Munduruku

Data de publicação: 23/06/2015

Osnilda Lima, fsp
Fotos: Paulo Maia

A cultura munduruku, a sua história e suas dinâmicas sociais podem ser profundamente afetadas pela construção das hidrelétricas do Complexo Tapajós

No remanso, junto das margens do Rio Tapajós, entre a cidade de Jacareacanga (PA) e a Aldeia Piquiá, lá estavam Teodorico Akay Munduruku, capitão (cacique) da aldeia e seu je'it (filho) nos aguardando para uma visita à aldeia. “Wykabia!”, bom dia em munduruku, nos cumprimentou Teodorico, com voz baixa, típica da sua cultura. “É longe a aldeia?”, perguntamos. “Uns três dias”, respondeu com um sorriso no rosto enquanto atracava sua rabeta, uma espécie de canoa com motor, para que pudéssemos embarcar. Para quem vive às margens do rio, em meio a floresta, o compromisso é apenas o chegar e o partir, a hora e o tempo não importa.
No murmúrio do rio, no sossego da travessia, no silêncio da mata que ainda amanhecia, lá fomos nós nos braços do rio, guiados pelo canoeiro Teodorico. O nosso porto, a Aldeia Piquiá, a 40 minutos da cidade. Ao chegarmos, na outra margem, Dolores Manhuary Munduruku, esposa do capitão, nos aguardava. Sorridente, estendeu a mão e perguntou: “Xipat?”, que quer dizer: Está bem? Com Dolores, estavam as crianças, filhos e netos numa algazarra só, todos falando munduruku. Naquele momento a vida na aldeia parecia desfilar impávida. A matriarca, mãe de cinco filhos, nos levou até o espaço comum onde todas as manhãs a comunidade se encontra para iniciar o dia.
 “A gente acorda às 5 horas. Aí faz o café da manhã, cada um prepara em sua casa e traz aqui, comemos juntos, às 7 horas. Depois da reunião, do alimento, os homens vão caçar e pescar, e as mulheres vão capinar roça, plantar a roça”, conta Dolores.
É costume dos povos Munduruku se reunirem diariamente para o café da manhã grupal, na aldeia. Enquanto conversávamos com Dolores, os demais moradores da aldeia chegaram, ao local comum, com garrafas de café, seriquitá (farinha de tapioca) e bolinhos de seriquitá fritos, para o café da manhã em comum. Contaram-nos que, dependendo da época e da situação das famílias, são oferecidos mingaus (de banana e outros), banana frita, beiju, mingau de cará e açaí que são colocados à mesa para as pessoas se servirem. O início do dia é o momento em que conversam sobre os assuntos da aldeia, as novidades e planejam ações.
Segundo Ivanildo Akay Munduruku, professor e morador na aldeia, ao comerem juntos e trocarem alimentos entre si, os Munduruku reafirmam valores que lhes são fundamentais, como a relevância das relações de doação gratuita. Apresentam a forma de economia da aldeia que está constituída de acordo com a troca, sendo esse modelo, voltado para a construção de uma economia solidária. A aldeia cultiva para a subsistência, mandioca, arroz, banana e batata cará.
Dolores conta que quando a caça e a pesca são suficientes para alimentar toda a comunidade, as demais refeições são preparadas para todos, do contrário cada família prepara sua refeição. Na Aldeia Piquiá, que tem 20 anos de fundação, moram os cinco filhos, noras e genros de Dolores e Teodorico, o pai do cacique, irmãos e sobrinhos. Ao todo, oito famílias.
“Aqui eu sou feliz, filhos e netos, todos estão aqui, todos”, revela Teodorico. As crianças, desde muito cedo, formam verdadeiras sociedades à parte, cuidando-se mutuamente. É comum vê-las brincando no rio, pegam a canoa e ficam remando de um lado para outro, no remanso, contra a corrente, junto das margens do rio, os maiores cuidam dos menores.  Segundo o professor Ivanildo, a partir dos dez anos deixam de apenas brincar e começam a desenvolver papéis domésticos e iniciam atividades na família com total responsabilidade. Os meninos recebem pequenas réplicas de arcos e flechas e, a partir dos dez anos, começam a se aventurar em pequenas expedições de caça. Os Munduruku gostam de criar animais silvestres como bichinhos de estimação. As crianças em alarido brincam com os animais. São espécies de mamíferos ou aves. Entre os mamíferos pudemos ver macacos coatás pretos e suí.

A Terra Indígena Munduruku – A Terra Indígena Munduruku apresenta cerca de 130 aldeias, aproximadamente 13 mil indígenas, no Alto, Médio e Baixo Tapajós, no Pará. As aldeias são formadas por apenas uma família ou por dezenas de famílias, parentes próximos.  No entanto, devido à organização social do povo Munduruku, novas aldeias surgem com frequência.
A procura, escolha e ocupação de locais para implantação de novas aldeias é uma arte entre os Munduruku, segundo Levantamento Etnográfico Munduruku do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL). “Os homens de uma família costumam percorrer grandes áreas do território munduruku, às vezes durante as excursões de caça ou pesca, ou intencionalmente procurando novos locais para implantar aldeias.” Em muitos casos, de acordo com o levantamento, membros mais velhos da família e da aldeia, após encontrarem o lugar para as novas instalações, as descrevem como muito bonitas, com fartura de caça, pesca e castanhas, e em alguns casos a ocorrência de terra preta, pois esse tipo de solo é muito propício para a agricultura.
Ainda de acordo com o PPTAL, a dinâmica munduruku faz com que aldeias sejam abandonadas e outras fundadas por vários motivos: dificuldades de acesso, isolamento geográfico, doenças, escassez de recursos naturais, entre outros, e podem ser fundadas pela proximidade dos recursos explorados em certa época e, atualmente, também pela necessidade de ocupar e proteger o território.
A atividade de caça e pesca é muito importante e valorizada pelos Munduruku em termos simbólicos e não simbólicos. De acordo com o PPTAL, “caçar e pescar é uma atividade social bastante complexa, pois envolve uma série de preceitos e conhecimentos elementares e próprios da cultura”.
A produção de alimentos é um trabalho essencialmente familiar. As crianças fazem parte desse cotidiano e em geral acompanham, desde muito pequenas, suas famílias nas roças. A organização do trabalho é bem definida. A abertura das roças é um trabalho para os homens e o plantio, dependendo da espécie, é feito tanto pelos homens quanto pelas mulheres. A manutenção da roça e a colheita são tarefas das mulheres, apenas a colheita da mandioca é trabalho tanto de homens como das mulheres da família.
As casas são feitas de estrutura de madeira, os esteios, paredes de madeira formando um trançado de trama grande coberto por barro amassado, adobe e cobertura de folhas de palmeira de diversas espécies ou sapé (gramínea), dependendo da região. O chão é de barro socado, e as portas externas são de madeira.
Em boa parte das aldeias Munduruku não há energia elétrica, o cozimento de alimentos é feito através da queima de lenha. Geralmente, é uma atividade familiar que envolve todas as mulheres de uma família, cabendo a um dos homens da família a derrubada da árvore da qual se corta a lenha.


Vida ameaçada −
A tranquilidade desse povo está ameaçada. O governo planeja a construção de 12 hidrelétricas na Bacia dos rios Teles Pires, em Mato Grosso, e Tapajós, no Pará. Três já estão em execução: São Manoel, Colíder e Teles Pires. Porém, a maior delas, São Luiz do Tapajós, encontra forte resistência dos indígenas Munduruku por destruição de seu território.
Essa Terra Indígena estava em processo de demarcação, no entanto, parou quando o governo percebeu que a terra será inundada com a construção da Usina Hidrelétrica São Luiz do Tapajós. A Constituição Federal proíbe a remoção forçada de povos indígenas, o que, na prática, inviabiliza a obra.
Segundo o procurador da República, no Pará, Felício Pontes Jr., o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação sobre as Terras Indígenas está pronto desde 2013, e ainda não foi publicado, sem qualquer explicação. A publicação de um relatório é o momento em que o governo admite uma área como Terra Indígena. Esse relatório conclui “o reconhecimento da Terra Indígena Sawré Maybu, por parte do Estado, é imprescindível para conferir segurança jurídica aos indígenas e garantir que seus direitos sejam plenamente respeitados”. O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação na Justiça para obrigar o governo a publicar o relatório, que aguarda julgamento.
De acordo com o procurador Felício Pontes, “a terra indígena Sawré Maybu é considerada terra sagrada (Daje Kapap’ Eipi), local onde nasceu o primeiro Munduruku (Karosakaybu), os animais e o Rio Tapajós. Se houver comparação com nossa civilização, pode ser chamada de uma ‘Jerusalém Munduruku’ ou o Jardim do Edén”.

Consulta prévia − Índios e ribeirinhos entregaram ao Governo Federal, em janeiro deste ano, o protocolo para consulta prévia da Usina São Luiz do Tapajós, no qual solicitam que todas as aldeias – do Alto, Médio e Baixo Tapajós – sejam consultadas, inclusive aquelas localizadas em terras indígenas ainda não demarcadas. “O governo não pode nos consultar apenas quando já tiver tomado uma decisão. A consulta deve ser antes de tudo. Todas as reuniões devem ser em nosso território – na aldeia que nós escolhermos –, e não na cidade, nem mesmo em Jacareacanga ou Itaituba”, aponta o documento indígena.







Fonte: Edição 953,maio 2015
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Um olhar que viu
Tatiana Belinky, nome importante no mundo da literatura no Brasil, celebra centenário de nascimento.
Marco Frisina no Brasil
O Brasil recebeu a visita do Monsenhor Marco Frisina, compositor e Maestro de música Sacra
Mesa da Palavra
A refeição e a pesca são dois acontecimentos unidos na mesma narrativa
O melhor alimento para o bebê
O aleitamento materno é uma unanimidade mundial. Todos os profissionais de saúde reconhecem
Revista FC Maio 2019
A matéria de capa desta edição destaca o dom de ser mãe.
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados