Casa da alegria

Data de publicação: 24/09/2015

Créditos: Osnilda Lima, fsp
Fotos: Paulo Maia

Três Irmãs Passionistas, por opção da congregação, assumiram viver e servir junto ao povo Munduruku, no Rio Tapajós

Almoçaram, lavaram a louça, limparam o chão e se arrumaram, calçaram uma sandália surrada, um chapéu, camisa de manga longa, para evitarem as picadas dos mosquitos e, nas mãos, uma pequena mochila. Na casa, tudo é simples, mas é empetecada de alegria. Na varanda, em diálogos sem pressa acompanhados de silêncio, ora interrompidos pelo gorjear dos pássaros que pareciam brincar de trova e ao som distante do latido de um cachorro, sentaram-se à espera. A brisa suave sussurrava e, de um lado para o outro, anunciava a tarde chegando de mansinho. No jardim multicolorido e protegido sob a sombra de uma majestosa mangueira, borboletas guerrilham contra os ventos mais intensos e voltejam de flor em flor. Ao fundo, uma voadeira, pequena embarcação movida a motor para navegar no rio, estava atracada.
Às 15 horas o capitão (cacique) da Aldeia Jacarezinho, no Rio Tapajós, município de Jacareacanga (PA), viria buscá-los, estava marcada a missa na aldeia. O frei Everton Berny Machado, Carmelita Descalço, de Londrina (PR), passava a Semana Santa na cidade, foi a oportunidade para a aldeia, pois lá não há padre. Às 16h40 o portão se abriu, Osmarino Manhuary Munduruku, o capitão, acompanhado de seu neto, chegaram. Com voz baixa estendeu a mão e cumprimentou um por um: Wykat! Boa tarde! Já o pequeno estendia a mão para ser beijada, pedia a bênção e, depois, beijava a mão de cada um. A hora e o tempo, não importam, há a preocupação com o chegar e o partir. Às 17 horas, a partida rumo à aldeia, na rabetinha do capitão, embarcação menor com um pequeno motor, para celebrar a missa com os indígenas.
As Irmãs Passionistas de São Paulo da Cruz: Maria Irene da Silva, Ana Vicencia Fernandes Costa e Claudete Chaves moram na Comunidade Paim Hugo, padre Hugo, comunidade referência para os povos Munduruku que moram em aldeias próximas a Jacareacanga, do outro lado do Rio Tapajós.
No início de 2012, depois de uma visita à Prelazia de Itaituba (PA) e dialogar com o bispo da mesma, a Congregação das Irmãs Passionistas acolhe a proposta de assistir os indígenas Munduruku, junto ao Rio Tapajós. E no dia 12 de agosto, do mesmo ano, com a celebração eucarística, presidida por dom Wilmar Santim, Ordem dos Carmelitas, bispo da prelazia, foi oficializada a fundação da comunidade. As irmãs lembram que um ponto forte da celebração foi a bênção e o envio em que participaram a comunidade indígena  e não indígena de Jacareacanga.
Ao chegarem à aldeia, estava tudo pronto para a missa. As crianças, de imediato, vieram correndo à margem do rio, ao encontro, para pedir a bênção. Eles brincavam, corriam de um lado para o outro, com sacolas plásticas, as alças uma em cada ombro, que, com o vento, se enchiam e davam a impressão de que a criançada iria sair voando. Algumas tinham no colo pequenos saimiris um gênero de primatas conhecidos popularmente por macaco-de-cheiro ou macaco-esquilo, que faziam uma algazarra danada. Tanto crianças como os pequenos saimiris com sua calda enorme, maior que o corpo, contornavam a cintura dos pequenos indiozinhos. Esse macaco é o animal de estimação das crianças.
Os indígenas adultos, toda a aldeia, 15 famílias, aguardavam para a celebração no espaço comum, onde eles costumam se encontrar todas as manhãs para iniciar o dia com o café da manhã. Quando a equipe chegou, vieram cumprimentar e logo em silêncio retomaram os lugares para iniciar a celebração. Os Munduruku têm voz mansa e articulam o diálogo pausadamente, permeado de silêncio entre uma palavra e outra, em tom baixo se comunicam. Nem mesmo as mães, diante das traquinagens das crianças, se alteram. No máximo que se ouvia era uma voz firme, mas terna kamma, que quer dizer “não”. Os pequenos corriam, caíam, choravam e se levantavam por conta própria ou com a ajuda das outras crianças maiores.
Os adultos, jovens e adolescentes estavam compenetrados para iniciar a missa. A dimensão do Sagrado, para o Munduruku, é muito respeitada e a presença das irmãs e do padre significa a visita do Sagrado. Durante a missa, todos permaneceram atentos e participativos. Os cantos e as leituras bíblicas foram todas na língua Munduruku. A homilia do padre, o cacique traduzia para o Munduruku, à comunidade.
Ao terminar a missa à noite, já ganhava espessura. Mas eles quiseram mostrar seus artesanatos. Na aldeia, o artesanato consiste na tecelagem de roupas típicas, cestaria, plumária, arcos e flechas, lanças e colares em detalhes de animais e peixes na madeira ou osso que é um esmero, muito bem trabalhado e finalizado em detalhes minúsculos.

Sobre a água azulada do Rio Tapajós, a equipe subiu de rabetinha e seguiu viagem de retorno, iluminada unicamente pelos tons dourados da lua cheia que ficou no alto, mas ao mesmo tempo esparramada por sobre o rio indicando o ponto em que o capitão deveria tocar sua pequena embarcação. O pequeno indiozinho, companheiro do avô, deitado na minúscula proa da rabeta contemplava o céu cintilado de estrelas, que ora deitava de bruços e permanecia extasiado na imensidão do Rio Tapajós. Já o capitão não tinha pressa, mesmo sendo escuro não se afobou não, nada era para já. Ele conhece cada curva, e, no murmúrio do rio, no sossego da travessia, no silêncio da mata, uma pequena embarcação abraçada pelo Rio Tapajós seguia até um pequeno porto em Jacareacanga. E essa certeza acompanhou a equipe naquele trajeto noturno, no coração da Amazônia, conduzida pelas águas do formoso Tapajós: “Não digas onde acaba o dia, onde começa a noite. Não fales palavras vãs. As palavras do mundo. Não digas onde começa a Terra, onde termina o céu. Não digas até onde és tu. Não digas desde onde és Deus. Não fales palavras vãs. Desfaze-te da vaidade triste de falar. Pensa, completamente silencioso, até a glória de ficar silencioso, sem pensar”, poetizou Cecília Meireles. Por isso nossa grande companhia foi o silêncio! Nada! Escuta! Silêncio! Tudo! O importante não é aonde fomos, mas onde em nós está aonde percorremos e o que deixamos.
As irmãs Maria Irene, Ana Vicencia e Claudete vivem essa experiência diariamente como missionárias junto ao povo Munduruku. Irene e Ana partilham a vida desde o coração da Amazônia. Irmã Claudete Chaves estava viajando quando a Revista Família Cristã visitou a comunidade.

Maria Irene da Silva
Para mim, um momento muito forte, junto aos Munduruku, foi quando participei da Assembleia Geral, na Aldeia Polo Sai Cinza, município de Jacareacanga (PA). Um tempo depois eles vieram à cidade para uma manifestação. Quando soube, fui ter com eles. Quando cheguei próximo, levantei o braço e falei o grito de guerra deles, que é “Saweeh!”. Naquela hora, eu me emocionei muito. Todos levantaram a mão e responderam: “Saweeh!”. O cacique-geral me disse: “Irmã, a senhora já não é mais pariwat (estrangeira), mas uma das nossas”. Para mim, isso foi muito forte, o ser aceita não só por uma aldeia, mas pelo povo Munduruku. Com muita frequência, eles pedem: “Irmã, venha morar com a gente. Fazemos uma casa para você aqui”.
O povo Munduruku é muito generoso. Outra experiência forte que vivi foi quando teve a festa da padroeira, Santa Teresinha, na Aldeia Piquiá. Como não temos padre, nós, irmãs, fomos celebrar com eles. Na hora do ofertório, eu percebi que todas as famílias traziam: coco, farinha, banana, serikita, mandioca... O que eles tinham traziam. No fim da celebração, o professor da comunidade disse: “O ofertório de hoje nós fizemos para vocês, irmãs. Isso é para vocês levarem”. Isso me impressionou! Um povo que vive na simplicidade, mas de tamanha generosidade. O pouco que eles têm, eles partilham.
Eles confiam muito na Igreja Católica. Porque dizem que nós respeitamos a tradição e a cultura deles, não impomos as coisas. Fazemos uma evangelização sim, mas de uma forma respeitosa, até porque o Espírito de Deus está com eles muito antes de nós. Não fomos nós que viemos trazer Deus ao povo Munduruku. Deus está com eles, viemos ajudá-los, talvez, a vivenciar melhor.  Eles com frequência perguntam se nós irmãs não podemos ser pain (padre).
Ah! Percorrer o Rio Tapajós é fascinante. Dentro do rio fico vendo a mata, a água que parece não ter fim, lindo! Eu me pergunto: “Como dizer que Deus não existe, diante de tamanha beleza? Percorrer o rio é lindo! Agora, é claro, têm os banzeiros, as rabetinhas, dão susto na gente, tem o cansaço do sol, da chuva, da má acomodação. Mas isso não é empecilho para não desenvolver a missão. É magnífico no fim da tarde, já sem o sol, aquele silêncio, aquele vento que passa no rosto. Então sinto que é a mão, a ternura, o carinho de Deus que nós abraça.
O maior aprendizado aqui é o desprendimento, o povo Munduruku é muito desprendido, eles são muito simples. Até para falar, o povo Munduruku fala baixo, tem uma paciência. Dificilmente a gente vê um índio nervoso. Eles não tem aquele estresse que nós temos.  Eles vivem com pouco e são felizes. Às vezes, temos tudo e somos amargos e infelizes. Então o ser feliz não está nas coisas.
Estamos a 400 quilômetros, da sede da Prelazia de Itaituba. Estrada de chão, transamazônica e a maior parte dela é reserva ambiental. No tempo de chuva é muito complicado, por exemplo, se precisa sair, no caso de uma emergência, é só de avião e olha lá, isso se o tempo permitir, pois são aviões pequenos.
Mas lanço o convite, precisamos de missionário na região. Eu penso que as pessoas deveriam dar o primeiro passo. Quando chegarem, vão se apaixonar, não tem como. Às vezes olhamos a Amazônia de uma forma tão diferente. Às vezes olhamos o Pará com pré-conceitos, como terra de conflitos... Têm os desafios sim, são inúmeros. Mas eu diria à Vida Religiosa Consagrada: avance para o Tapajós, tenha coragem, vem pisar neste chão, vem se sujar na lama, mergulhar na água bonita do rio. Há os desafios das distâncias, da língua com o povo Munduruku, há o grande desafio desses projetos do governo federal, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que não gera vida para todos. As populações aqui são sacrificadas em suas comunidades e aldeias.
Estar aqui arde o coração, às vezes você chora com os dramas vividos pelas pessoas, mas ao mesmo tempo se alegra com coisas simples, que parecem insignificantes, mas que têm um sentido muito maior. Creio que, depois que cheguei aqui, eu me tornei uma pessoa um pouco melhor. Eu vim para cá, de Brasília (DF), tive de abrir mão de muita coisa, doutrinas, higiene, alguns pudores, como, por exemplo, tomar banho no rio com as mulheres, crianças. Às vezes, criamos exigências bobas, desnecessárias, criamos necessidades.
Hoje vejo a vida de forma menos complicada. Por exemplo, uma coisa nos Munduruku é o respeito, nas assembleias deles, todos têm voz e vez. E fala quanto tempo quiser, e todos escutam. E tudo o que decidem é ali, se por acaso precisa chamar a atenção de uma pessoa, é ali. Terminou, teminou, não tem mais conversa. Não se leva mais adiante, resolve-se ali.
Outro detalhe na vida comum dos Munduruku, eles começam sempre o dia juntos, com o café da manhã, cada um traz o que tem em casa e partilha. E é nesse momento que também tudo é comunicado e discutido, os problemas socializados e dialogados como serem resolvidos. E fora, o índio nunca fala por si, sempre em nome da comunidade indígena.

Irmã Ana Vicencia Fernandes Costa
O trabalho na Amazônia sempre foi um sonho, como nossa congregação tem um trabalho com as mulheres e, principalmente, com as mulheres exploradas, sempre achei que deveríamos fazer um trabalho pelo povo da Amazônia, sobretudo pelas mulheres e jovens da Amazônia que são exploradas. Foi um processo de amadurecimento e discernimento nossa vinda para cá. Dom Wilmar Santin havia escrito uma carta para a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). Entramos em contato com o bispo, viemos para conhecer a realidade da Prelazia. O bispo nos apresentou a realidade garimpeira, realidade da população que vive na transamazônica, as periferias de Itaituba e nos mostrou a realidade de Jacareacanga e das aldeias indígenas.
Este tempo aqui, para mim é um tempo de graça. Passei por vários lugares, várias comunidades, sertões secos, periferias, trabalhos com meninos e meninas de rua. Então trabalhar na Amazônia é um grande presente. Eu tenho muita alegria em entrar no Rio Tapajós e ir para uma aldeia. Meu coração fica em festa. O Tapajós é muito bonito. Entrar nele, eu sinto a grande liberdade para a construção do Reino. Isso me deixa muito realizada, sinto que a minha consagração se torna muito mais evidente, tenho oportunidade de vivê-la com mais intensidade.
Eu sinto muita alegria em viver entre os Munduruku. É uma realização congregacional, mas muito pessoal também. Tem sido um tempo de muita alegria. Contemplar o povo Munduruku, a forma que eles vivem. Eles respeitam cada etapa humana. As crianças são crianças, os jovens são jovens. As crianças nunca, nunca, são espancadas, os velhos não são desprezados. Entre os Munduruku, a pessoa ao envelhecer não é descartada, e nem a criança. Eu acho isso muito lindo!
Não é costume os Munduruku chamarem a gente para entrar na casa deles. Uma experiência que me marcou muito foi o convite de um cacique para entrarmos no interior de sua casa e fazermos a refeição juntos. É como se ele tivesse dado licença para entrarmos na vida deles. Choramos de emoção. A filha do cacique também nos disse: “É isso que queríamos, pessoas que viessem viver a nossa experiência. Comer do que nós comemos, tomar banho como nós tomamos e rezar conosco. Porque Tupã nos ama, e queremos pessoas que nos amem e vivam essa experiência de Tupã conosco. Eles confiam muito em nós. Com isso, eu sinto que Deus nós chama a estar com essa gente.”








Fonte: Edição 954,junho 2015
Postado por: Família Cristã




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