Por um triz, a vida

Data de publicação: 26/05/2015




Por Karla Maria

Fé na vida
A mulher e o Pós-Aborto

“O aborto existe, as meninas ricas fazem nas clínicas e as pobres em qualquer lugar”, desabafa uma jovem pobre, que realizou um aborto aos 23 anos. Buscou fazer o procedimento em uma clínica de  fundo de quintal, daqueles quintais de chão sujo, com cachorro latindo e roupa no varal. Chegou pouco depois da polícia, viu de longe prenderem sua “profissional” em flagrante com instrumentos que mais pareciam os usados em cenas de tortura do que aqueles utilizados em procedimentos médicos.
A jovem viu a cena e voltou para casa. Mesmo com a tentativa de aborto frustrada, ela, que tem nome, pai e mãe, religião e posição política bem definidas e que aqui será chamada de Ana, decidiu realizar o aborto, quase se tornando mais uma Jandira ou Elisângela, duas vítimas fatais de clínicas clandestinas, conhecidas nacionalmente através de manchetes em jornais.
Ana continuou tentando abortar. “Tomei Cytotec (medicamento que pode levar ao aborto), na verdade foram 12 Comprimidos, usei sonda, fiz todas as coisas que alguém faz quando quer abortar. Fiz e fiquei com o aborto retido, aí procurei o serviço de saúde e lá sofri todas as violências e humilhações”, conta a mulher, que fez curetagem e depois de 12 dias pegou uma infecção.
“Fiz uma nova curetagem e ouvi horrores da ginecologista. Ela disse que eu era uma irresponsável de fazer um aborto de qualquer maneira, mas eu não tinha outro jeito”, desabafa a mulher, mais uma das que compõem os dados da Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), feita pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero e pela Universidade de Brasília (UnB) em 2010. Nela, afirma-se que uma em cada sete brasileiras entre 18 e 39 anos já realizou pelo menos um aborto na vida. 
São, segundo a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), cerca de 700 mil abortos clandestinos realizados anualmente no País, e eles acontecem à luz do dia em clínicas ginecológicas bem decoradas de bairros de classe média, com a segurança de médicos especialistas, ou nas vielas abandonadas das periferias, nos banheiros e quintais improvisados de diversas casas, de nossos vizinhos, com o risco iminente de morte das gestantes.

Mortalidade materna – “Por serem inseguros, os abortos arriscam a vida e a saúde das mulheres, notadamente as mais pobres. Por serem inseguros e realizados em péssimas condições sanitárias, resultam em cerca de 300 mortes por ano, constituindo a quinta causa de mortalidade materna no Brasil”, afirma o médico ginecologista e obstetra Thomaz Rafael Gollop, professor em Genética Médica da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
O relatório de monitoramento Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) confirma que os procedimentos clandestinos estão entre as principais causas de mortalidade materna. “O Brasil está em quarto lugar em um ranking feito com 180 países sobre mortalidade materna, perdendo apenas para Guatemala, África do Sul e Iraque, que na década de 1990 estava em guerra. Isso é uma vergonha”, avalia o médico e obstetra Olímpio Moraes, vice-presidente da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Jandira arriscou a vida, morreu, e sua história alcançou todo o Brasil após ser vítima de um aborto clandestino. Tinha 27 anos, carregava o sobrenome Magdalena dos Santos, era auxiliar administrativo e desapareceu momentos depois de realizar o último contato com o ex-marido, Leandro Brito Reis, quando revelou em mensagem que as pessoas, ao encaminharem-na para o aborto, lhe pediram que desligasse o celular. “Amor, mandaram desligar o telefone, ‘tô’ em pânico, ore por mim!”
A jovem desapareceu e 27 dias depois seu corpo foi encontrado em um carro carbonizado. Jandira foi vítima de uma quadrilha especializada na prática de aborto que realiza ou realizava o procedimento em todo o estado do Rio de Janeiro. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma em cada 300 mulheres acaba morrendo de complicações pós-aborto.
A Pesquisa Nacional de Aborto também concluiu que 50% das mulheres que abortam procuram atendimento médico público em decorrência de complicações na saúde, e o Sistema Único de Saúde (SUS) comprova. Em 2013, segundo dados do Departamento de Informática do SUS (DATASUS), foram realizadas 205.855 internações decorrentes de abortos no Brasil, sendo 51.464 espontâneos e 154.391 induzidos (legais e ilegais).

Menos recursos, mais riscos – “Levando-se em consideração que o valor médio da diária de uma internação no SUS é de 413 reais e que as mulheres hospitalizadas passaram apenas um dia internadas, o governo gastou 63,8 milhões de reais por conta de abortos induzidos”, aponta o obstetra Thomaz Gollop.
Dados preliminares do Ministério da Saúde, adquiridos pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação n° 12.527/2011, endossam ainda mais a tese de que o aborto é uma questão de saúde pública: em 2014 foram realizadas 174.815 curetagens, perdendo apenas para o número de partos normais.
Estudo realizado pela Universidade de São Paulo e publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, com o título Aborto Provocado em Mulheres da Periferia da Cidade de São Paulo: Vivência e Aspectos Socioeconômicos, revela que “a ilegalidade do aborto não coíbe a prática e perpetua as iniquidades socioeconômicas em que é realizado. São especialmente as mulheres em condições menos favorecidas aquelas que se submetem aos riscos da prática do aborto realizado em condições precárias”. Essa pesquisa revelou que mulheres com recursos financeiros têm acesso a métodos seguros de interrupção da gestação, enquanto outras, de classes menos favorecidas, são obrigadas a se submeter a procedimentos inseguros, que podem causar a morte.
O problema reside nas tentativas inseguras, que são inúmeras, desde chás até a introdução de objetos pontiagudos na vagina, como agulha de tricô, na tentativa de perfurar a placenta, contaminar o conteúdo dela e assim matar e expulsar o feto em formação. “Atendi meninas que provocavam o aborto com agulha de tricô. Quando interrogadas por que tinham feito aquilo, disseram que não tinham dinheiro e que uma vizinha tinha feito assim. Mas, na verdade, em muitos casos o aborto era provocado por medicação, depois vinha o medo”, conta a assistente social Marina Sousa, que acompanhou mulheres pós-abortamento no SUS.

Preço tabelado – Através de uma breve pesquisa pela internet, localizamos contatos para a importação do Cytotec por 180 reais, o mesmo remédio que Ana tomou. Mas não foi apenas isso, conseguimos contatos e endereços de médicos e clínicas que realizariam o aborto por nada menos que 2 mil reais.
Uma dessas clínicas está localizada em uma rua arborizada de classe média alta da capital paulista, ao lado de hospitais de pronto atendimento. O procedimento seria feito ali, em um ambiente que passava segurança, e duraria quatro horas, entre exames iniciais, aborto e período de observação. Tudo por um preço bem superior às condições financeiras de Ana, Jandira ou Elisângela: 2.540 reais para uma gestação de até 13 semanas.
Os exames e anestesias, caso fossem necessários, já estariam inclusos no pacote, e o método seria escolhido pelo médico, que nossa reportagem apurou se tratar de um obstetra, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que também atende em outros importantes hospitais da cidade. Segurança e confiança eram palavras constantes e presentes às pacientes daquela clínica, bastava o dinheiro.
O pagamento deveria ser realizado em duas etapas por meio de depósito bancário, o primeiro de 1.240 reais para confirmar o atendimento e a reserva de horário, e o segundo apenas depois de todo o procedimento “com saúde e segurança”, como assegurava por e-mail a representante da “clínica”. Outros valores também foram apresentados.
Em uma segunda clínica consultada pela reportagem, o procedimento, que também seria realizado na capital paulista, sairia por 7 mil reais para uma gestação de até 12 semanas. Um aborto em gestantes com mais de 12 semanas seria realizado por 8 mil reais.
O fato de o procedimento ser crime não limita a ação de milhares de mulheres como Jandira, Elisângela, Ana ou tantas outras que, apoiadas ou não, optam por realizar o aborto.

Um drama – Segundo a legislação brasileira, qualquer pessoa que realize aborto em alguém ou em si mesma está cometendo um crime e pode ser presa, com penas de um a três anos de reclusão. Há possibilidade de fiança, que beira a 10 mil reais.
O Código Penal de 1940 apresenta duas exceções para a prática do aborto: quando a mulher corre o risco de morrer e quando é estuprada, uma realidade nada incomum no Brasil. O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), com base em dados de 2011 do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Sistema Único de Saúde, informou que cerca de 7% dos casos de estupro resultam em gravidez. Entre as vítimas adultas que ficaram grávidas como consequência do estupro, 19,3% realizaram o tipo de aborto previsto em lei, enquanto que 67,4% das mulheres que passaram por esse sofrimento não tiveram acesso ao serviço de aborto legal na rede pública de saúde.
“No caso de má-formação do feto, os juízes brasileiros têm autorizado a interrupção da gestação. O Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou que no caso da anencefalia não é aborto, portanto, não há discussão nenhuma”, esclarece o juiz de Direito Titular da 1ª Vara do Júri de Campinas (SP), José Henrique Rodrigues Torres, também membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD).

A pesquisa Aborto Provocado em Mulheres da Periferia da Cidade de São Paulo: Vivência e Aspectos Socioeconômicos também indica que o procedimento não é feito apenas para retardar o início da vida reprodutiva ou evitar filhos em idades avançadas, mas que cerca de 60% das mulheres fizeram seu último (ou único) aborto entre 18 e 29 anos, sendo o pico da incidência entre 20 e 24 anos (24% do total).
Entre as entrevistadas, todas são de centros urbanos e alfabetizadas, 15% não sabem ou não responderam ao item idade com que realizaram o último aborto, que é mais frequente entre mulheres de escolaridade muito baixa. “A proporção de mulheres que fizeram aborto alcança 23% entre aquelas com até o 4 ano do Ensino Fundamental (ou nível equivalente), ao passo que entre mulheres com o Ensino Médio concluído é de 12%”, aponta o estudo.
Segundo a mesma pesquisa, a incidência de aborto entre pessoas de diferentes religiões é praticamente igual e reflete a composição religiosa das mulheres urbanas brasileiras, sendo que pouco menos de dois terços das entrevistadas são católicas, 25% protestantes ou evangélicas e menos de 5% de outras religiões. Cerca de 10% não responderam ou não possuem religião.
Lembro-me de Ana, aquela que tomou a medicação para interromper a gravidez. Jovem pobre, católica, devota de Nossa Senhora Aparecida, enquanto observava escondida a ação da polícia. Ana vive e talvez sua fé a tenha salvado.




Fonte: Familia Crista ed. 953/Maio de 2015
Postado por: Família Cristã




Comentários

Enviado por: Andrea Dal Pra de Deus

Por um triz, a sanidade.

Eis que me deparo com um texto em uma página de uma editora, dita cristã, que expõe, tendenciosamente, a defesa do homicídio. A fraude bastante comum daqueles que pregam o aborto como “causa de saúde pública” é expor dados estatísticos como se fossem um argumento imbatível de uma realidade opressora que subjulga mulheres acometidas por uma gravidez indesejável. É uma vergonha que uma revista cristã ainda mais católica possa permitir que dados tão grosseiros e sem nenhuma credibilidade possam ser mostrados como se fossem indiscutíveis, fazendo crer que cristãos comprometidos com a vida irão se deixar ludibriar com relação a essa mortandade de ser humanos que é do que se trata a legalização do aborto no mundo. Os números corroboram a retórica sobre a mentira que defendem: o aborto é a saída mais coerente para para a diminuição de mortes. Acontece que no aborto sempre há morte: os bebês são assassinados cruelmente. Obviamente que não são contabilizadas essas mortes já que se desconsidera a vida desde a concepção e se defende matar outro ser humano para que ele não mude a vida de outro durante 9 inconvenientes meses em que é armazenado e nutrido. A construção da argumentação do texto é bastante “chavão feminista”:
1- Uso de eufemismos: “aborto seguro”; 2- exposição de dados sem contextualização: (700 mil abortos clandestinos realizados anualmente no País), em outro ponto (“Por serem inseguros, os abortos arriscam a vida e a saúde das mulheres, notadamente as mais pobres. Por serem inseguros e realizados em péssimas condições sanitárias, resultam em cerca de 300 mortes por ano, constituindo a quinta causa de mortalidade materna no Brasil”, afirma o médico ginecologista e obstetra Thomaz Rafael Gollop, professor em Genética Médica da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); 3- Fonte dos dados é diretamente interessada em legalizar o aborto, obviamente irá produzir resultados reforçadores daquilo que defendem: Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), feita pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero e pela Universidade de Brasília (UnB) ; 4- “todos abortam, mas as mulheres pobres, que não podem pagar um aborto “”seguro”” morrem: FALSO. ; 5- Comentários simpáticos à causa: “o aborto é uma realidade em nosso país. Não é criminalizando as mulheres que enfrentaremos esse grave problema de saúde publica.”, ainda outro, “Admirei a coragem da redatora em apresentar a situação, gravíssima por sinal sem emitir juízos morais ou religiosos sobre ela”.

A mentalidade abortista não consegue chegar a óbvia conclusão que a industria do aborto matou muito mais gente do que um reduzido número de mulheres incluídas em estatísticas clandestinas de pouco credibilidade porém que gera mais escândalo que os mais de quarenta milhões de abortos realizados num único ano (2008), conforme a Organização Mundial de Saúde.

http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/75174/1/WHO_RHR_12.02_eng.pdf?ua=1

E se querem dados oficiais então seguem dados oficiais DATASUS ano de 2013: 9 mulheres em todo o Brasil morreram em decorrência de abortos clandestinos.
http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sim/cnv/mat10uf.def
Se existem mulheres fazendo aborto clandestino esse não é um problema de saúde e sim criminal pois é de responsabilidade do Estado investigar e fechar clinicas de aborto clandestinas e assim evitar que essas meninas se submentam a essa prática ilegal e até mesmo coloquem sua vida em risco.
A sociedade brasileira não irá aceitar que mulheres impelidas por suas dificuldades sejam dignas do direito de tirar a vida de seus filhos, em nome de todas as mães que lutam para dar uma vida melhor e mais digna para seus filhos e que dizem não ao aborto !!!
Nos EUA e em outros países do mundo a legalização do aborto só abriu as portas para a banalização desse crime e os dados não deixam dúvidas sobre isso, 1973 – 744.600
2009/2011 – 1.212.400
E claro que legalizar algo como o aborto assim como as drogas fará com que o ato que em sim já acontece de maneira contida se espalhe e se multiplique com consequências danosas para a nossa já tão destruída sociedade. Trata-se de usar as exceções das minorias que praticam esses atos para impor nova regra, deslegitimando a antiga e estimulando uma nova saída para as mulheres que tenham indesejadamente engravidado. Quem não consegue perceber a malícias dessas organizações voltadas a engenharia social e ao lucro fabuloso das clinicas de aborto só pode ser ingênuo ou também mal intencionado.
O pior é que querem utilizar dinheiro publico e dos nossos impostos para promover essa abominação que é aborto, ou seja, cristãos como eu e os ditos editores desta revista serão co-responsáveis pela mortandade de milhares de vidas. Que espécie de evangelho vocês dizem proclamar dando voz a grupos de feministas e abortistas que não conseguem enxergar senão seus próprios interesses e utiliza-los como veículo para propagação midiática da legalização do aborto.
Repúdio a Revista Paulinas por permitir que suas páginas carregam tamanha incoerência.
Assistam o vídeo sobre as estatísticas usadas de forma mentirosa para impor o aborto no Brasil
https://www.youtube.com/watch?v=7QI5ZN9jQKI&sns=fb
Leiam o artigo
http://revistavilanova.com/mentiras-sobre-o-aborto-parte-04/

Enviado por: Nilde Sousa

Excelente matéria! O aborto é uma realidade em nosso país. Não é criminalizando as mulheres que enfrentaremos esse grave problema de saúde publica.

Enviado por: Clovis Salgado

Gostei muito dessa reportagem sobre o aborto. Admirei a coragem da redatora em apresentar a situação, gravíssima por sinal, sem emitir juízos morais ou religiosos sobre ela. Cabe ao leitor refletir e examinar como resolver essa situação de acordo com a própria fé. É um desafio necessário.

Enviado por: Vera Lúcia

Achei fantástica esta matéria,"Por um, triz a vida". As pessoas não têm acesso a este tipo de estatística, nem de linguagem tão clara e cotidiana. Parabéns, Karla Maria! Excelente matéria!


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Doenças autoimunes
Quando nosso sistema imunológico se desequilibra, entram em cena as doenças autoimunes
Você cuida bem da sua audição?
A saúde da nossa audição é também questão de bem-estar
Sinusite ou rinite?
Tanto a sinusite como a rinite são inflamações que afetam as mesmas regiões do corpo.
SAÚDE
A biotecnologia é uma ferramenta e, como tal, deve ser cuidadosamente examinada.
Curar com as mãos
Levar em consideração o corpo inteiro e tratar diretamente a causa do problema são as principais
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados