Nas asas da canção

Data de publicação: 25/05/2015

Uma vez contempladas as regiões mais profundas ou brilhantes do mundo, seja no lapso de uma sinfonia ou de uma canção interior, devemos regressar à existência corriqueira e contínua



Crédito Clovis Salgado Gontijo *   
Arte Sergio Ricciuto Conte *                   

No capítulo VII das suas Confissões, Santo Agostinho afirma que não teria o direito de desejar outra ordem para o mundo, criação divina. No entanto, não é raro que o ser humano, descontente com o que filósofo Leibniz define como o “melhor dos mundos possíveis”, sonhe com uma realidade mais verdadeira, mais essencial, mais plena e mais bela. De certo modo, esse sonho não é tão herético quanto poderia parecer. Em termos teológicos, sabemos que o Criador modifica seu harmonioso projeto inicial, ao imputar uma série de penas ao casal que lhe desobedecera (cf.Gn 3,14-19). E, em termos concretos, notamos como, a cada dia, nossas ações nos afastam mais e mais do Jardim do Éden. A beleza da criação vai minguando quando as montanhas são dilaceradas pela extração de minério ou veladas pelos poluentes que emitimos.
Coincidentemente, encontramos nas experiências tanto estética quanto mística privilegiadas vias para o acesso ao mundo ideal por que ansiamos. Acesso já sugerido pela própria configuração dos espaços reservados às práticas artística e espiritual, teatros, salas de exposição e templos, que, separados do território cotidiano, se revelam, nas palavras do filósofo e musicólogo Vladimir Jankélévitch, como “oásis encantados”.

Transportados pela arte − Comecemos esta reflexão pela via da arte, em cujas obras muitas vezes saltamos e mergulhamos como as personagens de Mary Poppins nos mágicos quadros pintados a giz sobre a calçada de um parque. No que se refere às artes performativas, se o simples fato de ingressar no teatro já implica deixar para trás as preocupações, as atividades banais e rotineiras, quando as luzes se apagam e se abrem as cortinas do palco, intensificam-se a saída de um mundo e a entrada num novo mundo. Sob os efeitos de outra luminosidade, de outro arranjo do tempo, de movimentos estilizados, “tudo era belo no balé”, embora este ainda não fosse o paraíso, como diz a personagem Maggie do musical A Chorus Line.
A um mundo mais belo e comovente também nos transportam os puros sons, sem a necessidade de recorrer a cenas, cenários ou danças. Segundo uma das mais famosas canções de Schubert, o inspirado elogio à música An die Musik, és tu, “bela arte”, que, “em tantas horas cinzentas, quando o selvagem círculo da vida me enredava, acendeste no meu coração um amor mais caloroso e me conduziste a um mundo melhor”. No âmbito da literatura brasileira, encontramos outro significativo exemplo do elevado e transformador arrebatamento musical. Ao ouvir pela Rádio Relógio a ária Uma Furtiva Lacrima, interpretada por Caruso, a simplória personagem Macabea, do romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, reconhece “que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma”. Para alguns filósofos, como Schopenhauer, esta abertura a uma sensação ou dimensão mais profunda da realidade se apresenta como característica constitutiva da música, capaz não só de nos conduzir a outro mundo, mas de nos pôr em contato com o que há de mais essencial no momento e no espaço presentes.

Transportados pelo Absoluto − Concebido em certos contextos como êxtase, o transporte místico partilha uma série de pontos em comum com o transporte estético. Ainda que implique um distanciamento do mundo sensível e dos seus múltiplos estímulos, condição de possibilidade para a aproximação à unidade divina, também o arrebatamento espiritual costuma provocar uma espécie de deleite, análogo à comoção que acompanha o êxtase impulsionado pela beleza.
O místico medieval Hugo de São Vítor, por exemplo, descreve sua experiência espiritual como “coisa deliciosa que, por sua mera recordação, me afeta e comove com tal doçura e violência que me tira de mim e, não sei como, me transporta”. Tal experiência, cujo impacto o impede de saber onde está, é causada pelo “abraço do Amor”, imagem que, além de remeter ao prazer procedente do tato, implica o total envolvimento com uma realidade superior e o simultâneo esquecimento do mundo circundante. Já em outros autores medievais, como o místico germânico Henrique Suso e o inglês Richard Rolle, o deleite espiritual pode ser provocado por sonoridades interiores e suprassensíveis. De acordo com as palavras do primeiro, que costuma tecer seus relatos na distância da terceira pessoa, “esta canção que escutou era tão espiritual e tão doce que sua alma foi por ela transportada e também ele começou a cantar cheio de gozo”.
Embora o transporte místico pareça geralmente prescindir da participação ativa da sensibilidade e da corporeidade, recorrendo ao universo dos sentidos apenas como analogia, em algumas circunstâncias, como na experiência estética, o contato com a obra de arte ou com o belo proveniente da natureza poderia favorecer um novo estado de consciência, afastado das percepções e dos pensamentos habituais. Segundo a mística Evelyn Underhill, este seria o caso do teólogo Dionísio Cartuxo, “que, até o fim da sua vida, quando ouvia o Veni Creator ou determinados versos dos salmos, experimentava súbito arrebatamento em Deus e levitava”.
Essas referências musicais servem para recordar que, de modo similar à arte sonora, para Schopenhauer, a experiência mística não só nos transporta ao “terceiro céu”, mas também a uma visão transmutada do nosso próprio mundo. Tomado pelas ressonâncias da sua aproximação ao Absoluto, o místico aprecia uma realidade pura e primigênia, que a ele se desvela como se embebida por uma luz ou melodia encantada.
Após apresentar de relance algo sobre os transportes estético e místico, caberia dizer que é também de relance, como uma espécie de centelha, que ambos os êxtases se realizam. Uma vez contempladas as regiões mais profundas ou brilhantes do mundo, seja no lapso de uma sinfonia ou de uma canção interior, devemos regressar à existência corriqueira e contínua. Não somos como Elias, que, em vida, toma o carro de fogo rumo aos céus para nunca mais voltar. Contudo, no nosso retorno, talvez seja possível difundir algo do encanto experimentado, incitar a busca pelas “palavras inefáveis” (2Cor 12,4), que, apesar de serem ouvidas num estado extraordinário, decorrem na viagem da própria vida.

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br


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Fonte: Edição 952 abril de 2015
Postado por: Família Cristã




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