Misericordiar

Data de publicação: 13/04/2015

Verbo transitivo direto e que se faz urgente para que a Igreja cumpra a sua primeira missão, que é de ser testemunha da misericórdia, misericordiar

Por Moisés Sbardelotto

“O tempo é superior ao espaço”, diz Francisco na Evangelii Gaudium (EG) 222. E quanto tempo coube nesses dois anos de pontificado, comemorados no dia 13 de março! O papa havia pedido “lío” aos jovens argentinos reunidos na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro (RJ), mas foi ele que acabou se revelando como o verdadeiro “bagunceiro”. Mas se trata de uma boa e santa bagunça, que, traduzida em termos mais piedosos, significa uma “conversão pastoral e missionária” que “não pode deixar as coisas como estão” (EG 25). Tudo para que a Igreja cumpra a sua primeira missão, que é de “ser testemunha da misericórdia”, de “muita misericórdia”, como afirmou na celebração penitencial na Basílica de São Pedro, no segundo aniversário da sua eleição.
Nesse dia comemorativo, quem ganhou o presente foi toda a Igreja: o anúncio de um Jubileu Extraordinário totalmente centrado na misericórdia. Depois de 26 jubileus ordinários e de quatro extraordinários em toda a história eclesial, é como se Francisco repetisse, simbolicamente, as mesmas palavras com as quais Jesus apresentou a sua missão: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres (...) e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). O “ano da graça” anunciado por Francisco começará no dia 8 de dezembro de 2015, festa da Imaculada Conceição, “Mãe da misericórdia”, e também aniversário de 50 anos do encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II. Uma data muito significativa, que relembra o chamado dos padres conciliares a uma conversão eclesial, a uma “abertura a uma reforma permanente da Igreja por fidelidade a Jesus Cristo” (EG 27).

A Porta Santa – A entrada principal da Basílica de São Pedro – será aberta poucos dias depois da possível (e também esperada) abertura de outras “portas” eclesiais por parte do Sínodo Ordinário dos bispos sobre a família, em outubro próximo. No desafio de levar o “Evangelho da misericórdia” também a todas as famílias, a Igreja é chamada a ser “uma casa com a porta sempre aberta na acolhida, sem excluir ninguém”, como disseram os padres sinodais na mensagem do sínodo do ano passado. E o próprio Francisco reiterou, na celebração penitencial de março, que as portas da Igreja “permanecem escancaradas para que aqueles que são tocados pela graça possam encontrar a certeza do perdão”.
Palavras claras, fortes e diretas: mais do que programáticas, processuais. Francisco convida a experimentar a misericórdia como um “caminho que inicia com uma conversão pessoal”. Não é um substantivo, mas um verbo, um movimento pessoal de aproximação a um Deus rico em misericórdia: “Não esqueçamos que Deus perdoa tudo e Deus perdoa sempre”, afirmou. O seu lema episcopal – e hoje papal – também revela isso: “Miserando atque eligendo”. A própria tradução dessa frase exige um movimento linguístico: “Misericordiando e escolhendo” (a referência é ao gesto de Jesus no trecho evangélico da vocação do discípulo Mateus). Misericordiar, viver a misericórdia, é pôr-se em movimento: acolher o Deus que sempre se aproxima de nós e nos fazer próximos ao irmão.
Nos seus dois anos como pontífice, Francisco conjugou esse verbo em palavras e ações. Começando pelo seu primeiro Ângelus, no dia 17 de março de 2013, quando disse que a misericórdia é uma palavra que “muda tudo”, que “muda o mundo”, porque “um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo”. Na Evangelii Gaudium 37, citando São Tomás de Aquino, Francisco lembra que “a misericórdia é a maior das virtudes”. Na Mensagem para a Quaresma deste ano, ele também pede que as paróquias e comunidades “se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença”. E no Ângelus do dia 15 de março passado, indicou a “expressão mais simples que resume todo o Evangelho, toda a fé, toda a teologia”: “Deus nos ama com amor gratuito e ilimitado”.
Mas qual o momento por excelência em que cada pessoa pode experimentar a misericórdia? Segundo o papa, é o Sacramento da Reconciliação. E Francisco diz isso por experiência própria. A sua biografia oficial no site da Santa Sé informa que, “na festa de São Mateus de 1953, o jovem Jorge Bergoglio experimentou, aos 17 anos, de um modo totalmente particular, a presença amorosa de Deus na sua vida. Depois de uma confissão, sentiu seu coração ser tocado, e a misericórdia de Deus descer sobre ele e, com olhar de terno amor, chamá-lo à vida religiosa, a exemplo de Santo Inácio de Loyola”.
Mais de 60 anos depois, na celebração penitencial em que anunciou o Jubileu, Francisco também quis se confessar – mas agora como sumo pontífice, em um daqueles grandiosos (e quase assustadores) confessionários de madeira escura da Basílica de São Pedro. Ajoelhado diante do primeiro padre que encontrou, de pés juntos, os braços quase esticados para conseguir se apoiar no confessionário, a barra da batina enroscada nos sapatos pretos, como se ainda fosse aquele jovem de 17 anos, o papa deu o exemplo. Logo em seguida, inverteu os papéis e ouviu a confissão do povo de Deus. Porque, para ele, a relação que se estabelece entre Deus, o confessante e o confessor é uma verdadeira “arte do acompanhamento”, um processo pedagógico, uma escola de misericórdia.
Como explicou no dia 12 de março ao Tribunal da Penitenciária Apostólica, o Sacramento da Reconciliação é um meio para educar à misericórdia. Ou seja, “ajudar os nossos irmãos a fazer experiência de paz e de compreensão, humana e cristã. A confissão não deve ser uma ‘tortura’, mas todos deveriam sair do confessionário com a felicidade no coração, com o rosto radiante de esperança”. E, em segundo lugar, também é uma experiência para os confessores de se deixarem educar à misericórdia. “Quantas vezes” – disse o papa – “nos acontece de ouvirmos confissões que nos edificam! Irmãos e irmãs que vivem uma autêntica comunhão pessoal e eclesial com o Senhor e um amor sincero pelos irmãos. (…) Quanto podemos aprender com a conversão e com o arrependimento dos nossos irmãos!”. Para o papa, a reconciliação é “pura graça de Deus”, dada “gratuitamente e por amor ou, melhor, justamente por misericórdia”.
Por isso, com o grande gesto da convocação de um Jubileu Extraordinário, Francisco dá um sinal claro do horizonte ao qual deseja orientar não apenas o próximo Sínodo, mas também o futuro da Igreja, retomando o passo do Vaticano II. Ao desejar abrir a Porta Santa, o papa relembra que “a Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai” (EG 47). E no dia 20 de novembro de 2016, festa de Cristo Rei, quando Francisco encerrar o jubileu, outras “portas” deverão estar abertas em uma Igreja na qual “todos podem participar” e “nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer” (EG 47). Seja o sacramento que for, seja quem for.

* Moisés Sbardelotto é jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul e La Sapienza, em Roma. É também  autor de E o Verbo se Fez Bit (Editora Santuário).


Herança judaica
O primeiro Jubileu – ou Ano Santo – Extraordinário anunciado por um papa aconteceu em 1585 por uma iniciativa de Sisto V, para inaugurar seu pontificado, que se estendeu até 1590. Somente um papa pode proclamar um Jubileu Extraordinário e, mesmo assim, motivado por alguma forte necessidade ou pela ocasião de aniversários de acontecimentos relevantes. O que explica a razão de eles serem raros. Este será apenas o quarto jubileu em mais de 2 mil anos de cristianismo, contra 26 jubileus ordinários que ocorrem a cada 25 anos. Depois de Sisto V apenas Pio XI, em 1933, convocaria outro Jubileu Extraordinário para celebrar os 1.900 anos da redenção realizada por Jesus na cruz, no ano 33. Em 1983, João Paulo II convocaria o segundo Jubileu Extraordinário do século 20, também para celebrar os 1.950 anos da redenção cristã. O jubileu convocado em março por Francisco tem o objetivo de lembrar os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II (1962-1965), que modernizou a Igreja e abriu seu diálogo com o mundo.
A celebração dos jubileus na Igreja Católica é uma tradição herdada do judaísmo. Tanto que o termo jubileu deriva do hebraico, jobel ou yobel, que significa "cabra", em referência ao chifre de carneiro usado em cerimônias sagradas durante os jubileus realizados pelos antigos judeus. Entre eles, a celebração, um preceito da lei de Moisés, determinava a realização, a cada 50 anos, de uma solenidade pública destinada a restabelecer a igualdade para todos os filhos de Israel, abrindo possibilidades de recuperação para as famílias que tinham perdido sua propriedade e liberdade pessoal. Nelas, as dívidas eram perdoadas, os escravos eram libertados e os herdeiros tomavam posse de suas heranças. Na Igreja Católica, esse espírito se manteve, pois, durante um jubileu, em certas ocasiões, se dá a indulgência plena e geral por parte do papa. Por extensão, na sociedade, um jubileu passou a ser a comemoração do quinquagésimo aniversário de um matrimônio, do exercício da função sacerdotal e mesmo do exercício de uma função qualquer.




Fonte: Familia Crista ed. 952 abril 2015
Postado por: Família Cristã




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