Uma vida para servir

Data de publicação: 20/07/2015

Por Karla Maria

Sérgio Canto Rabello, 83 anos, uma vida dedicada à sociedade, hoje em especial, às crianças e adolescentes em situação de exclusão e vulnerabilidade social

Ele acorda todos os dias por volta das 6 horas. Passa o café. Lê o jornal. Enquanto passa os olhos pelas notícias, faz um carinho na cachorra, a Lili. Toma o seu café ao lado da esposa, e se ajeita para mais um dia de trabalho voluntário na Associação Guarulhense de Amparo ao Menor (Agam). Esta é a rotina matutina de Sérgio Canto Rabello, de 83 anos.
É possível que pelo caminho, de casa até a Agam, passe pela rua que leva seu nome. Não se trata de uma homenagem em agradecimento aos seus 50 anos de serviço público à cidade de Guarulhos – no qual começou como metrologista e seguiu até secretário de Administração Pública –, já que, por lei, desde 1977 a prática é proibida. Trata-se sim de um fato histórico.
Sérgio é bisneto do capitão Joaquim Francisco de Paula Rabello, o primeiro “prefeito” de Guarulhos, que iniciou seu mandato em 1881. Combatente na Guerra do Paraguai, dono de muitas propriedades, o capitão doou diversas de suas terras, e estas eram nomeadas por seus herdeiros, originando vários bairros. Daí a criação das diversas ruas com o sobrenome Rabello, dentre elas a de Vila Galvão, onde Sérgio nasceu, em 31 de janeiro de 1931.
O filho de Brás Odorico Rabello e Iracema Canto Rabello contou aos poucos sua história, que se equilibra entre as esferas pública e privada. “Éramos cinco irmãos. Perdemos dois, hoje tenho duas irmãs vivas: Lourdes e Aparecida, a Cida”, disse, recordando-se de uma Guarulhos de outros tempos. “Eu me lembro da minha infância em função do que o papai nos ensinou cuidando do quintal da casa. Cuidávamos da criação de vacas, de porcos e de galinhas. O terreno onde nós morávamos tinha 9 mil metros quadrados. Tinha uma plantação boa e cuidávamos dela também.”
Até os dez anos, Sérgio e seus irmãos frequentavam o grupo escolar na Vila Galvão. “Acho que gostava de estudar sim, era um aluno médio. Em 1942, nós terminamos e seguimos para o ginásio paulista. Pegávamos trem para ir a São Paulo, era a Estrada de Ferro Cantareira. Aos 12 anos já trabalhávamos lá, era escriturário e ficamos trabalhando até os 15 anos, e nesse período mamãe arrumou para nós um emprego na Prefeitura de Guarulhos”, recorda.

A família e o trabalho − “Nesta arrumação de emprego, a prefeitura pediu que fizéssemos um curso no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que ficava no centro, e íamos lá todos os dias. Pela parte da manhã nós estudávamos até às 11, 12 horas. Foi assim durante um ano, no final do curso fizemos um exame e aí começamos a trabalhar na prefeitura.” Assim começava a carreira no serviço público, primeiro como metrologista.
Tinha 17 anos. Não dançava, nem namorava muito. Tinha apenas “amizades”. Como se divertia? Nem ele sabe. “Honestamente não sei dizer como, mas desde tenra idade, em função do trabalho que papai fazia, ele tocava saxofone nos bailes de música em Vila Galvão, eu aprendi a tocar bateria e tocava como amador”, conta, sorrindo.
Mas não era só na bateria que Sérgio chamava atenção. Aos 21 anos se casou pela primeira vez, com Ruth Gonçalves, com quem teve duas filhas: Maria do Carmo e Maria José. Do parto da filha mais velha se recorda com certa emoção. “Lembro-me de que foi parto normal, graças a Deus. Nos casamos na igreja, foi tudo certinho”, conta sucinto.
Sérgio sempre que pôde estudou. “Comecei a fazer faculdade em 1950. Daí como eu casei, apareceram as filhas, e elas eram a prioridade. Quando a Maria do Carmo entrou na faculdade de Psicologia eu fui junto, fui fazer Ciências Contábeis e Administração, em escolas diferentes, claro”, revela o guarulhense sobre os 16 anos de interrupção nos estudos.
Ruth e Sérgio foram casados por 40 anos, até que a mulher faleceu em 1993. “Foi no dia 3 de março de 1993, fiquei sozinho”, lembra Sérgio. Na vida profissional, já estava aposentado, o fizera em 1982, depois de 30 anos de serviço público, mas ainda assim não se afastara. Foi nomeado pelo então prefeito Paschoal Thomeu a assessor de gabinete. “Não havia dúvida, o trabalho era feito independentemente de partido. O presidente do sindicato à época era o Sebastião Almeida (PT)”, Sérgio, referindo-se ao atual prefeito da cidade, que hoje responde a demandas que antes fizera.
“A história do Sérgio é contada em verso e prosa nesta cidade. Tem uma reputação inquestionável”, afirma Lenisa Freire Rabello, hoje esposa de Sérgio e, até 1994, apenas funcionária dele no Instituto de Previdência dos Funcionários Públicos Municipais de Guarulhos, o qual Sérgio passou a presidir em janeiro daquele ano, nomeado pelo então prefeito Vicentino Papotto.
“Lá as coisas estavam correndo irregularmente, e o prefeito pediu que eu colocasse tudo em ordem. Ele dizia para eu fazer o que precisasse ser feito”, diz, referindo-se inclusive à transferência de funcionários que estariam trabalhando de modo irregular.
Lenisa ajudava Sérgio a entender a seriedade da situação no instituto e, assim, os laços se estreitaram e a relação dos dois ganhou outra cor. Um dia eles foram passear. Era um sábado, num almoço. Naquela tarde, uma funcionária da prefeitura flagrou o encontro e, no dia seguinte, já estavam juntos. “A moça viu a gente e espalhou para a prefeitura inteira”, conta Lenisa, sorrindo. Casaram-se em 18 de dezembro de 1994.
Depois de conseguir regularizar a situação na Previdência e ter as contas aprovadas pelo Tribunal de Contas do Município, Sérgio foi nomeado, em 1996, secretário municipal de Administração Pública. “Foi uma época muito agitada, de denúncias contra o prefeito (Néfi Tales), e tudo foi sendo apurado, o que resultou na saída do prefeito e nós também saímos, automaticamente. Desde esta época passei a trabalhar aqui”, afirma, apontando para sua mesa de escritório na Agam, a qual oferece reforço escolar às crianças e educação profissional aos adolescentes carentes.




Fonte: FC ediçao 948-DEZ 2014
Postado por: Família Cristã




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