Elogio ao esforço

Data de publicação: 07/12/2015

Toda criança precisa de estímulos e desafios. Para isso nada melhor do que ela ser elogiada pelo seu empenho, não pela sua inteligência

Por: Sérgio Esteves

Ser pai, mãe ou educador é uma batalha diária entre tentativas, erros e acertos. E mesmo assim com procedimentos sujeitos a revisão. O que, por exemplo, era de bom senso há uma geração atrás hoje pode ser questionável. O ato de elogiar mesmo é um caso desses. Longe de reduzir a atitude de julgar favoravelmente a criança em polos opostos, como “verdadeiro” ou “falso”, a questão não põe em dúvida o valor do elogio – ele é positivo e faz bem à criança –, mas enfatiza suas intensidade e direção. Segundo o entendimento atual da Psicologia Infantil, elogiar a criança contribui para a autoestima e estimula a capacidade desde que se refira mais ao esforço empreendido por ela em uma tarefa e não tanto a uma característica nata sua, como a inteligência. Isso porque, dessa forma, a criança provavelmente continuará se esforçando para se superar, enquanto um elogio à inteligência pode levá-la a acomodar-se.
“Isso faz todo o sentido”, confirma Márcia Maria Bignotto, doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas (SP). “A gente sabe que a criança nasce com certo desenvolvimento intelectual. Mas não é porque ela veio ao mundo assim que não precisará se esforçar e ter responsabilidade e disciplina para alcançar objetivos. Uma criança precisa de estímulos e, para isso, nada melhor do que ser elogiada pelos seus esforços. Uma criança elogiada apenas pela inteligência tende a intuir que, talvez, não precise se esforçar porque, afinal, tudo virá a ser resultado de sua capacidade intelectual e não de seu empenho”, argumenta. 

Vivacidade – A favor da tese consta um trabalho já considerado clássico a respeito do tema realizado pela psicóloga americana Carol Dweck, na Universidade de Stanford, na Califórnia (Estados Unidos). Ela e sua equipe submeteram 400 crianças da 5ª série de escolas da cidade de Nova York a um teste relativamente fácil de montagem de quebra-cabeças. Dois grupos foram avaliados: o primeiro recebeu elogios pelo esforço empreendido e o segundo foi elogiado pela inteligência. Em uma segunda etapa, as crianças puderam escolher entre um teste igual ao primeiro e outro mais complexo, que os faria aprender coisas novas. A maior parte dos “inteligentes” optou pelo fácil, enquanto a maioria dos “esforçados” decidiu pelo difícil. Logo, mais do que levar à acomodação, os elogios deslocados podem conduzir as crianças a uma zona de conforto que impede descobrir novas habilidades.
Para quem, no entanto, convive com crianças em idade escolar e em tempo de descobrir as coisas do mundo, nem sempre é fácil discernir entre os avanços conquistados pelo esforço e os outros que são resultados da vivacidade infantil. É o que dá a entender a editora Andreia Schweitzer, casada com o servidor público Sandor José Rezende e mãe do pequeno João Pedro, de 4 anos. “Quando se trata de cumprir uma tarefa, uma lição de casa, elogiamos o esforço e o cumprimento da meta. Mas há momentos em que o João nos surpreende de forma tão espontânea com alguma resposta ou atitude que simplesmente não esperávamos. Quando isso acontece acho que não há problema algum em elogiar o quanto ele foi ‘esperto’ ou ‘inteligente’ em pensar ou agir de determinada forma. Ao contrário, penso que isso também pode estimulá-lo a buscar outras respostas inteligentes para receber o mesmo tipo de elogio”, afirma Andreia.


Correções –
A estratégia do casal, obviamente, não desobriga João Pedro de desafios. O menino que há um ano foi submetido a uma cirurgia para resolver um problema de audição, hoje, já em vias de superação, ainda apresenta pequenas dificuldades para articular certas palavras. Dificuldades, aliás, que vem sendo vencidas através de estímulos, correções e, também, elogios. “Quando ele fala errado, dizemos que não entendemos, para ele repetir. Se mesmo assim ainda não sai direito, e se sabemos o que ele está falando, dizemos: ‘Ah, você está querendo dizer ...’, falando a palavra pausadamente, de forma bem clara. Então pedimos que ele repetida. Ele se esforça e, na maior parte das vezes, consegue dizê-la corretamente. Aí batemos palmas e elogiamos: ‘Muito bem, agora sim, você conseguiu’”, descrevem Sandor e Andreia. 
Segundo a psicóloga Márcia Maria Bignotto, esse papel estimulante e corretor dos pais é fundamental tanto quanto um elogio bem colocado em um momento oportuno. “Toda mãe e todo pai deve se preocupar em corrigir os filhos em eventuais falhas, pois a omissão não faz parte de um bom processo educativo. Isso, é certo, vale principalmente para o lado moral da educação. Mas desde que conservada a mesma lógica do elogio. Assim como o objetivo principal do elogio deve ser voltado mais para o esforço e menos para a inteligência, uma correção deve chamar a atenção não para uma característica maldosa da criança, mas para o seu ato que, eventualmente, não foi o mais generoso.”

Pelo mundo –
O cuidado de não elogiar em demasia a criança se complica mais um pouco quando ela é filho único, algo cada dia mais comum. “É difícil mesmo. A maior parte do tempo estamos só nós três em casa e o João tende a ser o centro das atenções. Mas eu não dou mole. Peço ajuda dele para as coisas que ele já pode ou sabe fazer, como arrumar a mesa, tirar a roupa limpa da máquina e colocar a roupa suja no cesto. São pequenas tarefas domésticas para ele se acostumar a ajudar e valorizar. O bom é que ele adora, nem precisa elogiar”, conta Andreia. Para Márcia Maria, é indispensável a criança aprender que a vida não gira em torno dela, mesmo que ela seja a única em casa. “Porque, mais tarde, no mundo, ela não será a única pessoa e terá que viver em grupo, trabalhar em equipe e dividir tarefas. E, assim, saber viver em sociedade, inclusive entre elogios, sucessos, críticas e algumas frustrações”, pontua a psicóloga




Fonte: Edição 959,novembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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