Na alegria, na doença

Data de publicação: 23/06/2015

Karla Maria
Fotos: Sonia Mele

Izabel e Vivaldo Souza estão entre os milhares de nordestinos que enfrentaram o pau de arara e encontraram em solo paulista amor e trabalho para dar vida a sua família


Eles se conheceram em uma São Paulo (SP) de ruas largas, sem asfalto, de namoro no banco da pracinha, em frente à igreja. Eram outros tempos, 1954, época em que o Nordeste passava por um período de economia estagnada e de seca, e os grandes centros urbanos eram a oportunidade de vida para muitos. Foi então que milhares de nordestinos, dois em especial para estas páginas, migraram para a capital paulista.
Enfrentaram o pau de arara. Ele, 15 dias de viagem, nos trancos duros da estrada e na poeira batida debaixo da lona que protegia do sol. Ela, nove dias até Minas Gerais, onde esperou por um trem que a levou até a Lapa, na zona oeste da capital paulista. Este é o começo da história dos baianos Vivaldo Mendes de Souza, hoje com 80 anos, e Izabel Ribeiro de Souza, com 77. Ele, natural de Brotas de Macaúba, região da Chapada Diamantina, 600 quilômetros de Salvador, e ela, de Morro do Chapéu, 388 quilômetros da capital no estado da Bahia. No dia 18 de abril, completaram 56 anos de casados e, desde o sim no altar e no cartório, ela carrega, além da aliança, o Souza como novo sobrenome.
Antes de deixar o Ribeiro para trás, Izabel deixou a Bahia. “Eu vim porque meu pai morreu, e aqui em São Paulo eu já tinha dois irmãos. Não tínhamos como tocar a roça sozinhas lá na Bahia”, conta. A moça não veio sozinha.
“Saímos de Bela Vista de Utinga de pau de arara até Flores, lá pegamos um trem até Minas e ficamos dois dias esperando o outro trem para São Paulo. Dormimos na estação, fizemos comida na lenha. Éramos 18 pessoas”, lembra Rosentina Ribeiro dos Santos, a Rosa, irmã e companheira na travessia. Rosa tem 79 anos e diverte-se com Izabel contando sobre o medo que tinham do trem, já que era a primeira vez que avistavam um. “Aquele trem vinha soltando fumaça, a gente ficou até com medo.”
Com Vivaldo a história não foi muito diferente. Ele trabalhava na roça, criava gado, mas queria mais. “Vim pra tentar a vida. Eu namorava uma moça, a Isaura, mas não era coisa séria, e disse que voltava em cinco meses, mas não voltei”, conta.
Quando chegou a São Paulo, aos 19 anos, por dias Vivaldo dormiu escondido em construções, em cima de tijolos. Até arrumar um quartinho na Lapa, dividia o aluguel com um colega de trabalho. Foi servente de pedreiro durante um tempo, até que surgiu vaga em uma empresa de artefatos e embalagens. Lá mexia com o maquinário como poucos, tanto que permaneceu trabalhando na empresa por décadas até ser acometido por um acidente vascular cerebral.
Izabel, chamada carinhosamente de Bela – com aparência e sorriso que justificam cada vogal e consoante da pequena palavra –, também morou na Lapa, mas até então eram apenas dois desconhecidos. “O meu irmão alugou uma casa boa para a gente morar, mas naquela época não tinha água, era tudo em poço”, conta, lembrando que algum tempo depois foi trabalhar em casas de família como empregada doméstica.

O encontro – Os dois foram apresentados pela primeira vez por Toninha, uma prima de Bela. “Eu a vi pela primeira vez na fábrica, mas só olhei e não foi ali que começamos a namorar.” O namoro começou um tempo depois, na mesma Lapa, e os encontros consistiam em passeios pela Avenida Paulista, idas à Rádio Nacional e ao cinema e só, já que os irmãos ficavam vigiando. “Quando a gente estava longe dos meus irmãos, minha patroa dava uma força”, lembra Bela.
Sobre o primeiro beijo, a resposta veio com certo rubor. “Ah, a gente quase não beijava, porque os irmãos não deixavam, não podia nem pegar na mão”, diz Izabel. O namoro evoluiu, ambos conheceram as famílias e, naturalmente, o tema casamento surgiu.
“Ele queria casar só no civil, aí eu disse que só no civil eu não casava. Queria que fosse na Igreja, e a gente demorou um pouco”, destaca Bela. E casaram-se na Igreja de Nossa Senhora do Ó, uma das mais antigas da cidade de São Paulo, localizada na Freguesia do Ó. A mesma igreja em que décadas depois seu filho caçula, Edson Santos, casou-se com Jucilei Alves, e da união nasceram Rodrigo e Gabriela.
“Minha patroa que fez o meu vestido. Casamos de manhã no civil e à tarde fomos à igreja. Lá estavam meus irmãos, muitos primos, e o padre, que era um velhinho de cabeça branca”, conta sorridente Bela.
Casaram-se e fizeram uma festa na casa em que iam morar. Surgiram os filhos Ivete (1960), Gilberto (1961), Maria Aparecida (1964), Elcio (1965) e Edson (1970). Neste tempo foram diversas as casas, até que foi possível comprar um terreno e construir a casa própria, a mesma em que receberam a equipe de reportagem, a mesma que durante o dia permanece com o portão destrancado, já que todos no bairro da Vila Iório conhecem a família e, por vezes, se “esquecem” de acionar a campainha.
“Foi um sacrifício muito grande”, conta Vivaldo, sobre a construção da casa, e dificuldades não faltaram para essa família. A filha mais velha do casal, Ivete, nasceu com uma perna maior do que a outra. “Demorou três anos para ela andar”, conta Bela.
Mas não foi só. Ivete tornou-se a mãe e a filha de todos da família, já que nunca se casou e ainda hoje mora com os pais. Com uma cabeça incrível para datas e números, Ivete apresenta uma dependência grande e especial da mãe Bela. Não há um diagnóstico preciso sobre o tipo de deficiência, mas sobram amor e carinho na relação dela com a família. “Meus filhos não deram trabalho, não faziam folia dentro de casa. As crianças de hoje estudam e dizem que aprendem, mas são mal educadas”, confidencia Vivaldo.
A grande alegria de Bela foi o casamento de Maria Aparecida, a Cida. “Ele (Vivaldo) pagou a festa todinha, até meu vestido. Eu marquei o casamento, e a mãe já começou a comprar coisas para o enxoval”, conta Cida, que na ocasião se casou com Antonio Carlos, e da união surgiram os filhos Karla, Caio e Camila.

Na doença − Não só de alegrias a família Souza viveu. Em 2010, Elcio morreu, tinha 44 anos. Deixou a esposa, Simone, e a filha, Bruna. Não pôde conhecer a pequena Bia. “Enterrar um filho dói, dói demais”, desabafa dona Bela, calando-se.
Izabel é forte. Avó de um personal trainer, o neto Caio, é capaz de ensiná-lo o que significa alcançar resistência depois de tantos anos de roupa no tanque, de uma rotina diária de limpeza e manutenção de uma casa, de ser suporte há décadas para o marido. O que, no entanto, não a livrou de por duas vezes ter sofrido derrames, dos quais carrega até hoje algumas sequelas, como dores e uma certa dormência pelo corpo.
Outro capítulo difícil vivido por esta família foi o derrame que Vivaldo sofreu no dia 8 de julho de 2002. A data é marcada na lembrança, porque mudou definitivamente a vida do casal e, consequentemente, de toda a família.  Na ocasião, Cida, a filha mais nova, mudou-se para a casa dos pais, a fim de estar próxima e auxiliar a mãe nos cuidados médicos.
“Tudo mudou na minha vida. O derrame foi quase... é uma morte. Eu fazia coisas por todo o lado, trabalhava há 48 anos na empresa e ajudava quem precisasse na parte elétrica das casas”, conta Vivaldo, deitado em sua cama, ao lado de um andador que ampara suas pernas grandes e frágeis, instáveis até para pequenas locomoções.
Para distâncias maiores, a cadeira de rodas é utilizada. E Izabel, como que interpretando e vivendo letra por letra o juramento que fez no dia de seu casamento, está ali, ao lado do marido. Serve o café da manhã no banquinho da sala, às 7 horas. Às 10 horas, assistem juntos à missa na televisão; após a refeição, às 12 horas, ela traz a bacia para escovar os dentes e, ao final do dia, dá o banho, traz o lanche e assistem aos programas de televisão. O volume alto denuncia a idade dos dois.
Com os horários do remédio, Ivete ajuda pontualmente.
Aos sábados, às 9 horas da manhã, duas ministras da Comunidade São João Batista aparecem à porta, entram e iniciam a oração. A comunhão é entregue aos três, e Jesus Eucarístico torna-se presença viva e constante. “Foi uma tristeza ter acontecido isso (derrame), mas a gente acostuma porque Deus ajuda”, afirma Bela, que também teve sua rotina bastante modificada. Ela fazia hidroginástica, natação e ia todos os domingos à missa.
A alegria de toda a família vem das crianças, e o Greg é o sorriso do momento, o segundo bisneto do casal, filho da Letícia, sobrinho da Patrícia, ambas filhas do Gilberto, o primogênito da família Souza. Há ainda a presença mais do que animada do Pedro e do Vitor, netos postiços de Cida e frutos de sua segunda união, com o Mário.
“É muito bom ver nossa família assim bonita, saudável. Eu me sinto grata a Deus por tê-los”, conta Bela, com aquele sorriso discreto, mas contagiante.
Da seca na Bahia e da travessia no pau de arara para a juventude na terra cinza e a família unida, na casa construída com as próprias mãos e o suor do trabalho duro, o casal migrante, com 56 anos de união, deixa a receita de um casamento feliz. “O segredo é ter paciência, perdoar, não brigar e deixar para lá os aborrecimentos diários, porque se for se apegar a tudo isso a gente não vive”, conta dona Izabel.
Para Vivaldo, é preciso que os dois se unam e que não deem muito valor para a conversa dos outros. “O mais importante é permanecermos juntos, isso deixa forte qualquer união.”




Fonte: Edição 953,maio 2015
Postado por: Família Cristã




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