Primeiro mandamento

Data de publicação: 30/06/2015

“Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda tua alma e com todas as tuas forças”, esse é o primeiro mandamento

Por: Maria Inês Carniato, fsp

O primeiro  mandamento refere-se ao amor de Deus: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”, livro bíblico do Deuteronômio (Dt 6,4-5).
“Se Deus existe, eu quero desfrutar de tudo o que Ele oferece”, declarou uma pessoa materialista, consumista e ávida das novidades do mercado. Deus, no entanto, é totalmente Outro, e sua novidade é oposta aos egocêntricos e insaciáveis delírios de consumo de gente que compra tudo.
O primeiro mandamento  é o eco da voz do Deus justo, amoroso, bondoso e protetor dos fracos, que se revelou a Abraão, a Moisés e aos profetas: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim” (Ex 20,2-3).
Desde os tempos bíblicos até os dias atuais, o lugar de Deus é disputado pela idolatria. Todos os povos imaginavam seus ídolos como personalidades instáveis, egoístas e exigentes, prontas a punir os seres humanos, quando insatisfeitos. Para os pobres e os escravos, a ideia de deus era associada a obrigação e sofrimento. Deviam servir os poderosos, queridinhos das divindades, entregar as colheitas para os templos e sacrificar bens e até os próprios filhos, quando as calamidades naturais eram interpretadas como sinais da ira divina que só as oferendas podiam aplacar.
Se no passado as pessoas cumpriam as exigências dos deuses por medo, o Deus bíblico faz a proposta totalmente contrária, inspirada no amor que Ele quer dar e receber: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor.  Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,4-5).
Os cristãos dos primeiros séculos deram grande importância aos Dez Mandamentos descritos no livro do Êxodo (cf.20,1-17). Com a organização da catequese, criaram formas mais breves, adaptadas à vida cristã. Amar a Deus sobre todas as coisas é o primeiro convite que a Igreja faz a quem quer assumir a fé como caminho de vida.  

Competidores − Concorrentes de Deus, os ídolos de todos os tempos subjugam as pessoas, imobilizam-nas, escravizam e impõem interesses contrários à aliança de amor e liberdade proposta nos Dez Mandamentos. Se por um lado, a Antropologia, a Filosofia e a Teologia Espiritual reconhecem na pessoa uma primordial sede de Deus, por outro, a ganância de dinheiro, poder e bem-estar é um movente irrefreável da conduta humana. A principal idolatria contemporânea é a mesma de todos os tempos. Se os poderosos do passado se serviram de ídolos nacionais para explorar o povo e juntar tesouros, agora um deus invisível invade as fronteiras, fascina seus seguidores e os obriga a escravizar multidões, que trabalham para torná-los mais poderosos que os imperadores e os faraós. É o deus do Sistema Econômico Unificado, o “ídolo único de toda a Terra”.  
Em março de 2014, a imprensa internacional divulgou denúncias da economista Karen Hudes, alta executiva do Banco Mundial. Ela revelou mecanismos de uma rede global de poderosas instituições financeiras, que, vinculadas ao Banco de Compensações Internacionais, sediado na Suíça, detém metade do capital mundial e regula a economia de todos os países. Imune a impostos e a leis internacionais, o banco hospeda as operações da cúpula da economia mundial, cujas decisões tocam o cotidiano de todos os habitantes do Planeta. Segundo Hudes, a dívida externa é a principal ferramenta de escravização dos países pobres. “Querem ver todos os governos escravos da dívida. Como a elite também é dona dos principais meios de informação, esses meios nunca revelarão que existe algo fundamentalmente errado na maneira como funciona o sistema”, disse ela. O papa Francisco, durante a homilia que proferiu na ilha italiana de Lampedusa, referiu-se a pessoas poderosas e anônimas, responsáveis por decisões macroeconômicas que afetam toda a humanidade e causam a fome, a imigração e as tragédias, como os naufrágios que ocorrem na costa da Itália. 
O Fundo Monetário Internacional (FMI), com sede em Washington (Estados Unidos), gerencia a cooperação econômica global. Os países ricos investem o que sobra, e o fundo empresta aos países pobres. As principais exigências do FMI aos credores são o corte de gastos públicos, isto é, do investimento nas necessidades básicas da população; e o controle do câmbio por meio da baixa do consumo, o que só é possível com a redução de salários. 
Conforme dados do senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, sobre a distribuição de renda na cidade de São Paulo (SP), os milionários somam 1% da população e recebem quase 54% da renda, sendo que 33% deles vivem de aplicações financeiras. Os cidadãos ricos e os da classe média dividem cerca de 35% da renda, ficando menos de 11% para os 50% mais pobres. Segundo a análise do economista José Roberto Mendonça de Barros, publicada na revista São Paulo, do grupo editorial Folha de São Paulo (edição 206 de 3 de agosto de 2014, p.32), a metrópole paulistana é espelho da tendência mundial do capitalismo liberal. Isso se confirma no Relatório Anual do Desenvolvimento Mundial, publicado pelo Banco Mundial em 2014, no qual mais de 1 bilhão de pessoas são classificadas na pobreza extrema. Os miseráveis, que não atingem a altura da linha gráfica da pobreza extrema, já não contam mais nas estatísticas. 

Deus único − Não terás outros deuses além de mim, pediu Deus ao povo de Israel. E Jesus, tocando na ferida dos seus contemporâneos, recomendou: “Atenção! Guardai-vos de todo tipo de ganância, pois, mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância de bens” (Lc 12,15). A ganância é um valor contemporâneo, como diz um banco brasileiro em seu slogan publicitário: A ganância é o que nos move. Mas Jesus reitera: “Ninguém pode servir a dois senhores, pois vai odiar a um e amar o outro, ou se apegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13).
Amar a Deus sobre todas as coisas, para o cristão de hoje, é tomar decisões difíceis, porque contrárias à lógica da economia global. Muitos fecham os olhos para a perfídia da teoria “o dinheiro gera dinheiro” e acumulam em nome próprio os lucros de aplicações financeiras que não são produzidas pelo nada, mas pelo esforço de milhões de trabalhadores semiescravizados das regiões mais pobres do Planeta. Para os que sofrem dessa cegueira, Jesus reservou a parábola do ruralista que se deu bem em seu agronegócio, aumentou os silos, guardou a colheita e disse a si mesmo: “Meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, goza a vida”, sem imaginar que morreria naquela mesma noite. (cf. Lc 12,19).
O cristão não pode reduzir Deus a um sonho de consumo e querer tão-somente desfrutar do que Ele oferece. Precisa perguntar a si mesmo: “O que eu posso fazer para que os outros desfrutem daquilo que Deus oferece a todos?”. Amar a Deus sobre todas as coisas, amá-lo com todo o coração, com toda a alma e com todas as suas forças é praticar o que disse João Batista, quando o povo perguntou o que era preciso para a conversão: “Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” (Lc 3,11).  É a proposta simples e clara do Deus Criador do Céu e da Terra, absolutamente contrária aos mecanismos de morte da idolatria global. 

* Maria Inês Carniato, fsp, é Irmã Paulina e mestra em Teologia.

Os dez mandamentos
1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.





Fonte: Edição 946, outubro de 2014
Postado por: Família Cristã




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