100 anos de um massacre

Data de publicação: 10/05/2015

Na Armênia, em 1915, o primeiro grande genocídio do século 20 vitimou 1,5 milhão de seres humanos. E todos eram cristãos...

Sobreviventes do genocídio no Memorial de Erevan

Reportagem e imagens Pablo Villarrubia Mauso

No Brasil, particularmente em São Paulo (SP), a comunidade armênia é conhecida pelos seus comerciantes e fabricantes de calçados. Porém, a maioria de seus membros – incluídos descendentes – compartilha um drama: pais, avôs e bisavôs foram vítimas de um dos maiores massacres da História, até hoje não reconhecido pelas autoridades turcas. A história do genocídio ocorrido entre 1915 e 1921 começa no ano 301 quando os armênios foram os primeiros a adotar o cristianismo como religião de estado. A partir de então o país sofreu uma sucessão de invasões e derrotas, sendo conquistado pelos turcos no século 15. Ainda sob esse domínio, em 1915, os armênios representavam de 25% a 30% da população do Império Otomano e formavam uma das comunidades mais prósperas e melhor integradas a Constantinopla, atual Istambul, (Turquia).
Profissionais liberais, políticos e intelectuais armênios se desenvolveram graças ao empenho no trabalho e às muitas escolas criadas para seus filhos, com um alto nível de educação comparado a outros povos. A maioria deles pertencia à Igreja Nacional da Armênia, de rito apostólico ou gregoriano, e dirigida pelo patriarca de Istambul. Mas também havia ali muitos católicos e protestantes surgidos no final do século 19 com a chegada de missionários dos Estados Unidos estabelecidos na Turquia. Essa prosperidade, porém, durou pouco. Na noite de 24 de abril de 1915, o Comitê para a União e o Progresso (CUP), partido de caráter ultranacionalista liderado pelos chamados Jovens Turcos e que controlava o decadente Império Otomano desde 1908, decretou a prisão de mais de 600 cidadãos armênios, especialmente da elite intelectual, em Constantinopla. O ministro do Interior, paxá Talaat, ordenou o assassinato da maioria e a internação de alguns em campos de concentração, onde acabaram morrendo. Imediatamente foram fechadas escolas, Igrejas, agremiações políticas e demais organizações armênias. Seus bens também foram confiscados pelo estado otomano.

Crianças mortas e adultos perseguidos

Conceitos nazistas –
Hoje muitos historiadores confirmam que o CUP, então controlado pelos paxás Enver, Talaat e Djemal, planificou e organizou o genocídio contra os armênios. Para executar esse plano macabro, os membros do CUP – com colaboração do Ministério da Justiça e do Interior – criaram a Teskilat-i Mahsusa, ou Organização Especial, uma milícia secreta e paramilitar para executar os assassinatos massivos. Entre seus componentes havia prisioneiros e membros de tribos curdas, além de chechenos e circassianos, ambos grupos étnicos que habitam o Cáucaso, uma das fronteiras entre a Europa e a Ásia, e com longa tradição guerreira. Esses povos foram treinados pelo Ministério da Guerra turco para atacar, pilhar e massacrar os comboios repletos de armênios que eram levados para campos de concentração.
“Os membros e dirigentes do CUP apregoavam e praticavam a purificação étnica do território otomano, pois queriam que somente a raça turca povoasse o império com vistas a construir uma suposta unidade nacional. Para isso se valiam da matança de homens, mulheres e crianças e de deportações massivas, tanto a pé como em trens. A maioria dos deportados caminhava pelo deserto da Síria e Mesopotâmia e morria nesse trajeto infernal”, diz Hayk Demoyan, diretor do Museu e Instituto do Genocídio Armênio, em Ierevam, capital da atual Armênia. Ele acrescenta que militares e colaboradores alemães ajudaram a estruturar os massacres, empregando o conceito dos campos de concentração que, anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, dizimariam militares e civis capturados nos territórios invadidos por Hitler. De fato, alguns dos conselheiros alemães se converteram, posteriormente, em agentes da SS, polícia secreta nazista, e acabaram seus dias no Tribunal de Nuremberg, depois de terminada a Segunda Guerra Mundial.

Marcha mortal −
De acordo com Raymond Kévorkian, autor do livro Mémorial du Génocide des Arméniens, as diretrizes do genocídio foram pautadas pela Direção para a Instalação de Tribos e Migrantes, órgão responsável pela execução da política de homogeneização demográfica do CUP. Entre abril e setembro de 1915, mais de 1 milhão de armênios, principalmente mulheres e crianças, foram transportados em trens e levados até os desertos da Síria e Mesopotâmia. Somente entre 15% e 20% chegavam aos campos de concentração com vida. Muitas vezes, os membros da Organização Especial separavam as mulheres mais jovens para abusar sexualmente delas ou vendê-las como escravas.
Durante a perseguição, o patriarcado da Igreja Católica Armênia foi banido de Constantinopla, e mais de 4 mil religiosos foram assassinados. Os que puderam escapar se refugiaram na Síria e no Líbano e ajudavam moralmente muitos deportados durante a trágica travessia no deserto. No território da Cilícia, ao sul da Anatólia, havia uma importante população armênia que acabou deportada. Os homens foram previamente assassinados por haverem oferecido resistência. Nas cidades e vilarejos do setor oriental da Turquia, muitos civis foram degolados e outros, de dez em dez, foram amarrados e jogados nos bíblicos rios Tigre e Eufrates.


Museu e Instituto do Genocídio, em Erevan, erguido em memória ao massacre dos 1,5 nilhão de seres humanos

Trágico acontecimento – Para a escritora francesa de origem armênia Janine Altounian, em 1915 o Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial junto à Alemanha e ao império austro-húngaro contra a França, Inglaterra e Rússia. “Os turcos acusaram os armênios de ajudar os russos, e isso serviu de pretexto para massacrá-los. Os armênios eram recrutados para lutar com os turcos e, logo após, desarmados e assassinados. Assim as cidades e aldeias onde viviam ficaram sem homens para defendê-las dos agressores e acabaram sucumbindo”, explica a historiadora. Segundo ela, a Conferência de Paris de 1920 admitiu o genocídio armênio, que, naquele momento, foi reconhecido por 20 estados. Mas o Brasil não estava entre eles. A França, destino de muitos armênios da diáspora, foi mais rigorosa: desde 2006 penaliza quem negar esse genocídio. “Infelizmente, as autoridades da Turquia continuam sem reconhecer o genocídio, como define a jurisprudência internacional, dizendo somente que tudo foi um trágico acontecimento”, acrescenta Janine, que teve muitos de seus familiares assassinados durante aquele período lamentável da história da civilização.
Maria Luiza Tucci Carneiro, do Departamento de História, da Universidade de São Paulo (USP), considera que o Congresso Nacional brasileiro deveria reconhecer esse genocídio tal como a decisão já tomada pelo Parlamento do Mercado Comum do Sul (Mercosul). “É uma incongruência pois, em 1956, uma lei brasileira aceitou o genocídio como um crime, adotando a mesma definição ratificada pela Convenção da Organização das Nações Unidas”, alega Maria Luiza.

Chama perpétua no memorial em Erevan
Diáspora – Em 1915, cerca de 20 campos de concentração reuniam ao redor de 700 mil sobreviventes armênios da tragédia. Geralmente eram acampamentos compostos por tendas de lona vigiadas pelas forças da Organização Especial. Já em fevereiro de 1916, o mencionado paxá Talaat ordenou o extermínio dos últimos armênios que ainda estavam presentes na Anatólia ou presos nos campos de concentração ao longo do rio Eufrates. Pouco depois, em 17 de março de 1916, o campo de Ra Sul-Ayn foi atacado por homens chechenos da Organização Especial que executaram, em cinco dias, 40 mil deportados. Os sobreviventes foram levados aos vales vizinhos do campo e degolados.
Cerca de 100 mil armênios procedentes de campos de concentração conseguiram ser resgatados pelas forças francesas e britânicas depois da Primeira Guerra. A princípio ficaram na região de Alepo, cidade ao norte da Síria, e progressivamente foram repatriados ao território da Cilícia – controlado pelos franceses –, Síria e Líbano, que também estavam sob administração francesa. Foram esses sobreviventes que logo se espalharam pela Jordânia, Palestina, Egito e Iraque. Alguns chegaram ao Brasil por essa via. Depois da guerra, milhares de armênios conseguiram fugir e se refugiar no Cáucaso russo, na Pérsia (atual Irã) e Bulgária. Alguns milhares de mulheres, jovens e crianças, sequestrados pelos turcos, curdos ou beduínos, foram resgatados por soldados armênios da 4ª Armada, em 1918, depois do armistício.

Mais de 1 milhão de santos mártires
Em 16 de setembro de 1915, o papa Bento 15 recebeu no Vaticano o monsenhor Kojunian, representante dos armênios católicos, e foi informado sobre a terrível perseguição sofrida pelo seu povo. Alguns dias depois, o papa enviou uma mensagem ao sultão Mohamed V e ao príncipe herdeiro Abdul Mejid solicitando piedade e generosidade com o povo armênio. A resposta do sultão foi lacônica: “O que eu posso fazer? Falei com o paxá Talaat, mas não tive resposta”.
Passados 100 anos daquela tentativa de conter um massacre que se prolongaria, o atual katolikós (patriarca) do rito armênio, Karekin II, realizou em 23 de abril a maior canonização da história do cristianismo, proclamando todas as vítimas como “santos mártires do genocídio”, ou seja, mais de 1 milhão de pessoas. Em 12 de abril, o papa Francisco também celebrou uma missa na Praça de São Pedro em lembrança do trágico destino do povo armênio.

Outros massacres contra os armênios
A Armênia já havia sofrido outros massacres antes de 1915. Entre 1894 e 1896, por exemplo, o sultão turco Abddul Hamed II, chamado “sultão vermelho”, ordenou a morte de cerca de 300 mil armênios. Em 1909, com o novo regime constitucional, aconteceram as matanças de Adana, com 30 mil vítimas. Já em 1920, o Tratado de Sèvres reconheceu a Armênia como uma nação livre e independente. Porém, em dezembro daquele mesmo ano, os exércitos de Mustafá Kemal, fundador da República da Turquia, reconquistaram a parte ocidental da Armênia, e os russos invadiram outro setor do país, que, integrando a República Federativa Socialista Soviética Transcaucasiana, se transformaria em uma das 15 repúblicas soviéticas até 1991.









Fonte: Familia Crista ed. 953/Maio de 2015
Postado por: Família Cristã




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