Nas mãos do oleiro

Por Andreza Espezim

Nos tempos bíblicos, os jarros e vasos de barro eram muito usados, sendo essenciais para os trabalhos do dia a dia. Ainda hoje, o oleiro da roda de torno mantém viva a tradição da fabricação de utensílios de cerâmica em Santa Catarina, com a Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros.

A seis quilômetros de Florianópolis, a cidade de São José, antes chamada de São José da Terra Firme, é considerada a cidade catarinense da louça de barro. Através da Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros, fundada em 1992, na comunidade de Ponta de Baixo, a cidade recupera, valoriza e repassa as técnicas da olaria, garantindo a manutenção e continuidade dessa tradição herdada dos núcleos dos casais açorianos que fundaram a cidade.

Na Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros são oferecidas oficinas de iniciação à cerâmica na roda de oleiro tradicional feita de madeira e movida com os pés, oficinas em torno elétrico, aulas de modelagem e de peças figurativas e aulas de esmaltação. Através dessas oficinas, os alunos aprendem a produzir peças utilitárias, como: alguidar, caçarola, mata-fome, boião, moringa, sopeira, açucareiro, frigideira, bule, chaleira, xícara, pires, filtro, vaso, etc. Também retratam manifestações folclóricas, através das peças figurativas, como a festa do Divino Espírito Santo, a procissão do Senhor dos Passos, o boi-de-mamão, pau de fitas, terno de reis, pão-por-Deus, presépio, etc. A Escola de Oleiros ainda oferece o curso de modelagem diversas, relacionado à arte indígena.

Por volta da década de 40 existiam cerca de 50 olarias funcionando na cidade de São José, fabricando desde vasos, filtros e utensílios domésticos até manilhas para tubulação de esgoto e chaminé. Porém, com o advento do alumínio esse número de olarias foi diminuindo. “Das cerâmicas que são encontradas pelos pesquisadores, arqueólogos e tal, 90 porcento das que têm nome, assinatura, 90 porcento são assinaturas com nomes masculinos. Essa tradição veio pra cá. Então, não tinham mulheres oleiras, eram só homens. Só que a necessidade e a vontade de trabalhar com argila, fez com que elas desenvolvessem um trabalho figurativo, um trabalho manual. Então a gente tem por tradição o oleiro, aqui em São José, que faz as panelas, os pratos, esses utensílios. E temos geralmente as esposas dos oleiros que produzem o boi-de- mamão, os presépios, que fazem essa parte mais figurativa”, conta Luciano da Silva, pedagogo e professor da Escola de Oleiros.

No local onde funciona a Escola de Oleiros funcionava a olaria de Joaquim Antônio de Medeiros, que dá nome à Escola. Mais tarde, a olaria ficou aos cuidados de José de Souza, avô do professor Luciano, que desde menino tem contato com as louças de barro. Brincando, prestando muita atenção aos movimentos que dão forma à argila e ajudando a empilhar as peças que seriam vendidas, teve os mais detalhados ensinos com o pai na roda de oleiro. Hoje com 37 anos, sonha em passar essa tradição para o filho que está para nascer.

Roda da história

Com a argila na mão firme do oleiro, um pote de água, o pé dando ritmo à roda, o barro ganha forma. Se o resultado não for bom, o oleiro amassa novamente o barro e começa a dar a forma desejada. Tudo precisa estar em sintonia! Depois a peça é colocada ao sol para secar. Em seguida vai para o forno e transforma-se numa cerâmica.

A olaria é considerada a indústria mais antiga, que utiliza o barro ou argila como matéria prima. Na história primitiva foram as mulheres que começaram a fazer cerâmica, revestindo cestos de palha com argila. Com o surgimento do fogo, esses utensílios foram ganhando forma e os homens foram tomando o espaço das mulheres no exercício dessa atividade, criando a roda de oleiro para produzir em maior escala.

No Brasil a técnica de queimar o barro já era de conhecimento dos indígenas que habitavam o território. Os portugueses que colonizaram o nosso país estruturaram a mão-de-obra e a modernização da técnica foi feita com ajuda dos padres jesuítas, quando introduziram os tornos e as rodadeiras.

Os antigos usavam os jarros vasos para tirar água das cisternas, estocar vinho e óleo, pois o vaso mantinha uma temperatura agradável. Os filtros de água sempre foram muito usados para manter a água boa para o consumo.

Oleiro de São José

Pedro João da Rosa, 65 anos de idade, faz um pedido: “Se você me permite eu quero fazer um relato de uma coisa que pra mim é muito importante. No nome da placa não tá o meu nome, meu nome tá embaixo. O nome daquela moça que tá ali, ela foi a minha professora, eu aprendi com ela, num ranchinho que nós tinha bem aqui”. Seu Pedro se refere à placa da sua olaria, com o nome de Zenir Josefa de Souza, irmã de criação e responsável em incentivá-lo e ensiná-lo a arte-ofício da olaria.

Segundo seu Pedro, Zenir desafiou os costumes da época quando começou a trabalhar com cerâmica, produzindo miniaturas com muita habilidade. Era década de 1950 e olaria era considerada lugar de homem. “Meu pai era um homem criado na olaria, apoiou a minha irmã, porque viu que ela tinha jeito pra esse trabalho. Deu um par de calças pra ela, porque pra trabalhar de vestido não dava. Ela começou a desenvolver aquele produto em miniatura, foi indo, foi indo, começamos a vender. Ela começou a vender a louça crua, levava num carrinho de mão, que naquela época não tinha esponja. Hoje se leva qualquer louça numa esponja. Naquela época era ou capim ou então pedaço de estopa, coisa assim que era mais macia né. Um pedaço de cobertor, enrolava, forrava embaixo e fazia tipo uma gamela dentro de carro de mão pra colocar as loucinhas ali e levava devagarinho”, relata o oleiro mais velho de São José, que aos 14 anos de idade começou a produzir junto com a irmã e tornou-se um oleiro.

Atualmente São José tem cerca de cinco olarias em funcionamento, entre elas a do seu Pedro, que ainda ensina na Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros.

Conhecendo um pouco da importância das olarias, pode-se compreender porque a Bíblia compara a vida a um vaso nas mãos do oleiro. O vaso é feito para um propósito e cada vaso é único. Se porventura o vaso tiver defeitos, o oleiro não o joga fora, mas molda o barro novamente, fazendo um vaso novo.



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Fonte: Reportagem
Postado por: Família Cristã




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