Percepções imateriais

Data de publicação: 05/10/2015

Anterior às criaturas, ao tempo e ao espaço, Deus parece transcender o reino da matéria. Acima da nossa imaginação e intelecto, não podemos capturá-lo ou contê-lo.

Crédito: Clovis Salgado Gontijo *   
Arte: Sergio Ricciuto Conte *     

Ao confrontar a afirmação inicial da canção “Comida” dos Titãs, “A gente não quer só comida / a gente quer comida / diversão e arte”, à resposta de Cristo ao tentador, “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4), cabe questionar: até que ponto as experiências estética e espiritual se aproximam por fugirem do nível da materialidade, ou seja, por um vínculo com o imaterial?
A física contemporânea provavelmente não nos autorizaria a conferir uma imaterialidade aos fenômenos que nos cercam. Contudo, tendo em vista a dinâmica da percepção, alguns estímulos sensíveis nos atingem como mais materiais ou imateriais que outros. Geralmente, consideramos material o que se apresenta sob a condição de objeto concreto, dotado de volume, forma fixa e contornos delimitados. Em sentido oposto, parece-nos imaterial o que supostamente não possui peso, o que não se apalpa ou retém, o que não se pode demarcar.
É assim que os estímulos auditivos costumam ser apreendidos como mais imateriais que certos estímulos de ordem visual. Enquanto um objeto captado pelos olhos se inscreve, muitas vezes, numa moldura precisa, um som reverbera de modo difuso: sua área de ação não poderia ser circunscrita por coordenadas definidas. A inscrição das manifestações sonoras no transcurso sempre inapreensível do tempo também reforça a imaterialidade acústica. E se argumentassem que os sons possuem bases materiais, uma vez que são vibrações de ar e podem ser medidos nas suas frequências e intensidades, caberia objetar que, recorrendo apenas aos nossos ouvidos, não estamos aptos a aferir tais aspectos.

Experiência estética – Por estes motivos, o artista plástico modernista russo Wassily Kandinsky compreende a arte sonora como “a arte mais imaterial de todas”. Compreensão que levará esste artista, em busca Do espiritual na arte, a tentar aproximar sua própria prática pictórica à “lógica” e aos processos musicais. Guiado pela música, o pintor defende que seu fazer artístico também não precisaria se restringir a superficiais imitações do mundo exterior. E é justamente quando deixa de retratar formas reconhecíveis, abdicando do “objeto material a que o artista se prendia exclusivamente na época precedente”, que o pintor das vanguardas do início do século 20 encontraria “o próprio conteúdo da arte, sua essência, sua alma”. Portanto, ao contrário do que muitos imaginam, o abstracionismo não se fundamenta numa proposta fria.
Explica Kandinsky que “uma representação abstrata, o objeto desmaterializado”, encontrado nas palavras, nos sons musicais, nas cores e nas figuras geométricas, poderia “provocar uma vibração no coração”. A imaterialidade das formas visuais, reflexo da imaterialidade musical, funcionaria, assim, como especial via de comunicação para as expressões igualmente imateriais que compõem o “universo interior” e a “vida espiritual” do artista. No entanto, a valorização da imaterialidade na arte não se limita aos albores do século 20. Em plena era barroca, encontramos um pintor como El Greco, que, nas suas telas, reduz a dimensão material dos corpos representados, convertendo-os em chama diáfana e imagem da alma. Mais uma vez, a imaterialidade evocada pelo artista se entrelaça com proposta de natureza espiritual.
Cabe acrescentar que o imaterial, mesmo quando não é expressamente buscado pelo artista, se mantém presente na experiência estética. Segundo Schopenhauer, a matéria serve de ponte para a apreensão de algo imaterial, a ideia que nela repousa. Se não concordarmos com este ponto de vista metafísico, ainda resta aceitar que a arte e o belo natural, embora não possam prescindir de alguma materialidade, nos põem em contato com os níveis imponderáveis da psique e do espírito humano.

Imaterial religioso – De acordo com a distinção estabelecida entre o material e o imaterial, não é difícil concluir que nossa compreensão de Deus se ajusta, em vários pontos, ao conceito de imaterialidade. Como temos visto em toda tradição ligada à teologia mística, o absoluto não possui forma nem contornos definidos. Anterior às criaturas, ao tempo e ao espaço, o Criador parece transcender o reino da matéria. Acima da nossa imaginação e intelecto, não podemos capturá-lo ou contê-lo: impedimento que se evidencia, sobretudo, na pessoa do Espírito Santo, sopro livre e impalpável. Devido a esta compreensão imaterial do divino, a experiência que nos coloca em relação a ele é pensada, com frequência, por meio de analogias com sentidos e realidades menos materiais. Deus se manifesta ao profeta Elias no “murmúrio de uma brisa suave” (1Rse 19, 12), ou seja, como delicado evento sonoro.
Recordando esta passagem bíblica, São João da Cruz classifica a audição como sentido privilegiadamente espiritual, o que justificaria o fato de São Paulo ter ouvido (2Cor 12,  4) e não visto ou degustado “palavras inefáveis” (Cântico B, canção 14). No entanto, não podemos nos esquecer, como também destaca o poeta carmelita, de que a “brisa suave” ainda poderia ser percebida pelo tato. De qualquer modo, este con-tato espiritual se daria a partir de um estímulo inapreensível e fugidio, que, como o próprio Espírito, nos toca sem possuir “extensão nem volume” (Chama viva de amor, canção 2).
Na literatura mística, o rastro de Deus nas nossas vidas se manifesta tanto em toques e sons quanto em fragrâncias. O estado gasoso do perfume evoca a imaterialidade de uma presença difusa, que possui a capacidade de “derramar-se e comunicar-se suavissimamente nas potências e virtudes da alma” (Cântico B, canção 18). Propriedade também partilhada pela água, elemento especialmente apto, segundo Santa Teresa de Ávila, a explicar certas nuanças espirituais. A água, dádiva divina, à medida que escoa e nos invade, “vai dilatando e alargando nosso interior” (4as. Moradas, cap. II).
A inundação causada pelo transcendente, efeito característico da graça, nos faz retornar ao âmbito estético. Kandinsky nos fala sobre a “irradiação invisível” da música. Ainda que a vida nos abasteça de alimento e outros bens mais palpáveis, sem as “irradiações” próprias ao que não possui existência concreta e circunscrita, não nos sentimos plenamente nutridos.

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br

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Anterior às criaturas, ao tempo e ao espaço, Deus parece transcender o reino da matéria. Acima da nossa imaginação e intelecto, não podemos capturá-lo ou contê-lo

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Fonte: Edição 957,setembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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