Águas do Sertão

Data de publicação: 04/05/2015

Canindé de São Francisco abriga o quinto maior cânion navegável do mundo, esse paraíso de águas verdes e cristalinas recebe cerca de 2 mil turistas por dia

Por Jucelene Rocha Fotos Jesus Carlos/Imagemglobal
 
"A beleza aqui é como se a gente a bebesse, em copo, taça, longos, preciosos goles servida por Deus. É de pensar que também há um direito à beleza, que dar beleza a quem tem fome de beleza é também um dever cristão", esse fragmento da celebrada obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, veio em minha mente com a velocidade de um raio assim que avistei os primeiros metros do percurso de 17 quilômetros de navegação entre a charmosa Canindé de São Francisco (SE) até o trecho de montanhas rochosas que formam o cânion do São Francisco.
O percurso que leva os visitantes até a parte mais imponente do cânion desperta também o interesse pelo único bioma do nosso território nacional exclusivamente brasileiro: a caatinga. Isso significa que grande parte do patrimônio biológico da caatinga não pode ser encontrado em nenhum outro lugar do planeta.
Encravado no coração do sertão nordestino, os Cânions do São Francisco surge como um oásis em meio à aridez da caatinga, bioma marcado pela vegetação resistente a longos períodos de seca. Apesar da aridez que de maneira genérica e equivocada associamos à ausência de vida, a caatinga também tem seus encantos, belezas e sim, tem vida, muita vida!

A paisagem − A austeridade da vegetação é rapidamente interrompida pela força das águas que modificam a paisagem e marcam o ritmo da vida nas cidades e povoados ribeirinhos banhados pelo Velho Chico. Árvores como a catingueira (Caesalpinia pyramidalis) dão o tom da vegetação, esse arbusto pode atingir até 4 metros de altura e também possui uso medicinal para doenças intestinais. Dependendo do período do ano, produz um lindo e vibrante verde ou forma a chamada mata branca, isso porque a árvore perde todas as folhas deixando expostos apenas o emaranhado de galhos de cor acinzentada. Quando vistos de longe, esses galhos formam uma espécie de mancha branca na paisagem, foi por causa da predominância dessa árvore no semiárido nordestino que se conferiu a este bioma o nome de caatinga.
Localizado a 213 quilômetros da capital sergipana, o Cânion do Xingó além de ser o quinto maior do mundo, quando levada em consideração a possibilidade de navegação se torna também um dos mais expressivos. As belas rochas areníticas que formam o cânion parecem ter sido talhadas à mão e possuem cerca de 60 mil anos. Entre essas formações rochosas ainda permanecem guardados vestígios dos primeiros habitantes da região, que viveram por lá há mais de 8 mil anos.

O trajeto − O passeio pode ser feito de lancha, por duas horas, ou de catamarã, neste caso o trajeto é realizado em três horas de navegação. No percurso realizado a bordo do catamarã, é possível observar melhor as belezas das margens do Rio São Francisco, que vão se revelando na imensidão de suas águas ora tranquilas, ora turbulentas, em alguns trechos de cor escura e em outros de um verde profundo, translúcido e exuberante. Ao longo do percurso, é possível conhecer, por intermédio dos guias turísticos, um pouco da história do rio no trecho que banha os estados de Sergipe e Alagoas e das transformações que vêm sofrendo com o passar dos anos. 
Foi a construção da barragem da Usina Hidroelétrica de Xingó, no Rio São Francisco, que revelou a formação rochosa e os vales profundos que formam este cânion com 65 quilômetros de extensão, 170 metros de profundidade e largura que varia de 50 a 300 metros. As rochas de granito avermelhado e cinza na encosta, além das diferentes espécies de aves e répteis na caatinga, formam um cenário paradisíaco.
No meio do caminho também é possível observar diversas demonstrações de fé dos moradores dos municípios de Piranhas (AL) e Canindé de São Francisco, cidades banhadas pelo Rio São Francisco e que dão acesso ao cânion. Nos paredões rochosos é possível ver, por exemplo, uma espécie de nicho esculpido onde está uma singela e inspiradora imagem de São Francisco de Assis. Em reverência ao santo que dá nome ao rio, os catamarãs param em frente ao nicho provocando emoção e despertando o sentimento religioso que caracteriza a história das famílias ribeirinhas e as comunidades de pescadores locais.
Ao longo do trajeto, também há diversas amostras do que se verá no cânion: belíssimos paredões rochosos esculpidos pelo tempo e pelo clima que, por diversas vezes, parecem ter formas perfeitas, como de alguns animais, a exemplo da Pedra do Gavião.

Banho revigorante − Após navegar no lago represado pela hidrelétrica e no leito natural do Rio São Francisco a bordo do Catamarã Padre Cícero, um dos sete que fazem o trajeto, chegamos ao destino final, os cânions que estão na área do Paraíso do Talhado, local em que as embarcações ancoram em um píer, onde finalmente podemos nadar ou mergulhar em meio aos paredões mais altos do cânion, aí a profundidade do rio chega a 15 metros. Para muitos, pensar em nadar livremente nesta profundidade e no meio do rio é assustador; para outros, um estímulo a mais para cair na água. Mas nadadores exímios, amadores e até mesmo quem não sabe dar nem sequer uma braçada podem entrar na água com segurança, há inclusive coletes flutuadores e boias espaguete à disposição. Para aumentar ainda mais o grau de segurança, redes de proteção também cercam todo esse trecho sem, no entanto, prejudicar a paisagem, a saúde do rio ou o deleite dos banhistas, que também são acompanhados de perto por atentos e preparados salva-vidas. Há ainda uma área reservada de pouca profundidade, cerca de 1 metro, que garante também a diversão de crianças e adultos pouco corajosos.
Mesmo com toda a sensação de pequenez e até de medo que sentimos diante da grandiosidade dos paredões e da imponência do rio, é praticamente irresistível a vontade de mergulhar nas águas cristalinas, geladas e revigorantes no calor que facilmente supera os 40 graus.
 Para chegar ao lugar mais deslumbrante do cânion, requer certa dose de coragem, pois é necessário fazer a navegação em canoas que adentram as formações rochosas e onde se fica tão próximo dos paredões que é possível tocá-los. O mais encantador passeio de canoa entre as estreitas fendas dos paredões permite observar em detalhes a beleza das águas esverdeadas e cristalinas do São Francisco, além de possibilitar a observação das tonalidades e formações nas rochas arquitetadas ao longo de milhares de anos nesta região.

Dívida ambiental − Navegar pelo Rio São Francisco no trecho que dá acesso aos cânions, além de ser uma gostosa aventura em estreito contato com a natureza e com a cultura do sertão profundo, pode ser também uma viagem no tempo ou uma imersão histórica refazendo os caminhos do imperador Dom Pedro II e sua comitiva, que navegaram por essas águas em 1859 partindo da cidade de Piranhas até sua foz, a 220 quilômetros de distância. Atualmente o processo de assoreamento provocado pelo desmatamento da vegetação nativa e as inúmeras agressões ambientais sofridas ao longo dos anos impossibilitam a navegação por diversos trechos do rio que certamente estariam irreconhecíveis aos olhos dos europeus que por aqui navegaram na segunda metade do século 19 e, deslumbrados com a beleza dessas águas, deixaram inúmeros relatos em diários de bordo ainda hoje preservados.
 O rio e as cidades por ele banhadas testemunharam histórias incríveis e memoráveis, como, por exemplo, a saga de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião e seu bando. Partindo de Piranhas, cidade tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e após uma hora navegando pelo Velho Chico, chega-se a um atracadouro em Canindé de São Francisco. Depois, mais 3 quilômetros de trilha a pé pela caatinga e acessamos a Grota do Angico, local que testemunhou a morte de Lampião e o fim de uma busca histórica pelo mais emblemático e maior cangaceiro de que se tem notícia. Mas aí já é uma história que nos espera em outras páginas desta viagem! Enquanto isso, o Rio São Francisco segue resistindo como guerreiro líquido que luta bravamente para continuar banhando o alto sertão, cobrindo de amarelo as matas com a flor da catingueira e revigorando os rincões esquecidos do Nordeste brasileiro.
Assim como na obra de Guimarães Rosa, para o povo sertanejo o Rio São Francisco não compõe apenas um cenário, uma alegoria ou uma paisagem decorativa, ele sempre foi e sempre há de ser o grande protagonista da vida real neste lugar que geograficamente conhecemos como Nordeste, mas que no curso da história também se reconhece pelo nome esperança.




Fonte: Familia Crista ed. 952 abril 2015
Postado por: Família Cristã




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