O perigo mora em casa

Data de publicação: 24/04/2015

Em 94% dos casos de agressão contra mulheres, o parceiro, o ex ou um familiar da vítima é o agressor

Karla Maria

Ela não gosta de tocar no assunto que deixou no passado, há 20 anos. Os gritos, os tapas, as pancadas, a pressão e a tortura psicológica que sofreu ao longo de seis anos.  Ela, aqui chamada de Beatriz, tinha 28 anos de idade e apanhava de seu marido, hoje, o ex. Conversamos sobre a violência que viveu, em meio à cidade agitada, barulhenta, em uma São Paulo (SP) de tantas outras mulheres que, assim como Beatriz, têm histórias a contar, e mais, denúncias a fazer.

“Sofri diversas agressões, uma delas aconteceu quando fui cortar o cabelo e me demorei um pouco, ele pegou minha cabeça e bateu na parede. Quebrou meu braço”, conta assim, meio sem jeito, decidida a desabafar. “Outra vez, ainda amamentando, ele chegou bêbado. Fingi que estava dormindo, ele pegou os livros da estante e tacou para cima de mim, mesmo eu estando na cama com o bebê.”

E assim a conversa se silenciou forçadamente. O olhar se encheu de lágrimas e cicatrizes ainda não fechadas reapareceram. Ela lembrou a vergonha, a humilhação que sentia toda vez que fugia para a casa dos parentes e amigos e, mais, o medo que a fez permanecer na relação durante anos. “Eu tinha medo, insegurança, baixa autoestima, não enxergava a situação.” Ela tentava reagir, mas...

“A polícia vinha toda hora na minha casa, mas como eu morava de aluguel, o proprietário disse para eu me mudar, porque a situação estava inconveniente e criava muita confusão”, conta Beatriz, que apanhou e levou chutes assim que saiu da maternidade, ao amamentar seu filho. A família chegou a intermediar o que quase resultou em tragédia. “Meu pai foi lá conversar, começaram a brigar e quase se mataram”, desabafa.

A história de violência vivida dentro de casa, espaço sagrado da família, se repete milhares de vezes pelo Brasil. Pesquisa alarmante do Disque 180, o canal de denúncias da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República, revela que, de janeiro a junho de 2014, dos 30.625 casos de violência contra mulheres, 94% tinham o parceiro, o ex ou um familiar da vítima como autor da agressão.

Entre os tipos de violência informados nos atendimentos realizados pelo Disque 180, os mais recorrentes foram violência física: 15.541 relatos; seguida pela psicológica: 9.849; moral: 3.055; sexual: 886; e patrimonial 634. Outra pesquisa, realizada pelo Data Popular e pelo Instituto Patrícia Galvão, revelou que sete em cada dez entrevistados consideram que as brasileiras sofrem mais violência dentro de casa do que em espaços públicos, sendo que metade avalia ainda que as mulheres se sentem de fato mais inseguras dentro da própria casa. “Imagine o que é conviver 24 horas se submetendo a um agressor. As consequências psicológicas são inúmeras e graves, podendo ir de estresse à depressão e, até mesmo, ao suicídio e/ou homicídio. A morte, de uma forma ou de outra, está à espreita no final do túnel da violência doméstica”, explica a psicóloga Maria Amélia Azevedo, em artigo publicado na revista Psique Ciência e Vida


Tortura –
Mas por que as mulheres permanecem sob tortura? O que as impede de denunciar os companheiros e sair da situação de violência? “Mulheres não denunciam a violência que sofrem, principalmente, por medo. Medo não só do autor da violência e de não receberem a proteção necessária para acabar com a situação, mas medo também da pessoa que recebe a denúncia”, conta a advogada do Centro de Referência em Direitos Humanos Dom Helder Câmara, da Cáritas Brasileira, Mariana Malheiros.

 A advogada lembra que as mulheres vítimas de violência também são consideradas culpadas pela situação que viveram. “Muitas vezes quem recebe a denúncia entende que é obrigação da mulher sempre estar disponível para as vontades do seu companheiro. Assim, por estas situações, o medo da mulher é triplo: do companheiro, de ser julgada pela violência sofrida e não ter o apoio necessário para sair daquela situação”, alerta. Para a psicóloga Maria Amélia, “a pessoa se submete, seja na esperança (vã) de que a violência passe, como se fosse uma gripe, seja quando não consegue enxergar e/ou trilhar outro caminho”.

Beatriz não sabe por que demorou tanto tempo no relacionamento. Chora ao lembrar que não via saída e não se sentia protegida. “Fui à delegacia das mulheres, mas naquela época esses órgãos de proteção à mulher não eram tão sérios”, conta, 20 anos depois, aos 48 anos de idade.

Outras mulheres e outros depoimentos nos ajudam a compor o cenário desolador. “Tento sair desta relação traumatizante e não consigo, ele faz com que me sinta culpada, e nem tenho forças mais. Enquanto eu não consigo tomar atitude, ele continua se drogando dia após dia. Estou sofrendo em silêncio, sorrindo para os outros, enquanto meu coração está em pedaços. Estou morrendo um pouco a cada dia”, desabafa a gaúcha, que aqui chamaremos de Gabriela.

O mapa da violência – Beatriz, Gabriela, Sonia, Maria. São milhares as brasileiras que passam por essa situação. Talvez você conheça uma delas, talvez você seja uma delas, e se for, acredite, você não está sozinha. O Mapa da Violência de 2012, elaborado por Julio Jacobo com base nos dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde e atualizados pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), um estudo mais recente sobre o tema, revela que foram registrados no Brasil, em 2009, 107.572 atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) relativos à violência doméstica, sexual e/ou outras violências. Do total de registros de violência no Brasil, 65,4% dos atendimentos foram a mulheres, ou seja, 70.285 casos. Deve-se considerar, contudo, que os casos registrados nessa pesquisa são aqueles que demandam atendimentos públicos, ou seja, os casos atendidos por hospitais e clínicas particulares não foram registrados.

Sobre os tipos de violência, a física é preponderante (44,2%), seguida da psicológica (20,8%) e da sexual (12,2%), sendo que a violência física adquire destaque a partir dos 15 anos de idade, enquanto a sexual é muito significativa até os 14 anos. “São atos violentos com uso da força física de forma intencional, não acidental, com o objetivo de ferir, lesar ou destruir a pessoa, deixando, ou não, marcas evidentes no seu corpo. Ela pode se manifestar de várias formas, como tapas, beliscões, chutes, torções, empurrões, arremesso de objetos, estrangulamentos, queimaduras, perfurações, mutilações”, registra o mapa.

Entre os 20 e 50 anos de idade da mulher, o parceiro é o principal agente da violência física. Até os nove anos de idade e a partir dos 60, os pais e os filhos são os principais agressores, respectivamente. O mapa define a violência física como “toda ação na qual uma pessoa, em situação de poder, obriga uma outra à realização de práticas sexuais, contra a vontade, por meio de força física, influência psicológica, uso de armas ou drogas, como jogos sexuais, práticas eróticas impostas a outros, estupro, atentado violento ao pudor, sexo forçado no casamento, assédio sexual, pornografia infantil, entre outros”, define o documento.


No papel – Desde a promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, a mulher vítima de violência doméstica e familiar tem sido incentivada a denunciar seu agressor e buscar soluções para o rompimento do ciclo de violência em que vive. Como a lei é mais rigorosa e impõe punições severas ao autor do crime, o encarceramento tem sido maior.

Levantamento do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do Ministério da Justiça, realizado entre 2008 e 2012, mostra que cerca de 2 mil homens são presos anualmente por agredirem suas parceiras.

“Embora verifiquemos que a mulher tem denunciado mais a violência sofrida, muitas delas ainda demoram anos para denunciar, por uma série de fatores, desde a crença de que o agressor possa mudar, a questão afetiva, os filhos, dificuldades financeiras, medo de cobrança de familiares, amigos, medo de represálias por parte do agressor, enfim, uma gama de fatores que impede que ela efetue a denúncia”, revela a delegada de polícia titular, do Serviço Técnico de Apoio às Delegacias de Defesa da Mulher, Gislaine Doraide Ribeiro Pato.

Gislaine destaca as leis Maria da Penha e do Feminicídio, recém-sancionada pela presidente Dilma Rousseff, como importantes avanços no enfrentamento à violência doméstica e familiar. “A Lei Maria da Penha não apenas criou mecanismos para  coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, como estabeleceu medidas de assistência e proteção, por exemplo, ao dispor sobre as medidas protetivas de urgência, e também previu atendimento multidisciplinar, encaminhamento oficial ou comunitário de proteção ou de atendimento à mulher.”

A Lei do Feminicídio classifica o homicídio − nos casos de violência contra a mulher − como crime hediondo, homicídio qualificado e, dentre outras medidas, aplica pena maior ao agressor. Nos últimos 30 anos, houve aumento de 230% no quantitativo de mulheres vítimas de assassinato, sendo que só na última década foram assassinadas 43,7 mil mulheres. Os dados também são do Mapa da Violência 2012.


Por que há agressão? –
Por que homens agridem mulheres? A pergunta ainda parece encontrar resposta em raízes culturais. Para o filósofo e sociólogo Sérgio Flávio Barbosa, a cultura machista e patriarcal é a base da violência contra as mulheres. “Mulheres e homens são educados em valores culturais onde se legitima a dominação masculina sobre as mulheres. A base de nossa sociedade é machista. A educação é machista. Reproduzem valores nos quais mulheres são sempre inferiores aos homens. Com esse cenário construído, a violência contra as mulheres apenas tende a crescer”, avalia Barbosa, que é também membro do Comitê Gestor da Campanha do Laço Branco: Homens pelo Fim da Violência Contra a Mulher.

Para o sociólogo, muitos homens não refletem sobre suas atitudes porque já estão enraizadas, cristalizadas. “As mulheres estão em todos os setores da sociedade, mas ainda são desrespeitadas em suas qualidades. Nós, homens, temos que aprender a refletir sobre este lugar na sociedade. Temos que abrir mão deste patriarcado que também nos aprisiona em nós mesmos”, conclui Barbosa.

Especialistas que militam na causa das mulheres e pelo fim da violência contra elas acreditam que a denúncia desse crime é dever de toda a sociedade. “Ao repetirmos a frase ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’, também perpetuamos a cultura machista em âmbito doméstico, aceitando que exista violência nas relações conjugais, assunto em que não se deve intervir”, afirma a advogada Mariana Malheiros.

Mariana, que atende mulheres em situação de violência, revela que é muito comum escutar histórias de mulheres que apanharam do marido porque não prepararam o jantar. “Convencionou-se que esposas precisam preparar o jantar para seus esposos, e, caso não se cumpra o que se espera, é aceitável que a mulher apanhe. Homens e mulheres são iguais em dignidade e direitos, o que fica claro no caput do artigo 5º da Constituição Federal, por isso mesmo deve existir respeito mútuo nos relacionamentos entre ambos”, lembra a advogada.

Para ela, as políticas públicas acerca do problema aumentaram, mas ainda são insuficientes, e a falta de delegacias da mulher, casas-abrigo, juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, de programas de apoio e centros especializados desencorajam a mulher que quer denunciar, que quer sair de casa. "Um dos fatores que impede a denúncia é a falta de autonomia financeira das mulheres. A política pública precisa atender a mulher na sua integralidade. Precisa-se pensar em moradia, trabalho, segurança, saúde e educação para que não mais seja vítima de violência e possa assumir sua própria vida”, desafia Mariana.

Beatriz foi vítima. Gabriela é vítima. Violência contra a mulher, Disque 180 − Central de Atendimento à Mulher.






Fonte: FC ediçao 952-ABRIL- 2015
Postado por: Família Cristã




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