Ler a vida

Data de publicação: 28/08/2015

Cirlene e José, dois baianos que criaram em Guarulhos (SP) um jeito de viver bem com os filhos, mesmo na pobreza


Por Karla Maria
Fotos Silvio Cesar

A casa é simples, alugada por 350 reais. Não tem água quente, o banho é de caneca e a descarga é dada com balde. Fica no bairro dos Pimentas, em Guarulhos (SP), a segunda maior cidade do estado paulista. Nas paredes, pequenos quadros com o rosto das crianças da família Viana de Jesus: Cirléia, (17 anos), José Neto (16), Everton (13), Vitor (12), Chaily (9), Sérgio (7) e Caio (6).
A família é grande, como as dificuldades que os cercam, como o amor que os unem. As crianças, todas, estão na escola pública, Chaily em especial tem aula de Libras (a Língua Brasileira de Sinais), por conta da mudez de nascença. Aprendem a juntar as sílabas e arriscam, às vezes, a ler para os pais, que, analfabetos, compartilham conosco corajosamente a dificuldade de educar os filhos sem as letras.
“Eu queria aprender a ler a Bíblia, a Cirléia lia todo dia para mim, mas agora com esse tal de Facebook, nem lê mais.” Esta é Cirlene Neves Viana, 36 anos, a mãe da casa de sete filhos, que hoje procura uma roupa pra passar ou uma casa pra limpar, a fim de compor a renda familiar.
Os sete vivem com o benefício do governo federal, o Bolsa Família, de 295 reais mensais, mais 200 reais de “salário” que a filha mais velha recebe por olhar uma criança da vizinha e dos “bicos” que o marido, José Clemente de Jesus Filho, 40 anos, consegue fazer. 
Os dois são primos e de primeiro grau. Na adolescência moravam em Eunápolis, na Bahia. O namoro começou quando Cirlene tinha 19 anos, depois de muito caminhar de casa em casa de irmãos e patroas. A baiana é órfã de mãe desde os dez anos. Tinha 12 irmãos, mas hoje são oito os que ainda estão vivos.

Uma historia com o primo –“Neste período todo, desde que perdi minha mãe aos dez anos, nunca me prostituí, nunca usei drogas. Sempre trabalhei, só que quando eu não gostava do lugar, eu saía”, conta a jovem, que, sem muitas raízes, saiu várias vezes, até voltar a Eunápolis, encontrar o primo e começar uma nova história que já completa 18 anos de união.
José também não conviveu com a sua família, que era grande, com cinco irmãos. “Quando meu pai morreu, eu tinha oito anos e deixei minha casa. Fui morar nas fazendas e nos sítios”, conta. Além da falta da família, em toda infância e adolescência, marcada pelo trabalho, os dois dividem também a falta de estudos.
“Quando a minha mãe morreu, eu estava na escola, mas depois larguei, porque lá onde eu morava com a minha irmã era longe demais. Para ir à escola, eu tinha que passar com água aqui (apontando para a altura das coxas), tinha que passar pelo meio das vacas”, conta Cirlene.
Com José não foi muito diferente. “Para ir à escola, eu tinha que andar 18 quilômetros a pé, quer dizer, na carroça com jegue. Saía bem cedinho, às 5 horas da manhã. A gente chegava à escola bem tarde, porque o jegue também empacava. Teve um dia que fui à escola, e o professor me maltratou, foi bem ignorante, me deu palmada porque deixei os livros caírem no chão. Saí correndo e não voltei mais”, disse meio cabisbaixo, com ar de arrependimento tardio. “Por isso não sei ler”, desabafa.
Cirlene deixou a escola aos 11 anos. Ela reconhece as letras, mas não consegue juntá-las, fazê-las ter sentido. “Eu aprendi a fazer o meu nome, e alguma coisa eu consigo soletrar, preciso ficar bem concentrada, mas é bem difícil”, revela triste e com olhar voltado para Sérgio, que folheia uma revistinha no sofá.
Ela conta que tentou estudar na escola para adultos, em frente à casa que mora, mas não conseguiu. Em sua turma tinha gente de toda idade, até senhoras com mais de 50 anos, mas que desistiu, porque os filhos iam atrás dela dentro da sala de aula. “Era bem aqui em frente, só que os meninos ficavam chamando, batendo na porta da escola.”
Os filhos não gostam muito de estudar, mas demonstram gosto pela leitura e jeito para a criação. Vitor, o quarto, tem 12 anos e às vezes, meio contrariado, lê alguma coisa para a mãe, mas o que gosta mesmo é de inventar.
No quarto dos meninos, apinhado de colchões e dois beliches, há uma engenhoca parecida com um abajur com sensor, criada com “gatos” e a bateria de um celular. Inteligente, o menino quer ser eletricista.

Infância pobre – A mãe lembra que para isso ele precisa estudar, mas a resposta é rápida e dolorida: para que, se você não estudou? A mãe se sente humilhada. “Ele me diz sempre que não sei ler”, desabafa. De vez em quando Cirlene é chamada na escola. José Neto, o Juninho, de 16 anos, não mostra o caderno com a lição para a professora. “Ele não mostra, e a professora fala para mim que ele não fez. Como eu vou saber, se não consigo ler?”, lamenta a mãe.
Juninho se defende. “Eu mostro meu caderno para ‘mainha’. Eu faço a lição e fico com a cabeça abaixada na mesa”, conta o menino, que sonha em ser jogador de futebol e raspa o cabelo dos irmãos com uma máquina de barbear − já meio velha − para economizar 15 reais por cabeça.
A diversão de Juninho, como a dos demais irmãos, é a internet. Estimuladas pela mãe, as crianças ficam em casa para fugir das drogas e das más companhias, vidradas em seus celulares com acesso às redes sociais. “A gente deu um jeito e colocou internet em casa, porque era um perigo eles ficarem na rua à noite. Pronto, eles saíram da rua, assim ficam longe das drogas. Todos os amigos do Juninho já usaram drogas, mas ele não”, diz a mãe.
“Eles oferecem droga, mas antes de oferecer eu já falei para não usar perto de mim, e eu saio de perto. Não tem necessidade de usar, usam porque querem mesmo. A gente ficava aí na rua conversando e não usava nada, depois começaram a usar. É burrice mesmo. Eles que querem usar por diversão”, completa o menino.
Durante a infância pobre da Bahia encontravam jeito pra tudo: tinha a roça, tinha a solidariedade. “Sempre tinha abóbora, aipim, milho. Os donos da fazenda sempre nos davam o de comer. Lá é lugar de fartura”, conta José Clemente. 
Na Bahia tinha trabalho. Na terra de irmã Dulce, desde pequeno, o pai dos sete era vaqueiro, depois foi mexer com trator e retroescavadeira. Lá, entre as fazendas não precisava de habilitação. Hoje, em Guarulhos, não tem profissão, vive de bicos de pedreiro, de ajudante. “Eu não tenho profissão nenhuma, não tenho carta de motorista, não tenho como provar que sei dirigir”, explica.
A decisão de vir para São Paulo foi tomada em 2008. Ele veio antes, em um mês arrumou emprego em uma firma de ferragens na Cachoerinha, zona norte de São Paulo. Era armador, tirava 1.200 reais por mês. Juntou dinheiro e mandou para a família toda também vir.
Naquele mesmo ano, Cirlene pegou o ônibus clandestino, que era mais barato, rumo a São Paulo. Com ela estavam os seis filhos nos braços e um no ventre, Caio, o único paulista e paulistano, o que garante a fala com sotaque diferente. Os pequenos não pagaram passagem, dividiram-se nos colos da mãe, do Juninho e de Cirléia. Foram 24 horas de viagem, até chegarem ao Brás.

O Dia a dia – Antes, em Eunápolis, Cirlene juntava a roupa para ir lavar no rio, a água era gelada e limpa. A água encanada era só na “Casa-Grande”, à senzala estava reservado o rio.  “Eu botava aqueles baldes grandes de 50 litros, colocava um de cada lado na canga do jegue, ou então da mula, e em casa a gente enchia as vasilhas para tomar banho e fazer a comida”, conta José Clemente.  A roupa e o banho eram no rio mesmo, gelado.
Atualmente, em Guarulhos, Cirlene e José continuam a buscar água. Nos dias em que não há rodízio, juntam o que for possível nos baldes para poder lavar a louça, a roupa, e tomar banho. A água continua fria, não tem chuveiro, e, em dias frios, conta com a ajuda de uma serpentina que compraram por 20 reais, e ainda bem que encontraram ali mesmo, porque no centro sai por 28 reais, garante a dona de casa, que vive com os gastos na ponta do lápis.
Além da água contada, as panelas de Cirlene também têm uma dieta puxada. Para os sete homens e as duas mulheres, são necessários 1 quilo de arroz por refeição. Já 1 quilo de feijão dura três dias.  “Esses bicos que a gente faz são poucos. A gente recebe 50 reais por dia, aí fica difícil”, conta José. “Já faltou alimento de manhã, aí quando é de tarde, ele vai lá, faz alguma coisa e a gente compra comida”, diz Cirlene, que lembra também da solidariedade de vizinhos e da Comunidade Santo Afonso.
“A Igreja Católica ajuda a gente, eu ajudo na igreja na limpeza, na Pastoral da Criança, e aí eles me ajudam. Eu que não gosto, mas qualquer hora, se eu precisar, eles me dão, mas eu nem peço, eles sempre nos ajudam”, conta a mãe.
As crianças estão acostumadas à vida, assim como ela é. São educados e buscam seus sonhos. “Quero ser médica pediátrica, eu sei que eu tenho que estudar muito para isso e vou”, conta a jovem Cirléia, uma das melhores alunas da sala, que causa ciúme em todos os irmãos. Pudera, tem um sorriso lindo e um abraço acolhedor.
“Eu tenho orgulho dela, porque ela não dá trabalho na escola. As professoras todas falam muito bem dela”, diz orgulhosa a mãe.
E vivem assim, de modo simples, de sonho em sonho, em uma lógica criada pela família em que o importante não é ter, é viver e junto, com suas próprias regras. O sonho de Cirlene, essa mãe de sete filhos com apenas 36 anos, é ler. “Eu queria era aprender a ler, porque meus filhos pedem que eu leia uma revista para eles e eu não sei. E tenho uma vontade de chegar e participar da Igreja, fazer uma leitura, ler um salmo, esse é o meu sonho.” Que estas letras sejam um dia lidas por Cirlene e José, dois baianos, que criaram em Guarulhos, um jeito de viver bem, mesmo na pobreza.




Fonte: Família Cristã julho de 2015
Postado por: Família Cristã




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