Quando dois são quatro

Data de publicação: 05/08/2015

A onipresença dos filhos pode sabotar uma relação? Uma família e uma especialista compartilham suas visões

Por Karla Maria

“Oh, tia, você gosta de fazer perguntas, né”, soltou, animado, a observação o corintiano Bruno, com seus 8 anos de idade. Estava ao lado do irmão, Henrique, de 6 anos, e dos pais, Adriana Gresele Lopes, 38, e Fernando Magosso, 36. Juntos, o time topou conversar com a reportagem sobre um tema que bem entendem: o estar juntos, sempre.
Entre um sorriso e outro, o casal contou que não é uma família perfeita, mas que busca equilíbrio entre os compromissos do dia a dia, a tarefa de educar as crianças e a manutenção da relação amorosa, com carinho e a tal chama do amor sempre acesa.
O casal namorou por quatro anos e está casado há dez. Bruno, o filho mais velho, chegou em 2007, e com ele algumas mudanças surgiram. “Minha esposa virou mãe, mas não no sentido pejorativo. A atenção dela, claro, agora é mais dividida. Não é reclamação, ou algo negativo, é algo natural”, diz Fernando.
Muito natural. Segundo a psicóloga e psicopedagoga Maristela V. Botari, especialista em dificuldades de relacionamento. Quando os filhos chegam, existe uma tendência do casal se distanciar, seja por conta do aumento da demanda familiar, seja por questões afetivas mal resolvidas de um ou dos dois cônjuges.
“Para alguns casais, a chegada dos filhos pode significar o resgate da relação, o que seria um erro, pois é necessário que os pais tenham em mente que os filhos são importantes, mas não são sustentáculo da relação, nem ‘desculpa’ para o afastamento”, aponta a psicóloga, que dá outro conselho.
“É fundamental que o casal continue mantendo sua chama acesa, reservando momentos de privacidade para si e de interação com os filhos, na mesma proporção, afinal uma relação familiar só se sustenta com base em muito amor, carinho e atenção. Como sustentar uma relação se uma das partes não recebe atenção suficiente? Fica difícil...”
Fernando é designer gráfico; e Adriana, técnica de laboratório. Ambos têm uma rotina puxada de compromissos. Ela trabalha no laboratório das 6 às 16 horas, enquanto ele leva as crianças de manhã para a escola e à tarde faz home office para conciliar com a chegada das crianças da escola.
“Eu trabalho o dia todo, saio de casa às 5h30 e deixo tudo arrumado, como mochila, uniforme. Ele levanta por volta das 6h30, arruma as crianças, dá café e leva para a escola. E eu continuo trabalhando até as 16 horas. Na hora do almoço, ele pega as crianças na escola e fica com elas à tarde em casa”, conta Adriana.
“Estou nessa dinâmica há um mês. Agora está mais legal do que no começo, está tudo ajeitado. Para os trabalhos que eu preciso de mais organização, eu faço de manhã no escritório, aí quando vou para casa, no home office, é para tocar algo que não terminei, algo que eu possa fazer e que me divida com eles”, explica Fernando.

E o namoro? − Como os dois conseguem namorar, nutrir a relação de marido e mulher, para além dos deveres de pai e mãe? Como alcançar o equilíbrio sugerido pela psicóloga? Com diálogo e bom exemplo, revelam. Adriana informa sobre o momento das crianças irem para a cama.
Os meninos têm quarto próprio, mas às vezes insistem em dormir na cama dos pais. “De vez em quando eles querem dormir na nossa cama, mas desde novos nós os levávamos para a cama. Antes de seu filho nascer você tem que estar condicionado a fazer isso, porque você começa a conversar com as outras mães que têm filhos de cinco e seis anos e elas não conseguem mais tirá-los do quarto. Nós sempre fizemos isso”, revela Adriana, que destaca as refeições como outro momento de desafio.
“Na hora de comer, por exemplo, se quisermos comer e conversar, precisamos dar a eles primeiro, só que esse sentar à mesa em família também é importante, então é preciso encontrar o equilíbrio.”
Saber dizer não e colocar limites na criançada em formação é necessário. Para a psicóloga, as famílias partem do pressuposto de que “criança não entende as coisas”, o que é errado. “As crianças entendem sim. Portanto, são capazes de entender o não. Observe que entender não é concordar. Elas podem entender, mas não concordar e partir para a birra. Ainda assim o não deve ser mantido”, aponta a psicóloga, que orienta a dizer o não de forma serena e sem gritos, com uma justificativa que a criança possa compreender.
“Ressaltando que o amor nem sempre é doce. A firmeza também é um gesto de amor, afinal quem ama quer o bem do outro, e para que isso ocorra muitos nãos devem ser ditos.” Para Fernando, mais importante do que dizer não é dar o exemplo para os filhos. “Você não pode dizer não se você está fazendo o sim. Na verdade, eu falo que o não é secundário. Se eu digo não, existe a explicação: não pode por esses motivos, quer fazer, você vai quebrar a cara e depois não vem chorar”, explica.
Em datas comemorativas, quando o casal quer ficar mais tempo junto e esticar a noite para uma programação especial, conta com a ajuda dos tios. “Nossa primeira opção é a tia Bel e o tio Rô, mas é muito difícil, a gente sempre se organiza para sair os quatro juntos”, aponta Adriana.
“Depois que eles nasceram, todos os cinemas, as programações que nós fizemos, foram com eles. Nós quatro saímos bastante para parques, e domingo almoçamos no shopping”, conta Fernando. A última vez que foram ao cinema assistiram ao filme Vingadores: Era de Ultron, a pedido das crianças, e tudo correu bem. Eles curtem cada momento junto dos filhos.
A psicóloga orienta aos pais que reservem momentos de privacidade para si e de interação com os filhos, na mesma proporção. “Uma relação familiar só se sustenta com base em muito amor, carinho e atenção. Como sustentar uma relação se uma das partes não recebe atenção suficiente? Fica difícil...”

Filhos sabotadores? –
Para a psicóloga Maristela, não são os filhos que sabotam, mas alguns pais que abrem espaço para que isso ocorra. Por exemplo, quando a criança insiste em dormir na cama dos pais, alegando medo de ficar sozinha, doença etc., permitir que esse comportamento se torne uma regra é prejudicial para o casal, que poderá usar isto como desculpa para o afastamento, e para a criança, que tardará a desenvolver sua personalidade, autonomia e segurança.
Bruno e Henrique não tem jeito de sabotadores, talvez porque Adriana e Fernando saibam que, além de dividirem o tempo, devem preenchê-lo com dedicação e amor.







Fonte: FC ediçao 955-JUL 2015
Postado por: Família Cristã




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