Presidência na escuta

Data de publicação: 23/06/2015

Nathan Xavier
 
“É ilusão achar que existe uniformidade”, afirma dom Sérgio da Rocha, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ele ressalta que a nova presidência vai buscar ser da escuta: do episcopado, do povo e da Igreja

O arcebispo de Brasília (DF), dom Sérgio da Rocha, de 55 anos, foi eleito presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na 53ª Assembleia Geral da CNBB realizada em Aparecida (SP), em abril, sucedendo o Cardeal Raymundo Cardeal Damasceno Assis.
Dom Sérgio, nasceu em Dobrada, interior de São Paulo, mas cresceu no município vizinho, Matão. Sagrado bispo em 2001, tornou-se bispo auxiliar de Fortaleza (CE), e, em 2008, arcebispo de Teresina (PI). Em 15 de junho de 2011, foi nomeado pelo papa Bento XVI arcebispo metropolitano de Brasília.
O novo presidente da CNBB reforça o pedido do papa Francisco por uma Igreja em saída e ressalta esses pontos nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizada da Igreja no Brasil aprovadas pelo episcopado brasileiro. Ele fala, também, nesta entrevista exclusiva à Revista Família Cristã, de sua experiência pastoral, sobre a atual polarização política brasileira, que acaba refletindo nas denominações religiosas, e que é preciso ouvir os bispos, as religiosas, os religiosos e a população para que a CNBB possa continuar entender os anseios e necessidades da sociedade.


FC − Quais foram as mudanças nas diretrizes da CNBB?
Dom Sérgio − Na verdade, nós conservamos o esquema e os conteúdos principais das diretrizes anteriores, porque a tarefa proposta foi de atualizá-las, não de elaborar novas. Eu digo isso por causa da validade daquilo que até agora estava sendo seguido como diretrizes. Elas continuam válidas. Nessa atualização, a fonte principal, obviamente, como sempre tem de ser, é a Sagrada Escritura. Também o documento de Aparecida continua como referência. Porém, agora, entra como fonte a encíclica Evangelii Gaudium, do papa Francisco. Além disso, também se pediu uma atenção especial aos discursos que o papa fez no Rio de Janeiro, no Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), e ao episcopado brasileiro. E, por fim, se pede uma atenção ao papado de Francisco, em seus gestos e iniciativas. São diretrizes contextualizadas ao momento atual da Igreja.

FC − O papa Francisco usa muito a expressão “Igreja em saída”. Podemos dizer que essa ideia está presente nas novas diretrizes?
Dom Sérgio − Esse é um dos conceitos principais da Evangelii Gaudium, por isso, uma das expressões acolhidas com especial atenção, mas com aquilo que ela traz de missionariedade. Já tínhamos presente um enfoque missionário, mas dessa vez ele foi alargado. Para dar um exemplo de como o pontificado de Francisco influencia, no objetivo geral da ação evangelizadora, falávamos em Igreja discípula, missionária, profética e, agora, acrescentamos “misericordiosa”. Isso foi feito por causa da ênfase que o papa dá a essa dimensão e pelo próprio Ano da Misericórdia. O contexto das diretrizes atuais também. Então vários elementos das novas diretrizes que aparecem em alguns momentos, como o Ano da Vida Consagrada, o jubileu extraordinário, o jubileu do Concílio Vaticano II, o Ano da Paz, os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Isso tudo está presente no texto.

FC − Quais os desafios que o senhor tem pela frente como presidente da CNBB?
Dom Sérgio − A tarefa da presidência é dar continuidade a todo um trabalho já existente, então não tenho um desafio de caráter pessoal. Temos sim os grandes desafios que a Igreja no Brasil já enfrenta, os que estão agora sendo indicados para essa nova presidência e os que foram eleitos para o Conselho Pastoral. Temos como primeira missão cumprir, fazer e ajudar a cumprir as decisões das assembleias gerais dos dois conselhos, portanto, por mais que haja uma marca pessoal, um jeito de cada um, precisamos ao máximo acolher os anseios, as preocupações e as propostas do episcopado. Não quer dizer que não possamos fazer propostas, mas, em primeiro lugar, nós acolhemos propostas. Aquilo que o episcopado considera como sendo muito importante, isso é nossa pauta, isso é nosso desafio. Eu digo que nós queremos ser uma presidência na escuta, uma conferência nacional que procure escutar primeiramente o episcopado, mas também o povo e a Igreja. É ilusão achar que existe uniformidade. O que há é comunhão, mas vozes dissonantes sempre existem e é bom que existam. Faz parte até da catolicidade, da diversidade de dons e posturas. A Igreja permite que, dependendo do assunto, existam posições diferentes. Claro que alguns assuntos de princípios e valores não se pode abrir mão. Mas há questões legítimas em que a pessoa pode ter uma proposta diferente.

FC − Como agora, o senhor afirmou que é preciso ouvir o povo. No caso das questões políticas, quem seria esse povo?
Dom Sérgio − São várias vozes, não uma única voz. Em documento anterior da CNBB, fala-se dessas manifestações nas ruas, que é preciso escutar, ouvir a voz, o clamor do próprio povo. Nós temos que ter presentes os grandes problemas que estão aí de caráter ético, de caráter político. Eu destaco aqui, primeiramente, a corrupção, a falta de ética na política, isso não pode continuar assim. Tem o problema da violência crescente, que se manifesta de maneira diversificada, sempre fazendo tantas vítimas, fazendo pessoas sofrerem, sobretudo os mais pobres. O Brasil deu passos importantes para superar as desigualdades, mas elas ainda são imensas, sobretudo as desigualdades regionais. As estatísticas ajudam, mas é preciso cuidado porque atrás dos números tem gente. Gente que sofre, gente que vive, que morre, que tem coração, que tem vida. E nada substitui o contato mais direto com essas realidades. A indiferença é muito grave. Então ouvir a voz das ruas é ouvir esse clamor por justiça, por ética, esse clamor por paz. Mas é preciso ouvir de maneira organizada, lembrando que na Igreja nós temos as pastorais sociais, organismos, e acho que nós temos que avançar nos trabalhos sociais das pastorais. Já fizemos muito, mas não podemos achar que já fizemos tudo. Eu acho que as pastorais sociais, cada uma no seu plano, precisa crescer. É também tarefa da comunidade motivar os cristãos leigos e leigas a participar da vida social.

FC − Qual a posição da Igreja sobre certas bancadas no governo ou no congresso, que se destacam por um conservadorismo extremo ou por um liberalismo também extremo?
Dom Sérgio − Nós estamos defendendo muito duas coisas. Em primeiro lugar o diálogo: polarizações ideológicas não ajudam em lugar nenhum. Segundo, temos que superar o corporativismo na política. Se não se cuida, as pessoas se elegem para defender interesses de grupos e corporações, e não o povo. Isso seria o oposto da política séria. Um grupo, seja qual for, tem o direito de defender seus pressupostos, mas não agir em função própria, dos seus interesses e, muitas vezes, em detrimento do interesse comum. O corporativismo é a morte da política verdadeira. Não é assim que nós propomos a participação política dos católicos. E isso não é de hoje, estou apenas aplicando a situação do Brasil àquilo que a própria Doutrina Social da Igreja fala. Não temos, e tampouco a CNBB incentiva, a formação de uma bancada católica que defenda uma espécie de corporação. Agora, sendo políticos católicos ou não, existem valores muito claros, cristãos e humanos, que precisam ser defendidos. E defender princípios e valores não está errado, mas essa defesa tem que ir além de interesses partidários. Se não fizer isso não se resgata a ética na política. Por que há corrupção? Porque existem interesses pessoais ou de grupos, sejam quais forem. Nós queremos, sim, católicos atuando na política, mas nesse espírito de pessoa pública que serve o povo, que serve os mais pobres, que olha para as periferias e centros urbanos, e não que olha somente para si. Se o olhar do político for voltado para si, seu partido ou corporação, não teremos solução para os problemas de corrupção em nosso País.

FC − Junto com a Assembleia dos Bispos e com total apoio e participação destes, ocorreu o lançamento da Rota 300, um novo projeto da CNBB de evangelização para a juventude. Nesse campo, a redução da maioridade penal é um retrocesso para o Brasil? Por que a CNBB é contra?
Dom Sérgio − Não é apenas a CNBB, muitas entidades que levam a sério os direitos humanos têm a mesma posição. Nós precisamos pensar a superação da violência a partir de outro pressuposto, o da formação da educação, de ações socioeducativas, para a juventude, para os menores e crianças. Esse público, em primeiro lugar, é vítima da violência. Isso é muito claro. Depois é preciso olhar claramente as causas disso. Não podemos achar que a violência ou a impunidade estão crescendo por causa dos menores. É uma ilusão achar que a simples redução da maioridade vai resolver essas coisas. Tem que olhar melhor qual é, de fato, o porcentual de menores responsáveis pela criminalidade. E mesmo que reconhecesse que a responsabilidade é grande, o que fazer para que esses menores não cheguem à situação de menores infratores, muito mais que simplesmente punir? Neste momento, o que precisa mesmo é pensar em ações preventivas, que não tenhamos menores infratores, mas que também não tenhamos adultos no meio do crime e da violência como temos tido. Precisa de políticas públicas mais firmes no cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente.  Grande parte desses problemas passa pelos adultos.

FC − Como a CNBB está articulando para que a Igreja continue em saída no Brasil?
Dom Sérgio − As nossas diretrizes já falavam e agora falam mais ainda, em pequenas comunidades. Porque a grande comunidade não consegue dar conta daquilo que é o aspecto subjetivo, pessoal, familiar, então não dá para ter a paróquia centralizada na matriz ou a grande paróquia que não tenha comunidades. Não tem outra saída, precisamos formar comunidades, pois existem grupos, círculos, que já fazem parte de muitas realidades locais no Brasil. Em Brasília, onde trabalho como arcebispo, há locais que não têm capelas porque o território paroquial é de algumas quadras, não tem como fazer uma capela. Nem por isso deixa de ser comunidade. Pode ser nos prédios, nos edifícios, já existem condomínios até com padroeiro, e ali se reúne a Igreja. Nós estamos voltando cada vez mais para a Igreja nas casas ou das casas. A Igreja Católica que se faz presente nas casas, que foi o início dos primeiros séculos da Igreja. Hoje temos que voltar a isso. Tenho também como referência, desde Teresina, quando fui bispo lá, as visitas pastorais missionárias. São visitas do bispo, acompanhado de padres ou missionários, diáconos, seminaristas e leigos e leigas que vão de porta em porta, em casas e outros ambientes, evangelizar. Essas visitas são importantes, mas não excluem a necessidade de testemunho cristão direto nesses ambientes. Temos que formar o laicato, valorizar os leigos. As comunidades formam, mas precisam de gente formada. Precisamos também, do próprio clero na sua formação inicial, permanente, esse espírito missionário. Não dá para você conhecer o povo, ter aquele cheiro de ovelha, como fala o papa, ficando na casa paroquial. Da janela da casa paroquial não se conhece a realidade do povo. E das janelas dos carros, piorou. Padre e bispo tem que sair da casa, tem que sair do carro, andar no meio do povo, entrar nas casas. Não tem como pastorear o rebanho sem estar no meio dele, sobretudo nas situações mais sofridas. E sempre olhando as duas realidades: os mais pobres, mas também os que estão mais distantes da Igreja, independentemente da situação social. Além do mais, precisamos da participação dos fiéis leigos e leigas nos diversos conselhos que existem nas cidades, conselhos paritários, que pressupõem representação da sociedade civil. Uma lacuna que temos é justamente a presença da Igreja no mundo artístico e esportivo. Na música até temos alguma coisa, mas o restante das artes e dos esportes precisamos de uma presença firme, vigorosa, que testemunhe a beleza da fé, de ser cristão, nesses lugares. Ser católico não é algo fora de moda, é algo para ser experimentado nas novas circunstâncias que estamos. Precisamos de gente que vive da fé. É uma tarefa imensa.

Confira mensagem, em vídeo, que dom Sérgio deixou aos leitores e colaboradores da Família Cristã:






Fonte: Edição 954,junho 2015
Postado por: Família Cristã




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