemunho, que deve anteceder o seu “fazer”. Pelos votos religiosos que professamos, anunciamos valores que transcendem ao projeto humano, que pertencem ao futuro que vivemos um dia. Independentemente do lugar onde estivermos ou do projeto apostólico que desenvolvermos ou dos destinatários de nossa missão, priorizaremos a opção por ser “sinal carismático” do rosto amoroso de Deus pela vida.

FC – Tendo presidido a CRB nacional por dois mandatos, o que significa, no fundo, para os religiosos, um Ano da Vida Consagrada?
Irmã Márian – A palavra mais linda que expressa minha resposta é bênção! Assim, o Ano da Vida Consagrada é uma bênção para nós. Sem que o soubéssemos, nós o pedimos a Deus, como fazem filhas e filhos a seus pais, no início e no término de um dia de vida e de labuta. As últimas décadas impulsionaram a vida consagrada e me refiro, principalmente e por influência de sua pergunta, à vida consagrada no Brasil, a um movimento de releitura, de olhar agradecido por 60 anos de comunhão através da CRB, de maior paixão vocacional e missionária. Então, eis que a bênção nos chegou através dos três objetivos deste Ano da Vida Consagrada.

FC – Quais seriam esses três objetivos?
Irmã Márian – O primeiro é olhar o passado com gratidão para reencontrar a beleza carismática das origens, perceber o crescimento e a adequação aos tempos sem negar os desafios, os esquecimentos, a perda de valores. É, também, recontar essa história aos mais jovens, testemunhando cada fase da riqueza apostólica e missionária de cada irmã e irmão que abriram horizontes e atravessaram fronteiras diante dos desafios da época. E assim fazer memória de que, para fundadoras e fundadores, a regra primeira é o Evangelho a ser vivido em plenitude e testemunhado primeiramente através da encarnação do traço carismático congregacional.

FC – E o tempo presente, que afinal é o qual vivemos, como fica?
Irmã Márian – É justamente o segundo objetivo: viver o presente com paixão para ouvir com atenção o que o Espírito diz à Igreja de hoje, atuar viva e profundamente na direção dos aspectos constitutivos da vida consagrada para testemunhar a paixão por Jesus Cristo, nosso primeiro e único amor, através da radicalidade dos votos religiosos. O momento presente nos interpela sobre a fidelidade à missão que nos foi confiada. Nosso serviço apostólico, nossas obras e nossa presença nos questionam em confronto com a exigência genuína de nossa vocação de aproximar a plenitude do Reino a ser instaurado aqui e agora. Ver o presente com paixão exige de nós uma nova compreensão do “ser especialistas de comunhão”, artífices e testemunhas do projeto de comunhão que está no vértice dos sonhos de Deus para suas consagradas e seus consagrados.

FC – E o terceiro objetivo, pela sequência, só pode ser o futuro, certo?
Irmã Márian – Exatamente. É abraçar o futuro com esperança para superar, na fé, os vários rostos da crise que nos rodeia: poucas vocações, desafios da internacionalidade e da globalização, problemas financeiros e de administração das obras apostólicas, marginalização e irrelevância social. As incertezas que partilhamos entre nós geram humildade e segurança em Deus, que nos diz: “Não temam, eu estou com vocês!”. É preciso fortalecer cotidianamente a consciência de que nossa esperança não repousa em números e coisas que se superam com eficiência, mas em uma pessoa, Jesus Cristo, em quem depositamos plena confiança. Os bonitos e significativos gestos que acompanham a resposta a um pedido de bênção são o abraço e o beijo que qualificam a expressão “Deus te abençoe!”. A vida consagrada no Brasil se sente abraçada e beijada por Deus, neste ano, e agradece ao papa Francisco. Deus o abençoe, Santo Padre, por essa convocação!

FC – O número reduzido de vocações não é um desafio?
Irmã Márian – Ao longo de tantos anos de presença e atuação junto aos institutos religiosos e, nos últimos anos, inúmeras novas formas de vida consagrada, ouso afirmar que não experimentamos a redução de vocações para os carismas. Vivemos, sim, uma preocupante redução de vocações para muitos institutos religiosos, principalmente femininos do mundo ocidental. Considero fundamental essa distinção porque os carismas estão vivos e atraentes, mas talvez estejam quais vinhos novos engarrafados em odres velhos, inadequados para os tempos de renovação que atravessamos, como expressou o papa Francisco na abertura da reunião plenária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica.

FC – Como a senhora entendeu esse recado do papa?
Irmã Márian – Com todas as letras: não devemos ter medo de renovar costumes e estruturas que, na vida da Igreja e da vida consagrada, reconhecemos não mais responder a Deus, que nos pede hoje para fazer avançar seu Reino no mundo. Afinal, são estruturas que nos dão falsa proteção e que condicionam o dinamismo da caridade, costumes que nos distanciam da grei à qual somos enviadas e que nos impedem de ouvir o grito de tantos que esperam pela boa notícia de Jesus. Assim percebida, a resposta se torna mais simples: a vida religiosa precisa buscar seu sentido vocacional mais profundo, mais autêntico! Essa é nossa parte. O chamado vocacional é uma bonita história de amor entre Deus e uma pessoa. Façamos tudo o que nos diz respeito, e Deus concluirá a obra que ele mesmo começou.









Fonte: FC ediçao 951-MAR 2015
Postado por: Família Cristã




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