Segundo mandamento

Data de publicação: 02/07/2015

Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão, este é o segundo mandamento

Por Maria Inês Carniato, fsp

“Roubaram os meus documentos, e eu fiz o boletim de ocorrência para evitar o uso indevido do meu nome”, diz, quem passa pelo infortúnio de um assalto. Quem faz dívidas maiores que o orçamento tem que correr atrás da chance de limpar o nome no mercado, porque nome “sujo” é perda de confiabilidade e de vários direitos de cidadania. O nome define a nossa pertença familiar e o nosso lugar na existência e na sociedade. As crianças, quando interrogadas, sentem orgulho de revelar o nome completo.

Identidade – A cultura da pluralidade e o valor da diferença é o novo cenário social no qual o indivíduo afirma e ostenta sua identidade. Quanto mais original e excêntrica ela for, maior será a garantia de tolerância e de respeito prevista por lei. No contexto bíblico dos Dez Mandamentos, era o nome que exprimia não só a identidade, como a origem, a missão e o destino da pessoa. Vemos os nomes de Abraão, “pai de uma multidão”; de Sara, “mãe de reis”; de Noemi, “doçura”, de Rute, “amiga”; de Moisés, “salvo das águas”. Revelar o próprio nome equivalia a correr o risco de se confiar completamente nas mãos de alguém.  Por isso o segundo mandamento da Lei de Moisés adverte os israelitas: “Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Ex 20,7a).
Os sacerdotes dos povos que cercavam Israel invocavam os nomes de seus ídolos por meio dos ritos mágicos. Os ídolos eram manipulados pelos reis, que agiam em nome deles, explorando o povo. Por esse motivo, os israelitas jamais pronunciaram o nome de Deus. Pronunciar o nome de Deus em vão equivaleria a reduzi-lo à baixeza dos ídolos, que não passavam de meros objetos de pedra, bronze ou madeira, e cometer injustiças em nome dele. Inúmeras passagens bíblicas esclarecem o segundo mandamento e dão a entender a grandeza que o povo da Bíblia atribuía ao Deus de Israel: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas a teu nome dá glória, por tua graça e por tua fidelidade. Por
que os povos deveriam dizer: ‘Onde está o Deus deles?’. Nosso Deus está nos céus, realiza tudo quanto quer” (Sl 115,1-3);  “Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso teu nome em toda a terra! Sobre os céus se eleva a tua majestade!” (Sl 8,2).

Nome sujo – Guerras legitimadas pela religião e pelo nome de Deus sempre existiram. O filósofo judeu austríaco Martin Buber (1878-1965), perseguido durante a 2ª Guerra Mundial, observou que nenhuma palavra no mundo foi tão manipulada e desvirtuada como Deus. Com efeito, os oficiais nazistas que comandaram com extrema violência o extermínio de ciganos, homossexuais, judeus e outras minorias indesejadas na Europa ostentavam nas fivelas dos cintos a inscrição alemã Gott mit uns (Deus está conosco).
Poderosos das épocas mais obscuras da História sempre sujaram o nome de Deus e se apropriaram de conceitos religiosos, em benefício de interesses espúrios. O inacreditável é que, em pleno século 21, eles estejam renascendo das sombras! Em setembro de 2001, o então presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, aplicou a expressão “Eixo do mal” aos povos habitantes do Oriente Médio, acusados de envolvimento no atentado às torres gêmeas de Nova York, e enviou para a região dezenas de aviões de guerra que iniciaram a Operação Justiça Infinita, matando centenas de crianças, anciãos e outros civis inocentes. Recentemente, o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, declarou sua pretensão de poder transcendente, condenando o grupo Estado Islâmico a ser perseguido “até os portões do inferno, porque o inferno é onde eles irão morar”. 
As ofensivas norte-americanas ao Oriente Médio, apoiadas por outros países poderosos, arrastam-se há décadas e mudam periodicamente de alvo, para encobrir o principal interesse que é a exploração do petróleo e do gás natural abundantes na região. Toda guerra é movida pela ambição de territórios ou de bens, e o pecado capital da ganância está sempre por debaixo das engrenagens, cumprindo sua função de motor principal do mal. Por ironia das estratégias manipuladoras, a nota de dólar americano traz a frase em inglês In God we trust (Em Deus nós confiamos), e alguns ativistas sociais vêm sustentando uma batalha sem resultados para banir a expressão, porém alegam a defesa do Estado laico e se omitem de condenar o uso do nome de Deus em vão.
O Estado brasileiro inseriu nas cédulas nacionais a frase Deus seja louvado, por ocasião do Plano Cruzado, durante o governo do presidente José Sarney, em 1986. Todos sabem que a riqueza econômica do País acumulada em cinco séculos e ainda bastante concentrada nas mãos de minorias foi construída com o sacrifício da vida e do sangue de multidões de trabalhadores. Desde os primeiros indígenas, que, chorando, cortaram os troncos centenários de pau-brasil e carregaram as naves portuguesas, até os africanos escravizados nas minas e nos canaviais, nos campos e nas cidades, as lágrimas dos trabalhadores forçados regaram e ainda regam a economia nacional. As práticas abusivas de poder, destruição, escravização e relações injustas que permeiam a história do Brasil, e continuam a se repetir nos dias de hoje, desautorizam completamente a moeda brasileira a ser espaço de proclamação do reconhecimento a Deus. Quem assim a interpreta está fazendo uso do nome de Deus em vão, e não só isso, como também, “sujando” o nome de Deus, ao atribuir a Ele a cumplicidade com os que acumularam e acumulam milhões de reais nas próprias mãos.

Nome santo – “Santificado seja o teu nome” é o primeiro augúrio que Jesus sugere, quando os discípulos lhe pedem que os ensine a falar com Deus (cf. Lc 11,2). Ele mesmo, como bom judeu que foi, sabia muito bem que, no meio de seu povo, as pessoas não pronunciavam o nome de Deus e, por respeito, se referiam a Ele dizendo simplesmente “o nome”, isso queria dizer “o inominável”, aquele cujo nome ninguém pode pronunciar. Lembremo-nos de que os ídolos eram invocados em ritos que justificavam a opressão dos mais fracos e os nomes deles eram sinônimos de ameaça e punição. 
Quando a Igreja ensina os cristãos a não tomar o santo nome de Deus em vão, refere-se à faceta da identidade divina que Jesus revelou. Jesus teve o cuidado de distinguir claramente Deus dos ídolos: “Quando orardes, não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. Não sejais como eles, pois o vosso Pai sabe do que precisais, antes de vós o pedirdes” (Mt 6,7-8). E Jesus vai muito mais longe, convidando os que o seguem a agirem como age o próprio Deus: “Ouvistes que foi dito ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo! ’. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,43-45a).
Enquanto Jesus recomenda aos seus discípulos que chamem Deus de Pai, ele também “lembra” o Pai de que Ele deve honrar o próprio nome, cuidando dos filhos: “Manifestei o teu nome aos homens que, do mundo, me deste. Eles eram teus e tu os deste a mim; e eles guardaram a tua palavra” (Jo 17,6); “Pai Santo, guarda-os em teu nome, o nome que me deste, para que eles sejam um, como nós somos um” (Jo 17,11b). 
Os primeiros cristãos, meditando o livro bíblico do profeta Joel, entenderam e deixaram escrito para nós que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (At 2,21). Invocá-lo, sim, mas não em benefício pessoal, usando-o para justificar a injustiça e a violência. Santificar o nome do Pai, fazendo a sua vontade, para que o seu Reino venha a nós e vivamos, já, aqui na terra, a paz e a fraternidade, como se vive no céu.     

*Maria Inês Carniato, fsp, é Irmã Paulina e mestra em Teologia.

Os dez mandamentos
1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.




Fonte: Edição 947, novembro de 2014
Postado por: Família Cristã




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