Namoro cristão

Data de publicação: 14/08/2015

Por Karla Maria


Reduzir o namoro ao sexo antes do casamento é empobrecedor e assume um tom moralizante que não amplia o desejo de Deus para as relações afetivas

“Amor é cristão, sexo é pagão...”, canta Rita Lee. Guardada tal licença poética, sabe-se que sexo pode ser a manifestação do amor entre duas pessoas que decidem viver o amor na fidelidade. No entanto, segundo o psicólogo Ênio Brito Pinto, no livro Sexualidade: um bate-papo com psicólogo (Paulinas Editora), há um costume na atual cultura em enfatizar o sexo que pode afastar as pessoas da realidade de sua sexualidade. “Sexualidade é maior do que o ato sexual, embora o inclua de maneira importante. Geralmente, olha-se a sexualidade pensando na performance deixando de lado a questão do amor. Olha-se para a sexualidade como se ela fosse somente uma energia que tem de romper de qualquer maneira”, nota o psicólogo, para quem essa não é a melhor maneira de viver a sexualidade. “Podemos ser criativos ao exercermos nossa sexualidade”, diz. É assim, ou ao menos deveria ser, o diálogo amadurecido sobre a sexualidade na vida de um casal.
Denilson Rufino, 39 anos, e Elisangela Alves dos Santos, 35 anos, estão casados há 15 anos e com dois filhos, Letícia, 12 anos, e Miguel, 10. Os dois decidiram juntos o caminho que iriam percorrer como namorados. Eles se conheceram em 1996 no grupo de jovens de uma paróquia em Santo André (SP). O primeiro beijo demorou três meses para acontecer e depois de três anos de namoro ficaram noivos, com festa, troca de alianças e tudo o mais, como pede a tradição. O sexo na relação era visto como tentação. “Éramos rígidos e somos até hoje! A ponto de tomarmos atitudes drásticas para vencer as tentações”, lembra Denílson, tecnólogo de informação e baterista da banda de rock cristão Via 33. “Sempre tratamos isso com rigor, mas nem sempre vencemos. Porém, todo sacrifício valeu a pena para experimentarmos o amor verdadeiro”, afirma Denílson.
Elisângela é enfermeira e destaca que o marido sempre a respeitou. “Não economizávamos para fazer um ao outro feliz, mas muitas vezes tínhamos que nos conter. Um dia estava chovendo muito e meu pai o autorizou a dormir em casa. Começamos a namorar e a coisa esquentou. Para fugir do ‘pecado’, ele saiu correndo no meio da chuva!”, conta, com um ar divertido. Mas nem todos os jovens lidam de maneira tranquila e esclarecida com a sexualidade e a fé. Em fóruns pela internet, inúmeros jovens desabafam por se sentirem culpados por desejarem ter relações sexuais com seus namorados e namoradas.

Sexo & pecado − Para o doutor em Filosofia e Teologia Moral da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas (SP), padre José Trasferetti, existe falta de saber em relação à questão da sexualidade. “É preciso ter informação, diálogo, respeito e liberdade nas escolhas morais. A decisão sobre a vida sexual deve ser feita com maturidade, sem tabus, medos e preconceitos”, aponta. Ele lembra que o início da vida sexual deve ser uma opção amadurecida do casal e orientada por pais, médicos e especialistas. “O pecado não está na prática sexual, mas na violência ou mesmo nas formas agressivas de controle e posse do outro. O pecado é uma atitude que fere o criador ao ferir o ser humano que está ao lado. Toda forma violenta de manifestação sexual é uma relação de pecado, porque transgride as leis do Criador”, destaca.
Para a doutora em Teologia Maria Inês de Castro Millen, coordenadora de Pesquisa do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), reduzir o namoro ao sexo antes do casamento é empobrecedor e assume um tom moralizante que não “amplia o desejo de Deus para as relações afetivas”. E qual seria o “desejo” de Deus? Segundo Gigi Avanti, mestre em Teologia, a pessoa não é redutível ao corpo e a uma parte deste. “É uma realidade rica e complexa que pode se desdobrar em mente-coração-alma que acena para uma sexualidade global, estendida a todo o corpo com as diferentes anatomias, masculina e feminina, com seus sistemas hormonais e fisiologias reprodutivas especificas. Também permeia a psique com as variantes do modo de pensar e da racionalidade masculina ou feminina que impregna a emotividade e o coração que se apresenta como base os sentimentos de alegria, cólera, tristeza e do medo, tão diferentemente iguais entre o casal.”

Castidade cristã – Os primeiros cristãos, lembra a mestre em Teologia Maria Inês Carniato, fsp, viveram em meio à cultura grega e aos costumes romanos, quando o abuso e a violência sexual dos cidadãos livres sobre os escravos, fossem homens ou mulheres de qualquer idade, eram socialmente aceitos. Deixar esses costumes e as práticas sexuais degradantes e abusivas era exigência rigorosa da Igreja aos pagãos que se convertiam.  “Com o tempo, a visão moralista – influenciada pela cultura greco-romana – foi reduzindo as exigências de justiça e respeito à dignidade do outro e o sexo ganhou destaque e peso moral, perdendo-se a dimensão anterior de totalidade, que era a renúncia a tudo aquilo que degradasse a dignidade humana, onde, de fato, reside o pecado”, explica a teóloga.
“Falando em namoro, oficialmente a Igreja Católica orienta para o namoro casto, enquanto forma superior de conhecimento do outro. O namoro casto, como um namoro sem prática sexual”, destaca o padre José Trasferetti, para quem a castidade implica em relações transparentes, sérias e amadurecidas que fazem o bem para ambos, independente da questão biológica. “Castidade é um estado de espírito mais do que uma questão biológica”, conclui.

Intimidade, paixão e compromisso
Para explicar as manifestações do amor, o psicólogo e pesquisador americano Robert Sternberg, autor do livro The triangle of love: intimacy, passion, commitment (O triângulo do amor: Intimidade, paixão, compromisso), Basic Books, 1988, utilizou a figura de um triângulo para ilustrar sua teoria, dando a cada vértice da figura um nome. Acompanhe a seguir.


Intimidade

O primeiro componente do amor. Um dos principais ingredientes para um relacionamento se sustentar ao longo dos anos, pois envolve sentimentos, proximidade, contato direto entre as partes envolvidas e uma maneira de cada um descobrir seu parceiro. E não somente no ato sexual, mas no que se diz respeito aos sentimentos pessoais, à história de vida individual e conjunta que irá desenvolver ao longo do relacionamento. A intimidade ajuda a desenvolver a honestidade, o respeito, aceitação, generosidade, compreensão e uma série de sentimentos que se complementam quando ambos começam a se conhecer profundamente.

Paixão
Está relacionada ao desejo sexual, à atração física a qual muitas vezes ambas as partes não conseguem compreender, mas a vivem intensamente. Cria-se uma história de amor, desenvolvem-se os elementos contidos em um romance e gera-se uma grande satisfação. Por ser rápida, a paixão geralmente começa com grande intensidade arrebatando os corações que experimentam um pico de emoções e sentimentos. Da mesma forma que a paixão chega rapidamente, perde força. Isso explica histórias rápidas, relacionamentos que duram apenas alguns dias, mas que parecem ser vividos com a intensidade de anos. Outra característica da paixão é o forte apelo sexual, a necessidade da satisfação sexual que muitas vezes gera sentimentos e desejos de dominação.

Compromisso

Ou decisão. Para compreendê-lo é necessário tomar a decisão de amar uma pessoa e comprometer-se em manter o relacionamento. O objetivo é viver intensamente um momento com uma pessoa que muitas vezes não importa em querer saber quem é. Compromisso e decisão acontecem não essencialmente em uma ordem. Pode haver a decisão de amar alguém, de assumir um compromisso de longo prazo. Pode ocorrer que uma pessoa esteja procurando um compromisso, mas só poderá tomar a decisão depois que experimentar a intimidade ou viver uma paixão.






Fonte: Edição 955,julho de 2015
Postado por: Família Cristã




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