Resgate histórico

Data de publicação: 07/12/2015

A história da própria família ajuda a forjar quem somos, cria identidade nas novas gerações e possibilita o resgate de valores pelos quais a sociedade tanto almeja

Por: Nathan Xavier

Os mais velhos reclamam que os mais jovens não conhecem nem valorizam a memória de suas famílias. Mas será que eles não se interessam ou os pais não despertam o interesse por isso? Como seu avô conheceu sua avó? Onde seus pais se encontraram pela primeira vez? De onde vieram seus bisavós maternos? Onde e como eles viviam? Perguntas como essas, por vezes feitas pelas crianças ao mexer com álbuns de fotos antigas, causam diversos pontos de interrogação na cabeça dos pais. Estes, por sua vez, podem conhecer algumas coisas, mas a maior parte dessas histórias familiares, infelizmente, se perdem no tempo. Segundo Silmara Opalinski Kobner, professora de História da Rede Pública Estadual do Paraná e especialista em História Antiga e Medieval pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, “as histórias dos pais, avós e bisavós significam mais do que simples memórias, são um referencial de identidade da família”.
Silmara, em artigo acadêmico, relata a experiência que realizou em uma escola com alunos de 8ª série do Ensino Fundamental, onde precisavam resgatar, através de pesquisas e entrevistas com familiares, a árvore genealógica da família de cada um. Os alunos, acostumados a estudar e ler a vida dos outros, ficaram empolgados em estudar a própria história, tornando o trabalho “significativo”. Segundo Silmara, esse resgate pôde fortalecer “a consciência histórica, o sentimento de pertencimento, de identidade, elementos fundamentais para a formação da cidadania e na construção da identidade pessoal de cada aluno, possibilitando o resgate de valores culturais e afetivos”.

Pesquisa – Em relação ao trabalho, os avós foram fundamentais para a reconstrução do passado, afinal, aponta Silmara, “são o elo vivo entre as gerações”. E ainda obteve um benefício paralelo: a valorização da família pelo próprio jovem. A afirma que “os familiares do convívio dos alunos passaram a ser considerados sujeitos históricos que contribuíram na construção do conhecimento. Valorizando, assim, tanto as vivências pessoais dos adolescentes, quanto as experiências dos grupos familiares”. Além das entrevistas, os alunos de 13 e 14 anos tiveram que coletar e analisar documentos escritos, como certidão de nascimento, casamento, óbito, cartas, lembranças de batismo, carteira de vacinação e fotografias da família. Silmara revela que essa foi uma das etapas de todo o processo que mais despertou o interesse deles. Após todo esse trabalho de pesquisa, precisaram transcrever as entrevistas, fichar e sistematizar as informações. Tudo isso resultou numa narrativa histórica com o título Memória Familiar, para então concluir na árvore genealógica de cada um.
Para os alunos, a experiência foi fator de surpresa ao descobrir coisas que não sabiam sobre a própria família, além de conhecerem brincadeiras e jogos dos avós ou pais na infância e adolescência, músicas de que gostavam, locais em que trabalhavam e a idade que começaram a trabalhar. “A maioria deles conseguiu resgatar a ascendência até os bisavós e poucos até os trisavós, mas despertou a curiosidade para continuar a pesquisa”, conta Silmara.
A professora teve o cuidado de coletar também os depoimentos dos alunos após a atividade e constatou o interesse despertado. Débora*, 13 anos, afirma que “este projeto revelou coisas que a gente nem imaginava, e eu tive oportunidade de conversar com a minha família, principalmente com meus avós”. O momento também ajudou a convivência familiar, como aponta Isabele*, 13 anos: “Antes do projeto, eu não tinha interesse pelo passado da minha família. Mas depois do trabalho pronto, comecei a valorizar a história familiar, pude conversar com meus pais e hoje entendo por que eles insistem comigo para que eu estude e faça uma universidade. (...) Tanto o meu pai como a minha mãe tiveram uma infância e juventude difícil, começaram a trabalhar ainda adolescentes e, como seus pais, eram rigorosos. A minha vida é muito boa perto da que eles tiveram”.

Encontros familiares – São muitas famílias hoje que promovem encontros entre seus membros para que o vínculo e a memória se mantenham atualizados e possam passar para as gerações mais novas. São diversos os sites e, no Facebook, multiplicam-se aos milhares os grupos de encontro familiares, alguns até mesmo internacionais. Um deles é o da Associação da Família Marchon, fundada em 1989, com encontros anuais, que costumam acontecer no Rio de Janeiro ou Espírito Santo, por conta da proximidade desses estados com a maior parte dos integrantes da família. Essas ocasiões costumam reunir em torno de 150 pessoas.
“Nos encontros temos um momento de celebração ecumênica, pois precisamos buscar também na fé um instrumento de união e valor familiar e depois um pouco de história. Além, claro, da música, esportes e a confraternização que encontros possibilitam, celebrando a família e as amizades que frutificam a partir desses encontros”, explica Eurico Marchon Neto, atual presidente da associação. Ele afirma que a ideia partiu de alguns primos que, na década de 1980, queriam se reunir com mais frequência. Albino Marchon, um dos tios, gostou da ideia, formalizando e ampliando os encontros. Ele também foi o responsável por pesquisar a fundo a história familiar, realizando diversas viagens, inclusive para a Suíça, berço do primeiro Marchon que chegou ao Brasil em 1819. Toda a história pesquisada foi reconstruída resultando em dois livros com narrativa emocionante, com os relatos das dificuldades e problemas que os imigrantes enfrentavam quando chegavam ao Novo Mundo. Uma realidade bem diferente da que era vendida em seus países de origem.
A saga da família Marchon não foi diferente da de muitas outras famílias de italianos, alemães, franceses, japoneses e diversas outras nações que fugiam de desastres naturais, guerras e perseguições. Que, aliás, não é muito diferente do que se vive hoje nas recentes ondas de imigração. Eurico alerta: “Temos que conhecer a história da nossa família, porque ela conta a nossa vida como nação, como povo que se constrói em cima de vitórias, derrotas, mortes e muita luta. Tudo isso potencializa um valor familiar do qual não podemos abrir mão senão ficamos sem âncora, sem porto seguro”. Esse resgate, aponta Silmara, ajuda a criar a identidade no jovem de hoje, o qual percebe que faz parte de um legado que vem muito antes dele e do qual é responsável por passar adiante. “O momento de compartilhar a pesquisa que cada um fez foi uma experiência extremamente rica e emocionante. Os alunos perceberam a importância de restabelecer o contato com o núcleo de origem, reconhecendo-se como indivíduos, cidadãos e protetores de memórias.”
* Sobrenomes preservados a pedido da autora da pesquisa.




Fonte: Edição 959,novembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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