A mulher e o Pós-Aborto

Data de publicação: 27/05/2015

Projeto Raquel favorece mulheres que sofrem com as marcas profundas da Síndrome Pós-Aborto

Por Fernando Geronazzo

Há 35 anos, a jovem Helena (nome fictício), com apenas 18 anos, descobriu que estava grávida do seu então namorado. “Fiquei apavorada, meu pai era muito rígido, jamais aceitaria essa gravidez”, conta. Sozinha, ela procurou orientação no escritório onde trabalhava. “O meu chefe me ofereceu empréstimo em dinheiro para fazer o aborto. Como não tinha condições, iria pagando para ele aos poucos.” O ato aconteceu numa manhã de sábado, em uma clínica clandestina a poucos quarteirões de seu emprego, em São Paulo (SP).
“Na noite anterior, dormindo, eu me levantei e fui em direção da janela do meu quarto. Quando estava prestes a me atirar pela janela, minha avó me acordou e impediu que o pior acontecesse”, relata Helena. “Acho que no fundo, nenhuma mulher quer abortar”, acrescenta.
Alguns anos depois, ela conheceu o homem que hoje é seu marido e com quem teve dois filhos. Mas ela permanecia com uma angústia extrema e desenvolveu um problema gástrico muito forte. Começou a procurar médicos e respostas para seu problema. “Eu quase me divorciei naquela época, pois eu fiquei em um estado deprimente”, relata.
Como Helena, inúmeras mulheres sofrem desses sintomas e carregam por anos o trauma da chamada Síndrome Pós-Aborto. Algumas pesquisas feitas nos Estados Unidos, chegam a comparar esses sintomas ao da Desordem Ansiosa Pós-Traumática (DAPT), presente, por exemplo, em ex-combatentes da guerra do Vietnã.
Mudando-se com a família para os Estados Unidos, Helena continuou a peregrinação em busca de respostas para sua depressão. “Passei por psicanálises, terapias, grupos de medicina alternativa. Isso até me ajudava a retomar a minha autoestima, mas não em profundidade.”

A resposta – Em uma paróquia note-americana, Helena ouviu que existia um trabalho da Igreja voltado para mulheres que sofreram aborto. O Projeto Raquel, que nasceu nos Estados Unidos em 1984, consiste em uma rede de pessoas que ajudam mulheres que abortaram, oferecendo cuidado individual às pessoas que sofrem após envolvimento direto ou indireto com essa experiência. O nome do Projeto recorda a passagem bíblica do livro do profeta Jeremias (capítulo 31, versículo 15), que diz: “É Raquel que chora os filhos, recusando ser consolada: porque já não existem”.
“O Projeto Raquel salvou a minha vida. Todos os sintomas que eu estava tendo eram decorrentes da negação por conta do aborto. Nesses anos todos, nunca falei do aborto. Já no Projeto, os profissionais treinados me ajudaram a enfrentar essa realidade”, afirma Helena.
A partir daí, ela se engajou na propagação não só do Projeto Raquel, mas também no trabalho de conscientização para impedir que mulheres abortassem. E ainda foi a responsável pela chegada do Projeto Raquel ao Brasil.

A Igreja assume o Projeto – Implantado no Brasil em novembro de 2011, o Projeto recebe o apoio da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e sua primeira unidade fica em São Paulo, assumida pela Comunidade Unidos em Cristo.
“A Igreja não é um hotel dos perfeitos e dos santos, mas é a hospedagem dos machucados e enfermos, como lembra a parábola do bom samaritano”, ressaltou dom João Carlos Petrini, da Diocese de Camaçari (BA), na ocasião do lançamento do Projeto Raquel no Brasil. Ao desenvolver esse trabalho, a Igreja reafirma sua posição contrária ao aborto e chama a atenção para o fato de tal prática ameaçar a dignidade da vida humana, tanto da criança gestada, quanto da mulher.  “Quando a dor no coração se impõe, a partir da consciência do ato feito, este é o momento da graça de Deus que acolhe em seu perdão”, completou o bispo.

Acompanhamento –  “As mulheres entram em contato buscando informações, mas ainda com resistência. Houve um caso de uma pessoa que ficou com o número do nosso telefone na bolsa por três meses até que nos procurou”, conta Sônia Maria Oliveira Ragonha, coordenadora do Projeto.
Luiz Carlos Carmona, psicólogo há mais de 30 anos especializado no atendimento de gestantes, é um dos profissionais que atuam nessa iniciativa. “O Projeto Raquel visa exatamente ajudar a pessoa a perceber, em primeiro lugar, que, quando ela cometeu aquele ato, foi algo impensado, feito sob pressão, muitas vezes dos pais, namorado ou até o próprio marido”, explica.
O caso de Helena confirma essa realidade. “Embora meus pais fossem rígidos, eu nunca recebi nenhuma orientação sobre sexualidade. Não sabia direito o que estava acontecendo comigo, apenas que não podia engravidar.”
Fora os sentimentos e as consequências próprios do aborto, a mulher também carrega sentimentos de outras realidades da vida, relacionamentos afetivos, traumas de infância. “Nosso trabalho é ajudar essa mulher a perceber que ela é uma pessoa normal, acometida por traumas e situações difíceis de serem resolvidas na época, mas hoje se encontra com mais capacidade para enfrentar tudo isso”, destaca Luiz.

Negação e culpa – A negação que Helena tinha do aborto é um sintoma comum nesses casos.  “É como se estivesse mentindo para si própria. Quando isso fica claro para ela, mediante a leitura de um artigo sobre o tema, entrevista, palestra, essa pessoa até se lembra que ‘naquele tempo eu fiz isso’, mas imediatamente, de uma forma bem automatizada, entra um mecanismo de defesa na mente dela, dizendo ‘não, isso não aconteceu comigo’. E algumas pessoas desenvolvem síndromes terríveis em decorrência dessa negação”, alerta o psicólogo.
A esposa de Luiz, Eneida André Carmona, também é psicóloga há mais de 30 anos. Além de colaborar no Projeto Raquel, ela atende há muito tempo, casos de Síndrome Pós-Aborto em seu consultório. Mas nem sempre a questão do aborto é o motivo que leva a mulher para a terapia. “Já atendi mulheres que trazem um histórico de depressão profunda, falta de sentido na vida. Em algum momento da terapia, surge a questão do aborto. Quando esse tema vem à tona, é um divisor de águas no processo terapêutico”, explica.
Para Eneida, o Projeto Raquel tem muito a contribuir para esse processo terapêutico, pois há um estímulo para que a mulher enfrente essa realidade, sem contar que o acompanhamento também leva em consideração a dimensão da fé, fundamental para a cura da culpa. “Dentro do consultório, já ouvi mulheres me dizerem que se confessaram várias vezes, pois mesmo sabendo que Deus perdoa, o conflito está nela. Ela não se perdoa”, salienta.
“Nunca uma mulher passa sozinha pela experiência do aborto. No caso, quem que acompanha? Pode ser uma pessoa, mas muitas vezes ela vai acompanhada pelo medo, pela falta de conhecimento. Porém, por mais que depois digam a ela que ela não estava sozinha, que até foi obrigada, sente inteiramente responsável”, afirma Eneida.
No acompanhamento da Síndrome Pós-Aborto, a tomada de consciência da morte de um filho e a culpa assumida por essa perda vêm à tona. Para que essas mulheres sejam restauradas, é preciso que ela não apenas se sinta perdoada por Deus, mas perdoe a si mesma. “No tratamento, nós ajudamos a mulher atendida a não se considera uma homicida, uma assassina. Seria como se, ao invés de tentar resolver com ela a situação, estivéssemos colocando mais um punhal no pescoço dela, julgando-a e condenando-a”, salienta Luiz, explicando que essa mulher já tem a consciência do ato cometido.

Expansão – Além de São Paulo, também já começaram os trabalhos no Instituto da Família, em Camaçari (BA) e está para ser implantado no Rio de Janeiro, Distrito Federal e Santa Catarina. “Nós pedimos aos padres, religiosas, leigos que possam ser uma pessoa que contribua com essa missão de alguma forma, ouvindo essas pessoas, dando atenção para o que elas têm a dizer, mantendo o sigilo absoluto daquilo que ouviu e encaminhando para nós, para o Projeto Raquel”, orienta Luiz.
Helena não nega que jamais poderá apagar de seu coração a chaga do aborto, mas garante que, graças ao Projeto Raquel, ela se reconciliou com Deus e consigo mesma. Garante que hoje pode evitar que o mal se repita. “A misericórdia de Deus é insondável. A mulher que abortou e acolheu essa misericórdia em sua vida, precisa lutar para que jovens não mais passem por essa dor.”


Projeto Raquel
Informações sobre o Projeto Raquel se encontram no site www.projetoraquel.org.br ou pelo telefone (11) 2579-4175.




Fonte: Familia Crista ed. 925 janeiro de 2013
Postado por: Família Cristã




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