Perdoa-me por me traíres

Data de publicação: 06/07/2015


A infidelidade é dolorida porque o ser humano tem a ilusão de ser dono dos outros e, de repente, descobre ser incompleto e cheio de defeitos

Acontece em qualquer lugar... Na Inglaterra, 15 anos após uma cerimônia de casamento digna de conto de fadas, a princesa Diana Spencer, no auge de sua beleza e graça, viu, em 1992, a união com o príncipe Charles partir-se como um anel de vidro. O motivo: o caso do marido com a duquesa Camila Parker. Pela mesma época, em 1998, o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, quase perdeu o cargo por manter um affaire com a estagiária Mônica Lewinsky. Como a economia norte-americana, na época, prosperava, seu mandato foi mantido e, talvez, para demonstrar superioridade, a esposa Hillary, mulher forte e com luz própria – é uma possível candidata à presidência dos EUA pelo Partido Democrata –, perdoou Bill. De resto, não foi a primeira vez que a Casa Branca assistiu a cenas impróprias para menores. Nos anos 1960, o presidente John Kennedy manteve notórios casos com, entre outras, a atriz Marilyn Monroe e – sinal dos tempos – a primeira-dama Jacqueline aguentou quietinha.
Desde que o mundo existe não faltam histórias semelhantes. Mas ainda que a infidelidade seja tão antiga quanto a instituição do casamento, a revolução sexual e dos costumes, iniciada no fim dos anos 1960 e ainda em curso, conferiu maior igualdade de direito aos gêneros. Com a emancipação feminina, então, já não se permite às mulheres agirem como uma Jacqueline ou uma Amélia – aquela do clássico samba-canção de Ataulfo Alves e Mário Lago que “não tinha a menor vaidade” ou, em outras palavras, amor-próprio. Entre os casais mais jovens – ao menos do Ocidente – a tentação da infidelidade recai sobre ambos, assim como as consequências. O que se contribui para fazer da infidelidade um deslize mais comum não o torna menos complicado. “Se você planeja levar uma vida com uma pessoa e faz um pacto de exclusividade com ela, a infidelidade é sempre grave”, admite o médico e psicanalista Paulo Próspero, membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos (Ebep) e com 40 anos de experiência clínica, inclusive com casais.

Sofá – Grave e, sobretudo, doloroso. “Uma infidelidade é doída porque temos a ilusão de sermos donos dos outros e, de repente, descobrimos não termos ninguém. Nós nos ligamos em relações de posse quando deveríamos olhar o companheiro ou a companheira não como alguém que nos pertence, mas como parceiros de uma aventura no sentido amplo da palavra: do desbravamento, do conhecimento um do outro ou do crescimento na vida. Esse sentimento de posse apenas apequena a amplitude do que deve ser o amor e a solidariedade. Nenhuma posse completa ninguém nem nada. A completude humana é outra ilusão criada pelo homem para tapar seus buracos existenciais. Uma infidelidade nos mostra o quanto somos incompletos e cheios de defeitos. Se eu sou homem na medida em que domino aquela mulher e ela arruma outro, isso significa o quê? Que falta algo em mim! Então o meu valor não está em mim e sim no meu domínio sobre alguém. Ora, isso é muito arriscado, além de ser um equívoco”, explica Paulo.
Acrescente-se que perdoar não é fácil. “É muito complicado. Mas se meu marido, um dia, incorresse nesse erro e o reconhecesse, pedisse perdão com sinceridade, já estaria me dando uma prova de que um arrependimento existiu, de que ele deseja ter outra chance e, assim, não voltar a cometer esse erro. Obviamente, eu o deixaria dormindo no sofá um bom tempo até eu conseguir perdoá-lo”, afirma a secretária Thaiana Simas Bueno, de 30 anos, casada há seis anos com o técnico mecânico Alexsandro Porfírio dos Santos, de 36 anos – o casal tem o menino Gustavo Simas Porfírio, de 2 anos, e o plano de fazer outro. Já Alexsandro mostra menos flexibilidade. “Perdoar, sinceramente, seria difícil em um primeiro momento. Pode ser que com o tempo atenue essa mágoa. Para viver uma vida a dois depois de uma traição, ficaria difícil por não conseguir perdoar completamente. Uma vez que você quebra a confiança do outro, em um relacionamento, a confiança tem um grande peso”, admite.

Impaciência – O curioso é que, muitas vezes, as pessoas perdoam uma falha de caráter como um roubo ou um crime e não se permitem perdoar uma fraqueza, às vezes, muito mais humana do que moral. Por que será? “No caso de uma infidelidade conjugal consumada, quase sempre há uma troca de fluídos corpóreos, e isso incomoda demais as pessoas. Mas, talvez, não fosse para tanto. Se você ver, às vezes, entre um homem e uma mulher podemos ter relações sexuais de baixíssima qualidade, sem importância nem prazer, e, ao contrário, conversas profundas e definitivas com muito mais intensidade”, relativiza o psicanalista Paulo Próspero. “O ser humano é capaz de perdoar um roubo ou crime grave e não perdoar uma infidelidade conjugal porque, para a maioria, a infidelidade é uma traição humilhante. Perante os outros você é julgado, criticado e ainda sai ‘falado’ e com ego ferido. Todos ficam sabendo”, explicam Thaiana e Alexsandro.
Em virtude da infidelidade, ainda mais nas reincidências, há casais que não resistem e outros que se permitem uma segunda chance. Pelo alto número de divórcios no País – 341.600 casos em 2012 segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, presume-se que a maioria se encaixe na primeira situação. Boa ou má notícia para os casais? Péssima, se para cada divórcio não tivéssemos três casamentos: em 2012 foi registrado 1,041 milhão de uniões. Sinal de que ninguém precisa mais, necessariamente, conviver com algo que incomoda ou, pior, que homens e mulheres andam impacientes demais uns com os outros. “É fato que os casais tendem a se separar, hoje, por qualquer razão e não têm mais paciência de reorientar suas relações. Não digo que estejam certos ou errados, mas talvez devessem fazer uma reflexão maior ao invés de precipitar os acontecimentos. Vale a pena jogar fora um investimento emocional e sentimental empreendido durante anos ou tentar corrigir os erros?”, pergunta Paulo Próspero. Uma questão, certamente, para pensar no quarto, à noite, na cama. De preferência, só a dois.




Fonte: Edição 952,abril 2015
Postado por: Família Cristã




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