Vias negativas

Data de publicação: 18/09/2015

    Diante do belo e do artístico, em ambas as vias, negar é afirmar o potencial inesgotável e profundo do que se busca, se compõe ou se contempla  


Crédito: Clovis Salgado Gontijo *   
Arte: Sergio Ricciuto Conte *          

Ao identificarmos possíveis entrelaçamentos entre a espiritualidade e a experiência estética, constatamos a presença recorrente de termos de construção negativa nos discursos referentes a esses dois âmbitos. O Sagrado é o Sumo Inefável (in-effabilis), o inexprimível fecundo por excelência, cujas manifestações na vida humana deixarão sempre, para quem deseja verbalizá-las, um resto, um “não sei quê”. Além disso, o Sagrado é também insondável, incompreensível, inacessível, incomparável, ilimitado, invisível, incorruptível e não engendrado.
No eixo da estética, reconhecemos como sublime, categoria aparentada com o numinoso, tudo o que sugere o infinito, o incomensurável, o incalculável e o indomável. Por outro lado, a graça, cuja sutileza contrasta com a grandiosidade do sublime, é descrita como componente imponderável, impalpável, inapreensível, não localizável e indivisível, sem o qual a beleza se torna “preguiçosa” (Plotino). Até mesmo a natureza do belo, apesar de se ligar a fatores mensuráveis e decodificáveis (forma, proporções, simetria), é descoberta por Sócrates como um não saber ou, ao menos, como um saber inconclusivo (Platão, Hípias Maior). Por fim, conceitos privativos também percorrem a estética caracterizando o belo ou a arte como realidades inúteis, destituídas de finalidade externa e regidas por atitude preferencialmente desinteressada.
Se as negações participam a posteriori de textos que pretendem descrever e especificar os dois âmbitos em questão, é importante ressaltar que elas também poderiam participar, como elementos fundamentais, da via mística e, de algum modo, da via estética.

A negação na via mística − A privação da luz, ou seja, do que pode ser por nós conhecido, é valorizada no contexto místico por remeter não só ao Absoluto Incognoscível, mas também ao “meio ou caminho por onde há de ir a alma a esta união” (São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, livro I, cap. 2). De acordo com pseudo-Dionísio Areopagita, se desejamos empreender, a exemplo de Moisés, um percurso ascendente rumo à contemplação das “Trevas mais que luminosas”, faz-se necessário que “renunciemos a toda visão e conhecimento para ver e conhecer o invisível e incognoscível: Aquele que está mais além de toda visão e conhecimento” (Teologia mística, cap. 2). A renúncia a “tudo o que a mente possa conceber”, necessária para a união mística, inclui, até mesmo, a negação (apófase) dos familiares predicados e conceitos que costumamos atribuir à “Causa suprema”. Como ensina a Teologia mística, Deus não é propriamente “luz, nem vive, nem é vida”, “não é filiação, nem paternidade”, “não é divindade, nem bondade, nem espírito no sentido que entendemos” (cap. 5).
A centralidade das negações na via mística também se verifica em A Nuvem do Não Saber, tratado espiritual inglês do século 14. Neste texto de autor anônimo, o “contemplativo aprendiz”, além de se exercitar em práticas afirmativas como “a instrução, a meditação e a oração” (cap. 35) que o dirigem ao “único necessário” (Lc 10,42), deve encobrir, numa “nuvem de esquecimento”, tudo o que pode sentir, imaginar e pensar. Quando “escondemos” nossos juízos, impressões e sensações, restritos ao conhecimento das criaturas de Deus ou das obras de tais criaturas, nos aproximamos a um nível mais elevado de obscuridade, que, por sua vez, já pressupõe a negação. Trata-se da “nuvem do não saber”, imagem do profundo mistério divino, ao qual nem mesmo nossa “compreensão espiritual” presente pode ter acesso (cap. 70). Este, segundo o anônimo, só se daria com o apagar do intelecto, que coincide com o despertar de uma faculdade de teor afetivo, capaz de ocasionalmente “atravessar”, pelo exercício e ação da graça, a nuvem escura. Ponto de distinção entre o tratado medieval e a Teologia mística, este processo se justifica na medida em que Deus “pode, certamente, ser amado, mas não pensado” (cap. 6).

A negação na via estética − Menos óbvia e explorada que a negação na via mística, poderíamos sugerir alguns indícios da negação na via estética. No último artigo desta coluna, edição nº 955 da Revista Família Cristã, destaquei o desinteresse como atitude característica daquele que se dirige a um objeto com o intuito exclusivo de fruir sua beleza. No entanto, talvez nem só da satisfação de interesses pessoais devamos nos privar ao nos relacionar com o belo, sobretudo quando este se expressa na arte. O filósofo Vladimir Jankélévitch ressalta, por exemplo, a necessidade de recusarmos um prazer fácil, pelo qual certas obras, ao perpetuar fórmulas prontas, nos capturam.
Além destes, arrisco-me a pensar um terceiro ponto desejável de negação na esfera artística. Observo, nas minhas aulas de Estética, a ansiedade inicial dos alunos em definir a arte e o belo. Contudo, pouco a pouco vamos constatando a fluidez das manifestações artísticas ao longo da história, fator que desafia a construção de definições precisas e universalmente aplicáveis a esses termos. Se, como na estética medieval, exigimos do belo o brilho das cores (claritas), torna-se impossível reconhecer a beleza irradiada pelas penumbras de Rembrandt ou de La Tour. Se, como na Antiguidade e ainda na Idade Média, o belo deve revelar a integridade e a completude, como valorizar o inacabado que se apresenta na pedra pouco polida da comovente Pietà Rondanini, de Michelangelo? Se o belo é, como quis Kant, o que compraz sem a participação de conceitos, como admirar a arte conceitual da nossa época? Além disso, noções preestabelecidas de como deveriam ser determinadas formas e expressões artísticas poderiam minar não só a apreciação de obras que não seguem tais prerrogativas como impedir a criação de obras-primas que, em muitos casos, implicam rupturas. Como Beethoven comporia uma das suas mais famosas sonatas, a Sonata ao Luar, se não tivesse ousado desconstruir o próprio conceito de sonata?
Como o místico que, ao buscar a Deus se esvazia da sua compreensão insuficiente de Deus, o receptor e o criador da obra de arte também devem se esvaziar de concepções prévias sobre o belo e o artístico. Isto porque, em ambas as vias, negar é afirmar o potencial inesgotável e profundo do que se busca, se compõe ou se contempla.

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br

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Vias negativas
Diante do belo e do artístico negar é afirmar o potencial inesgotável e profundo do que se busca

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Fonte: Edição 956, agosto de 2015
Postado por: Família Cristã




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