Aparecida do povo

Data de publicação: 09/10/2015

Há 300 anos, depois de aparecida, uma imagem de terracota encontrada no Rio Paraíba do Sul alimenta a fé de fiéis e traz esperança a quem a ela recorre

Assista ao vídeo sobre a história e devoção à Nossa Senhora Aparecida

Fotos
João Machado
Crédito Karla Maria

Ele olha emocionado para o Santuário Nacional de Aparecida em direção ao nicho onde se encontra a imagem e diz: “Tudo graças à Mãe!”. Geraldo Luiz é taxista licenciado no santuário e devoto. Pudera! Único sobrevivente de um acidente aéreo. O avião bimotor em que estava caiu. “Diante dos destroços, impossível haver sobreviventes”, assegura o motorista. “Eu era jovem, 20 anos, queria ser piloto. Foi meu primeiro voo. No avião estavam o piloto, um fotógrafo e eu. Assim que decolamos e atingimos altura, o motor parou. Lembro-me do piloto olhando para mim, que estava como passageiro, e dizendo: ‘Abaixe-se, vamos cair’. Depois, os destroços e a morte dos amigos”, silencia Luiz, ao mostrar as fotos da tragédia. 
A devoção de Luiz está enraizada na cultura do brasileiro com muitas histórias. Antes de a imagem da santa ser encontrada no Rio Paraíba do Sul pelas redes dos pescadores, em 1717, o então rei de Portugal, dom João V, havia proclamado, em 1646, Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Portugal e de seus domínios além-mar, ou seja, também do Brasil. Ali surgia junto ao povo o carinho pela mãe de Deus. Se antes a imagem permanecia apenas em capelas das fazendas e oratórios de barões do café, agora a santa escurecida pelo lodo do rio surgia pelas mãos dos pescadores com o rosto do povo.

Enegrecida –
Há duas narrativas sobre o achado da imagem. A primeira consta de 1717, entre 17 e 30 de outubro, quando dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, terceiro governador da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, passava por Guaratinguetá (SP), durante viagem até Vila Rica, atual Ouro Preto. Na época, os pescadores Domingos Martins Garcia, João Alves e Filipe Pedroso foram chamados a buscar alimentos para as refeições do governador e comitiva. Primeiro jogaram as redes no Porto de José Corrêa Leite e, depois, no Porto de Itaguassu. “E lançando neste porto, João Alves a sua rede de arrasto, tirou o corpo da Senhora, sem cabeça; lançando mais abaixo outra vez a rede tirou a cabeça da mesma Senhora”, como registra o Primeiro Livro de Tombo da Paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá. A imagem de terracota e de 40 centímetros de altura foi guardada em um pano. Filipe Pedroso, o mais velho dos pescadores, foi o guardião da imagem e a levou ao seu sítio em Ribeirão do Sá, na então Vila de Guaratinguetá.
Diferentemente das imagens da Imaculada Conceição, brancas, ela era escura. “Provavelmente pintada com as cores da Imaculada Conceição, o azul e o vermelho, mas como ficou muito tempo no rio perdeu a tinta e adquiriu cor escura”, explica o padre redentorista Victor Hugo Silveira Lapenta, especialista na história da aparição da imagem da padroeira. Filipe Pedroso limpou o corpo da santa e juntou a cabeça com cera preta de abelha arapuá. Permaneceu com ela por cerca de 15 anos. 
A história conta que Pedroso mudou-se para Itaguassu e lá deu a imagem ao filho Atanásio Pedroso, que construiu um oratório em um altar de paus. E assim, às sextas-feiras e aos sábados, o povo se reunia em torno da imagem, fazia pedidos e recebia graças. As velas simples que produziam fumaça a enegreciam ainda mais. “Foi um fenômeno natural, mas com uma explicação religiosa: a providência de Deus proporcionou que a imagem escura fosse a origem da devoção à mãe de Jesus, aqui no Brasil, justamente uma terra onde as raças negra e indígena fundaram nossa nacionalidade”, explica o padre Lapenta.

Outro registro – Uma segunda narrativa recolhida pelo padre jesuíta Serafim Leite juntou-se aos arquivos do santuário em 1945. “Aquela imagem foi moldada em argila; sua cor é escura, mas famosa pelos milagres realizados. Muitos afluem de lugares afastados, pedindo ajuda para necessidades”, registram os jesuítas. A capelinha com a imagem ficava às margens da única estrada que conduzia a Minas Gerais e ao Porto de Parati, e caravanas chegavam de todo lugar para visitá-la. “Os tropeiros da célebre Feira de Muares, em Sorocaba (SP), levaram a devoção para a Região Sul: Curitiba, no Paraná; Viamão e Laguna, no Rio Grande do Sul. Os mineradores levaram-na até as minas de Cuiabá, em Mato Grosso; e, pelos sertanistas, a devoção chegou ao longínquo estado de Goiás”, conta o padre redentorista Júlio Brustoloni em seu livro História de Nossa Senhora Aparecida.
Para o pesquisador Lapenta, a expansão do culto foi extraordinária. “Foi o maior milagre, uma vez que a comunicação se deu de pessoa para pessoa sem outros meios senão a graça de Deus e a fé do povo.” Ele aponta que, cerca de 20 anos depois do encontro da imagem, a devoção já se espalhara pelas províncias de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, chegando depois ao Centro-oeste e Sul do País.


Primeira igreja –
Em 1743, o padre José Alves Vilella, que havia assumido a Paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá, solicitou ao bispo do Rio de Janeiro (RJ), dom João da Cruz, autorização para o culto à imagem e a construção de uma igreja em sua honra. No mesmo ano, o bispo respondeu. “Havemos por bem de lhes conceder licença, como pela presente Provisão lhes concedemos, para que possam edificar uma Capela com o título da mesma Senhora na dita freguesia, em lugar decente e assinalado pelo Reverendo Pároco”.
A primeira igreja foi construída em 1745 em taipa de pilão. Ficava no Morro dos Coqueiros, hoje Praça Nossa Senhora Aparecida. Acolheu multidões por 145 anos. A segunda surgiu no mesmo local após quatro décadas de construção, em 1888, a partir de ofertas dos devotos. “A força de desenvolvimento do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida vem do povo simples e devoto. Tanto a força da presença pessoal, da devoção, da oração, do culto a Maria, quanto dos recursos que foram e são dados”, conta o padre Lapenta. De estilo barroco, a igreja conhecida por Basílica Velha foi tombada em 1982 como monumento histórico, religioso e arquitetônico.


Restauração –
Ao lado da pracinha onde fica essa Basílica Velha está o Museu dos Redentoristas. Por ali, nos bancos da pracinha, Josefina Maria Correia, quando criança, sentava com a família ao fim da missa. “Rezo à Mãe Aparecida desde que nasci. Quando tinha cinco anos, mamãe fez um vestidinho com bolso muito bonito, e eu vim. Era estrada de terra. Vim em um caminhão e ‘garrou’ de chover no caminho”, conta, ao lado de sua família, aos 90 anos recentemente completados. Ela é natural de Pedralva (MG) e perdeu as contas de quantas vezes recorreu a Aparecida. “Tive hérnia de disco, não conseguia sentar nem comer. Pedi para Nossa Senhora me ajudar a vir aqui, e ela me curou”, lembra.
Josefina tinha 53 anos quando a Basílica Velha, em 1978, sofreu um atentado. Em outubro daquele ano, o estudante Rogério Marcos de Oliveira, de 19 anos, quebrou o vidro que protegia a santa, pegou a imagem e espatifou-a no chão. Segundo relatório do Museu de Arte Moderna (MAM), de São Paulo (SP), a imagem se fragmentou em cerca de 200 pedaços. A restauração ficou por conta de Maria Helena Chartuni, que recuperou a peça. Como esta não trazia o nome do escultor nem data de criação, pesquisadores concluíram que, devido a seus estilo e característica, a imagem seria obra de frei Agostinho de Jesus, discípulo do mestre santeiro e monge beneditino frei Agostinho da Piedade, esculpida provavelmente pelo idos de 1650, em um mosteiro, em Santana de Parnaíba (SP).

Caminho da fé – Entre a Basílica Velha e a Basílica Nova, conhecida hoje como o Santuário Nacional, há um longo caminho histórico e de fé. O que as liga é a Passarela da Fé, inaugurada em 1972, com seus 389 metros de comprimento. O santuário começou a ser construído em 1946, e a terraplenagem aconteceu em 1952. A concretagem se deu em 1955. Só em 1982 a santa percorreu a passarela em procissão e foi transferida para o santuário, ou Casa da Mãe, como é chamado pelos devotos que transformaram o local em um dos maiores centros de peregrinação católica do mundo.
Na Basílica Nova, Elza Aparecida Falavina troca as flores do andor por ela construído. “Quando criança, demorei a falar. Meu pai veio a Aparecida para interceder por mim. Quando retornou, fui ao encontro dele chamando-o de papai! Foi uma alegria para a família. Desde pequena sou apegada a Nossa Senhora Aparecida. Hoje, quando tem algum problema na família, recorro a ela”, conta. Todos os anos ela deixa Campinas (SP) e peregrina ao santuário. “Minha forma de agradecer é essa, venho até Aparecida com a imagem que tenho. Há anos a comprei aqui, preparei um andor bonito com flores e fitas e levei para casa. No decorrer do ano, rezo diante dela e, quando venho em romaria, a trago. Na Sala dos Milagres, deixo as flores, compro outros ornamentos e levo para mais um ano. Já alcancei tantas graças que nem sei” revela.  

Casa da Mãe – Onde Elza monta seu andor é possível conhecer mais sobre a força da fé. No teto da Sala dos Milagres há mais de 70 mil fotos de anônimos, sorrisos e lágrimas de pedidos e graças. Cuidadosamente expostos estão os ex-votos (do latim “por um voto alcançado”), uma maneira encontrada pelo devoto de agradecer os milagres. São objetos em madeira, barro, gesso e cera, além de roupas, sapatos, diplomas, certificados, vestidos de noiva e objetos que datam até de séculos passados. Mensalmente são entregues na sala dos milagres cerca de 19 mil ex-votos. Nos meses de outubro, quase 30 mil.
Já na Capela das Velas, as orações surgem como pontos de luz e de esperança. A cera derretida, a mesma que iluminava a imagem no oratório de Atanásio Pedroso no século 18, escorre pelos dedos dos devotos e devotas em busca da cura, do recomeço ou em sinal de gratidão. O lugar mais visitado, no entanto, é, de longe, o nicho da imagem. Aos pés de Aparecida, romeiros apresentam seus pedidos e orações. Eles pisam as ondas talhadas no chão pelo artista sacro Cláudio Pastro, responsável pela identidade estética da basílica, o que nos leva de volta ao Rio Paraíba do Sul, à origem de tudo, à simplicidade de tudo, à fé do povo.

Assista ao vídeo sobre a devoção à Nossa Senhora Aparecida




Fonte: Edição 958,outubro de 2015
Postado por: Família Cristã




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