Das ruas para casa

Data de publicação: 24/04/2015

A dura missão de, nas piores condições, manter uma família unida e garantir a ela uma vida digna e com direito à esperança

Por César Vicente - Fotos Luciney Martins

Realizados no Brasil desde 1872, os recenseamentos demográficos ainda excluem moradores em situação de rua. A única pesquisa que os ouviu, em 2007, não foi propriamente um recenseamento: a iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) cobriu apenas 71 dos 5.570 municípios do País. Mas isso vai mudar. Em 2014, uma experiência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelos levantamentos desde 1936, entrevistou 100 moradores de rua no Rio de Janeiro (RJ) com o objetivo de incluir sistematicamente essa população nos recenseamentos. Segundo a irmã Cristina Bove, coordenadora nacional da Pastoral do Povo de Rua, a inclusão, já no censo nacional de 2020, será mais um passo para a promoção dessa população. “O mapeamento dará visibilidade a ela, orientando e subsidiando a construção de políticas públicas para o segmento”, aponta.

Sem informações seguras, pouco se sabe sobre os moradores em situação de rua do País. Mas, tendo por base o que os olhos veem, não é preciso elaborar demais para saber que uma das razões que levam os brasileiros para as ruas é a pobreza – no levantamento parcial de 2007, 29,1% dos 31.922 adultos entrevistados apontavam o desemprego como a principal razão de viverem na rua. A dramaticidade acentua-se quando se trata de famílias. Em tais condições, a maioria se desagrega. Preservar os laços e a unidade familiares é quase um milagre ou resultado de um esforço sobre-humano dos seus responsáveis. A família chefiada pela operadora de telemarketing Josielma de Jesus Silva, de São Paulo (SP), cabe na exceção.

Lutas – Em seus 46 anos de vida, Josielma, paulistana do bairro de São Miguel Paulista, colecionou lutas e dificuldades que começaram ainda criança, com a morte da mãe, tuberculosa. Como já não tinha pai, aos 12 anos se casou com um homem de 42 anos que, conforme ela recorda, acabou de criá-la. “José me ensinou a cozinhar, lavar e cuidar da casa. Ficamos casados 15 anos, tempo para termos cinco filhos”, afirma. A situação piorou quando José, alcoólatra, perdeu o emprego de motorista, vendeu a casa em que moravam e voltou, com todos, para Petrolina (PE). Lá, afundou-se no alcoolismo e, um dia, morreu. “O dinheiro acabava e morando de favor, com todos em dificuldade, não podia ficar ali. Voltei para São Paulo porque sabia que de fome, aqui, não morreríamos”, lembra.

Mas na capital conheceu de perto a miséria que avistava havia tempos. Na zona leste, auxiliada pela Pastoral da Moradia, montou um barraco em uma área invadida e ali passou a viver com um companheiro. Enquanto os filhos do primeiro casamento partiam, teve mais cinco filhos. Mas apertos financeiros e desentendimentos com o companheiro a levaram para a rua, onde foi encaminhada à Central de Triagem e Encaminhamento o Migrante/Itinerante e Morador de Rua (Cetrem). Ali conheceu um “corretor” que lhe vendeu um barraco em uma favela. Passados três meses, a surpresa: o verdadeiro dono do local, que estava preso, apareceu e lhe tomou a moradia. Na rua, peregrinou por abrigos, albergues e hotéis baratos. “Meu medo era que me tomassem as crianças. Lutei para não acontecer. De manhã, eu os deixava na escola, ia procurar emprego e, à tarde, os buscava”, lembra Josielma. 

Autonomia – Em dado momento, a situação pareceu melhorar. Orientada pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e já trabalhando como operadora de telemarketing, Josielma conseguiu juntar algum dinheiro e alugar uma pequena casa. Mas uma falha ao deixar um equipamento ligado no serviço lhe rendeu uma dispensa no trabalho e um despejo. De novo na rua, ela voltou a procurar os serviços de assistência social. Foi para um abrigo na Vila Prudente, depois para a Casa do Mmigrante e, finalmente, começou a receber o Bolsa Família. Também conheceu um novo projeto social voltado para as famílias e que parecia apropriado a casos como o dela. Desde meados do ano passado, ela e os filhos estão no Projeto Autonomia em Foco, criado pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo e gerenciado pela Organização Serviços Assistencial Senhor Bom Jesus dos Passos.

A iniciativa oferece abrigo a famílias em situação de rua que já têm renda e estão próximas da autonomia. Nele, cada grupo tem alojamento pessoal, onde, com privacidade, dispõe de pertences pessoais, como roupas e TVs. As famílias também são responsáveis pela própria alimentação e limpeza dos quartos. Por outro lado, crianças e adolescentes têm vagas em creches, escolas e nos Centros de Convivência da Criança e do Adolescente no contraturno escolar. Os beneficiados ainda podem fazer cursos pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico (Pronatec) e encaminhamento para o mercado de trabalho. Tanto que Josielma está de novo empregada. A filha mais velha, Isabel, de 17 anos, está no Programa Jovem Aprendiz, e o mesmo caminho deverá ser seguido por Vitor, de 13 anos; Yasmim, 10;  e Lucas, de 8 que, por enquanto, só estudam.

Sem riscos – Escaldada pelos tombos, Josielma agora quer dar um passo de cada vez. E, para isso, terá o de que mais precisa: tempo. “Não existe prazo determinado para ficar aqui. Cada família tem uma história diferente e, por isso, precisa ser trabalhada separadamente. Nós nos empenhamos para elas se reestruturarem com autonomia e protagonismo, mas isso não acontece de um dia para outro”, explica o gerente de equipamentos do projeto, Roberto Gimenes Flores. “Vou sair daqui quando sentir que não corro mais risco de cair. O que não significa que ficarei aqui para sempre, pois quero ter a minha casa”, explica Josielma. Até lá, ao lado dos filhos que tanto lutou para permanecerem ao lado dela, sabe que, na pior das hipóteses, terá um chão e um teto para sua família.





Fonte: FC ediçao 952-ABRIL- 2015
Postado por: Família Cristã




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