As telas e as famílias

Data de publicação: 08/05/2015

As telas, novas companheiras das famílias
Comunicação e família: o mundo das comunicações e crianças

Maria Isabel Rodrigues Orofino *

Na minha infância, 50 anos atrás, era bem comum entre as famílias que os adultos conseguissem manter as crianças longe das mídias.  Por exemplo: era comum que os pais pedissem às crianças que saíssem da sala para não ouvir “coisas que não são para crianças”.  Eu me lembro de que meus pais falavam sério comigo e com minha irmã menor e determinavam que devêssemos ir dormir (tínhamos, talvez, nove e seis anos, respectivamente).  “Podem ir para a cama, hora de dormir”, justo no horário da novela das 10 da noite!  Talvez estivesse passando Gabriela, já não me lembro bem...  Só sei que todos gostavam muito daquela novela, que era assunto na mesa do café, almoço e jantar.  Éramos nove na minha família.  Pai, mãe e sete filhos.  E lembro também que aquela novela era considerada imprópria para o nosso olhar de crianças.  Então, eu e minha irmã criamos uma técnica.  Toda noite fingíamos ir dormir com a porta do quarto fechada e então, minutos depois, saíamos pé ante pé e nos sentávamos em silêncio no chão do corredor, onde um ângulo reto incidia exatamente na tela da TV, nos mostrando as imagens do vídeo.  Até que, certa noite, alguém saiu de dentro da saleta de televisão e fomos flagradas, ali, com os olhos arregalados, em absoluto silêncio, sentadas no chão.  Os adultos então foram cruéis em sua solução: fecharam a porta da saleta de TV lacrando o nosso campo de visão.  E nós duas ficamos ali sentadas no corredor, a ver navios...

Mídia, memória e cotidiano – Essa imagem da minha própria infância é um convite para que a gente, por meio da comparação, exercite uma reflexão sobre a presença das mídias na vida de todos nós, em nossas famílias, e discuta o quão significativa é a mudança cultural que vivemos quando não temos como afastar as crianças das mídias.  Pelo contrário, hoje as crianças vivem com os aparelhos eletrônicos em seu quarto de dormir e em suas mãos durante a maior parte do dia.  É fato que, mesmo com diferenças sociais e culturais, um número significativo de crianças em todo o mundo tem acesso a muitas e muitas informações por meio do computador, do tablet e do smartphone.  Com as tecnologias digitais, praticamente todos nós temos amplo acesso a quase todos os conteúdos.  O google é o oráculo, diz a brincadeira no dito popular.   Se precisamos de uma informação, com frequência acessamos o google e, na maioria das vezes, solucionamos a questão, ainda que superficialmente e aberta à contestação.  Afinal o outro lado da moeda é a credibilidade na informação veiculada nas redes digitais, e, se a fonte é fidedigna, o conteúdo também é confiável.
O fato é que hoje as nossas crianças estão simplesmente diante de “tudo”, praticamente tudo.  O mundo hoje se confunde perigosamente com o mundo da mídia.  Vários filósofos contemporâneos já chamaram a atenção para os inúmeros riscos que corremos ao tomar o mundo da mídia como o mundo concreto.  Será possível separarmos o mundo real do mundo da mídia?  Vemos-nos cada vez mais dependentes das informações que nos chegam, as quais chegam de forma cada vez mais numerosa e compacta, rápida, efêmera e superficial.  O mundo da mídia engloba de tal forma a nossa experiência cotidiana que parece ser cada vez mais difícil sair “para fora do seu círculo”, faço uma citação aqui a uma canção de Caetano Veloso, a Oração ao Tempo.

Otimismo, pessimismo? −
Os estudos de comunicação oferecem um elenco de leituras sobre as mídias em nossas sociedades, as quais oscilam entre posturas ora otimistas, ora pessimistas e aquelas (a que mais me agradam), que tentam enxergar tanto oportunidades quanto riscos, para as nossas crianças.   Um exemplo é o trabalho de Sonia Livingstone, da London School of Economics LSE/Inglaterra.  E também os autores do campo dos estudos culturais e infâncias. Eu busco explorar mais este terceiro conjunto.
É verdade que podemos olhar para a presença das mídias digitais em redes em nossas vidas com grande entusiasmo! São tantos os avanços: podemos pagar as contas pela internet, fazer as compras no supermercado, fazer matrículas em escolas, comprar o ingresso do cinema e a passagem de avião. 
Por outro lado, as mídias digitais oferecem todo tipo de informação, guardando ali um lado obscuro, destrutivo, perigoso.  Para não pendermos para um lado ou outro, precisamos sempre pensar além destes dois lados da moeda e, quem sabe, ampliarmos a nossa visão para uma leitura de complexidade.  A mídia é, na verdade, uma nova ferramenta.  Uma ferramenta de comunicação.  Tão importante em discutir o conteúdo da mídia é a reflexão sobre os seus usos. Cada vez mais devemos nos familiarizar com a mídia.  Isso é fundamental para que possamos, enquanto comunidade, construir a mídia que queremos para as nossas famílias.
E também termos em mente que, como adultos (pais e educadores), devemos de desempenhar o nosso papel de observadores e mediadores dos conteúdos escolhidos, acessados e consumidos pelas nossas crianças.  Não basta mais mandarmos sair da sala.  Até porque as crianças de hoje preferem mesmo ficar fora da sala. Eles e elas preferem ficar em seu quarto de dormir acessando livremente o seu celular, smartphone e/ou computador.  

Crianças, família, educação − A questão que vejo como urgente é: como cuidar da formação de nossas crianças em um mundo hipersaturado de informação? 
A história social das mídias e da comunicação social é muito bonita, desde o pioneirismo de Gutenberg, quando em 1450 imprimiu o primeiro livro: a Bíblia.  Antes disso é claro as tecnologias de comunicação eram mais rudimentares e sobretudo artesanais.  O primeiro processo industrial de comunicação e cultura é mesmo a imprensa de Gutenbeg.  E depois então, no fim do século 19, o mundo se transforma com a chegada da energia elétrica, que traz com ela o rádio e o cinema, e as informações transitam mais rapidamente, rumo a diferentes audiências em todo o planeta.  E hoje parece que em alguns centros urbanos há saturação.  Será que precisamos de tanta informação?  De que comunicação social precisamos?      

Mídia como brinquedo − As crianças brincam com as mídias? O que elas fazem? Sim, as pesquisas têm demonstrado que as crianças brincam com as mídias.  E isso é uma boa notícia.  A imaginação infantil é quase um patrimônio natural que temos.  A infância é, sem dúvida, o tempo de imaginação mais prodigiosa. Crescer parece significar, de certa forma, a perda dessa liberdade criativa.  Crescer é conformar-se a um novo padrão. É uma ruptura com essa criatividade livre e solta.  Por isso, como destaca a professora Gilka Girardello, temos que estar atentos aos modos como a imaginação infantil se transforma nestes novos tempos, pois este é um dos grandes patrimônios que as nossas crianças têm.  Portanto, o debate da Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura (Unesco) sobre os conteúdos nocivos da mídia me parece pertinente, pois há sim conteúdos que não foram, como diz o especialista David Buckingham: “Nem idealizados nem produzidos para as nossas crianças”.    

Que crianças? −
De que crianças estamos falando? Não creio que seja possível afirmar que “a criança” se comporte assim ou assado diante dos meios de comunicação.  Afinal é sempre importante mantermos em mente que há muitas infâncias em nossas sociedades.  Não é possível traçarmos uma verdade universal sobre como as crianças acessam e consomem os conteúdos das redes digitais, pois as condições de base econômica, familiar e cultural impõem restrições e diferenças cruciais e radicais nessas formas de acesso.  Uma criança de classe alta tem um consumo cultural muito diferente de uma criança moradora de uma favela.  E, em grande medida, a vulnerabilidade social está intimamente ligada a uma vulnerabilidade de conteúdos.  Hoje no Brasil há pouco investimento em TV educativa, por exemplo, e as crianças pobres continuam tendo a TV aberta como seu meio de comunicação mais acessado.  Os programas em linhas gerais não têm qualidade para esta população.

Há diálogo? − E nós estamos dialogando com nossas crianças?  Em outras palavras, estamos ouvindo as crianças? Hoje, podemos perceber com frequência em nossa convivência social que os pais já não têm tanto tempo para conversar em profundidade com as crianças.  Não temos tempo para ouvi-las, nem para acompanhar o que elas acessam, o que consomem, quando e como assistem e por quê?  Em nosso cotidiano, estamos sempre correndo, simplesmente não temos tempo de conversar e dialogar com as crianças sobre o seu mundo.  E muito menos sobre o mundo da mídia em seu mundo de criança.  Talvez enquanto adultos estejamos falhando tanto em ouvir o que as crianças têm a dizer quanto em intervir social, cultural e politicamente em prol dos seus direitos a conteúdos relevantes e de qualidade para a sua formação. 
As mídias ocupam um lugar muito significativo na vida de nossas crianças para que nós, enquanto sociedade civil, simplesmente fechemos os olhos para o que de fato elas veem em todas as telas que estão ao seu redor.

* Maria Isabel Rodrigues Orofino é doutora em Ciências da Comunicação, docente, pesquisadora na área de Comunicação e Crianças. Atua na área de Comunicações e Artes, a partir dos eixos: teorias do audiovisual; roteirização; televisão e tecnologias; produção e recepção do audiovisual; cultura e arte; mídia e educação; práticas de consumo e consumo cultural; estudos de mídia e infâncias.

Leia também:

Comunicar a família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor

Família e comunicação: mundo digital e jovens




Fonte: Familia Cristã
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Voltei pra você
Muitos divorciados gostariam de uma segunda chance para retomar o casamento.
Juntos, mas separados
O ideal é que a vida a dois seja com o casal junto, mas compromissos profissionais podem afastar
Namorados para sempre
Cuidados diários, diálogo e partilha da vida são passos preciosos para um “felizes para sempre”
O amor no contrato
O pacto antenupcial pode garantir segurança jurídica a algumas novas formas de família
A religião na vida a dois
A religião, a generosidade e a bondade são temperos fundamentais para uma relação sólida e feliz
Início Anterior 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados