Ciranda dos Fuso

Data de publicação: 27/10/2015

Mais de 2,5 milhões de famílias brasileiras têm filhos de apenas um dos cônjuges, este é o caso de Priscila e Leonardo


Quando Leonardo Fuso, 39 anos, conheceu Priscila de Moura Antunes, 43 anos, eles eram crianças, vizinhos em uma Guarulhos (SP) da década de 1980. Como toda boa história de amor, os encontros e desencontros aconteceram. “Eu estudava com a irmã dele, e ele estudava com a minha”, conta Priscila. “Ela era miss do condomínio em que eu morava”, emenda Leonardo.

Cresceram e cada um foi para um lado. Ele, para o Sul do País trabalhar como consultor de sistemas, e ela permaneceu no estado paulista, seguindo sua formação em Arquitetura, tornando-se funcionária pública, atividade que exerce atualmente.

Anos depois se encontraram, se encantaram e resolveram apostar na história. O reencontro, contudo, aconteceu em um momento difícil para ambos. Leonardo acabara de sair de um relacionamento de dez anos, que trouxe ao mundo Larissa, 13 anos, Lucas, 14 anos, além de Leonardo, filho de sua ex-mulher de um primeiro relacionamento.

“Quando eu casei, o Léo tinha um ano. Eu não me assustei, mas minha mãe e meu avô foram contra. Ele era italiano, conservador, e minha mãe também. Mas com o tempo todo mundo se apaixonou pelo Léo”, conta Leonardo.

Priscila também não teve dificuldades para lidar com o “pacotinho” de filhos que vinha com Leonardo. Ela, que acabara de sair de um relacionamento de sete anos, levava consigo, além da experiência, o cãozinho Van Gogh, que tirou das ruas da cidade. “Para mim, nunca foi problema. Meu ex-marido também tinha uma filha de cinco anos, que só fui conhecer aos oito, porque a ex-mulher dele tinha muito ciúme e não deixava nem ele pegar a filha direito”, conta.

Para as crianças não parece ter sido fácil.  “Foi meio estranho no começo, depois que eu conheci a Pri ficou mais suave, eu acho”, diz Lucas, meio sem graça. O adolescente desabafou que quando os pais se separaram desejou por um tempo que voltassem, mas depois que começou a viver com o pai, porque assim queria, não fez mais questão.

Larissa, a caçula da família, foi sincera. “Eu não gostei no começo. Vi a foto dos dois no Facebook e fiquei brava com ele (o pai). Mas quando eu a conheci faltou coragem de falar que eu estava brava, dei um tempo também para conhecê-la e logo depois já gostava dela”, conta, com um sorriso tímido.

Depende dos pais − Pesquisa realizada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por Daniela Heitzmann de Sousa e Cristina Maria Brito Dias, com o título Recasamento: percepções e vivências dos filhos do primeiro casamento, revela que a capacidade de a criança lidar com a crise que a separação deflagra depende, sobretudo, da relação que se estabelece entre os pais. É imprescindível que eles possam distinguir, com clareza, a função conjugal da função parental, para que assim transmitam aos filhos a certeza de que as responsabilidades parentais de proteção e cuidado, aliadas ao amor, serão sempre mantidas. E é isto que Priscila sempre procura deixar claro, na relação com os filhos, que agora também são seus.

“Eu dizia a ela que o pai é dela e sempre será por toda a vida. Eu posso ser ex-mulher de alguém, mas ela nunca será ex-filha”, conta Priscila, que não pensa em ter seus filhos biológicos, já que sua maternidade está “plenamente” realizada.

Nem sempre é fácil! Conversar francamente à mesa em torno de uma pizza em dia de sexta-feira e entre um afago e outro no Van Gogh é certamente uma das conquistas dessa família, que construiu com o tempo um espaço de diálogo. “Esse bem-estar a gente tem que ir construindo dia a dia. Já tivemos fases que não eram tão boas, quando a Larissa veio, por exemplo, houve um certo ajuste no começo”, conta Priscila.

As crianças decidiram morar com o pai, o que obviamente não foi uma decisão aceita com tranquilidade pela mãe biológica. “Eu tinha medo de deixar a minha mãe sozinha, mas daí depois teve uma noite em que o Lucas me pediu para vir morar com ele, porque ele estava com saudade de mim”, conta Larissa, que, em agosto de 2013, seis meses depois do casamento de Priscila e Leonardo, completou a família.

A tutela de Larissa ainda é discutida na Justiça. Leonardo possui a guarda permanente do Lucas, que decidiu morar com o pai logo após a separação. Já o jovem Leonardo, 19 anos, o filho mais velho não biológico de Leonardo Fuso, visita a família com regularidade, já que reside em São Bernardo do Campo (SP), onde faz faculdade de Engenharia.

Na real − Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que mais de 2,5 milhões de famílias brasileiras têm filhos de apenas um dos cônjuges. Os números revelam que 83,8% das famílias têm um ou mais filhos do casal; 5,8% têm um ou mais filhos apenas de um dos cônjuges, que se autodeclara responsável pelas despesas da casa e 3,4% têm um ou mais filhos apenas do cônjuge que não se autodeclara responsável pela unidade doméstica.

O modelo tradicional dos casais, aqueles que se casaram, tiveram filhos e permanecem unidos é dominante, com quase 23 milhões de famílias. Os enteados, assim como Lucas e Larissa, representam 5,8% do total de casais com filhos (mais de 1,5 milhão).

Por Karla Maria

 







Fonte: FC ediçao 951-MAR 2015
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Medo do doutor?
Como ajudar as crianças a superarem o receio de consultas médicas e odontológicas.
Navegue com segurança
Viver no ambiente digital abre novos horizontes e possibilidades, mas requer cuidados
O melhor alimento para o bebê
O aleitamento materno é uma unanimidade mundial. Todos os profissionais de saúde reconhecem
Hora do pesadelo
Pesadelos são ruins em qualquer idade, mas os pais ficam mais angustiados quando são seus filhos.
Viver bem dentro de casa
Uma família unida enfrenta e supera os desafios da vida com maior facilidade.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados