Uma estrela sobre as famílias

Data de publicação: 23/12/2015

O que têm a ver Jesus, Maria e José com a atual família? Mesmo com uma distância de 2 mil anos e um fosso cultural, Belém tem muito a iluminar

Frei Osmar Otávio Júnior *

Falar de família nos leva a compreender seus desafios contemporâneos de viver a luz e a sombra. A família porta valores inquestionáveis e desvios lamentáveis. Tal realidade imprime a ela a condição de permanente crise com a ruptura da estabilidade. Como em toda crise, a família é convidada a passar por ela; ou regredindo, não ultrapassá-las; ou desenvolvendo-se, viver em crescimento. É necessário superar a crise entendendo o fenômeno como permanente. Continuamos acreditando ser possível garantir a pauta indispensável de valores para a continuidade do crescimento sadio da família, integrada aos novos desafios, sem abjuração dos seus princípios. Não é suficiente administrar as crises, mas temos elementos para a formatação de um projeto de assimilação de novos modelos de convivência. 
Apoiados na esperança e na fé em Jesus Cristo, há que se alimentar a possibilidade de uma eu-topia (bom lugar), ainda que com rupturas. Não há cristianismo sem esperança. Sem ela não se relativiza as realizações históricas concretas nem se mantém abertura ao novo. “Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? São elas que espantam os fantasmas da escuridão e nos enchem de reverência face à majestade de um céu estrelado. Porque temos estrelas, não tememos a escuridão”, diz Leonardo Boff. Precisamos renovar a esperança na família para ela continuar humana e digna de procriar vidas para esse mundo e para Deus.

Leis do mercado – O arquétipo da família cristã encontra-se na trindade Pai, Filho e Espírito Santo e em Nazaré, com Jesus, Maria e José. Exatamente por isso dissemos que a família hoje está desestabilizada, pois a comparamos com esse modelo. É possível que, exaltando a perfeição da Trindade e valorizando a santidade de Nazaré, nos percamos ao elevar a Sagrada Família e menosprezar a família atual. Outro perigo é o de apresentar uma proposta cristã distante da realidade, sem levar a sério os desafios de uma família que sofre as transformações nas relações humanas e nos novos modos de coabitação.   
A cultura atual coloca a economia como eixo das relações, influencia a família e a pulveriza, criando tantos modos de convivência quantos puderem ser os interesses do individualismo. Valores como solidariedade e cooperação, caros à família, ficam à margem. O mercado cria uma competição interessada em oferecer bens materiais. Os valores não materiais e gratuitos – amor, solidariedade e espiritualidade – são irrelevantes quando não feitos como mercadorias e explorados comercialmente. Sabemos que a família é sustentada por valores não materiais e que, pelas leis de mercado, pouco valem.

Várias formas – A família nuclear se impõe em função da urbanização acelerada. O casal trabalha fora e terceiriza funções com babá, creche, arrumação da casa, preparação da comida, cuidado com idosos etc. Ao casal restam as relações intersubjetivas do afeto, convivência e companheirismo. Nos grandes centros já vemos a diluição das famílias constituídas por membros que viviam sob o mesmo teto e eram do mesmo sangue. Esse modelo está restrito, praticamente, aos ambientes rurais. Há ainda alguns pontos de resistência nas cidades. Mas, com a facilitação do divórcio, formam-se famílias unipessoais – mãe ou o pai com os filhos – ou multiparentais – com filhos provenientes de matrimônios anteriores – e seus problemas de relacionamento. Surgem ainda uniões homoafetivas que lutam pela constituição de um quadro jurídico para lhes garantir reconhecimento.
Assim, ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, surgem as famílias-parceria (coabitação e uniões-livres) que se formam fora do marco institucional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual e não conjugal. Não é o caso de fazer um juízo ético, mas entender. Como conceituar as várias formas de família? Um especialista, Marco Antônio Fetter, primeiro aqui a criar a Universidade da Família, define família como “um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”.

Acolhida e respeito – Outra transformação se deu com os anticoncepcionais e preservativos, que fazem o discurso da Igreja Católica, especialmente no caso da Aids, parecer rigorista. Essa é a perspectiva libertadora da sexualidade moderna: filhos deixam de ser uma consequência da relação sexual e passam a ser planejados. Procurando entender nessa relação uma perspectiva ética e espiritual, é necessário constatar o zelo pela expressão de amor e mútua confiança. Nesse caso, ocorre algo que assinala a presença de Deus, pois Deus é amor. Cabe-nos compreender antes de moralizar! Se um casal homoafetivo assume a relação com responsabilidade, não podemos negar-lhes acolhimento mesmo em uma dimensão religiosa, como nos ensina o papa Francisco. Não se fala em sacramentos, mas em acolhida e respeito. Assim criamos uma atmosfera que ajuda a evitar a promiscuidade facilitada pelo preconceito e incentivamos a fidelidade, um bem em todas as relações.   
 “Jesus, Maria e José, nossa família vossa é!” A partir do mantra que identifica nossa espiritualidade católica em relação à família de Belém de Nazaré, perguntamos: que tem a ver o arquétipo da família de Jesus, Maria e José com a atual família? Como ela nos pode iluminar e inspirar? Mesmo com uma distância de 2 mil anos e um fosso cultural, Nazaré tem muito a dizer. Lá, como aqui, as partes se amam, se angustiam, têm perplexidade, buscam sentido, trabalham, se cuidam, seguem as tradições de seu povo e são tementes a Deus. Todas essas pessoas são habitadas por sonhos, valores e propósitos de felicidade e de paz. 
Não devemos considerar o caráter institucional da família (a perspectiva nos documentos eclesiásticos e nas reflexões dos teólogos), mas seu caráter relacional. Importa ver o complexo jogo entre os parceiros. Nessas relações está a vida e funcionam os sonhos e as utopias de amor, fidelidade, encontro e felicidade. O lado institucional é socialmente legítimo, mas não é originário. Ele é derivado, histórico e cambiante conforme as tradições. Por isso pode assumir diversas formas. Nele a vida já vem enquadrada e normas presidem relações. Mas tais delimitações só perduram com sentido quando alimentadas pelo húmus do sonho, do afeto terno e pela intercomunhão.

Superar moralismos – É nesse sentido que Nazaré ajuda. É um arquétipo de família em relações de afeto e pertença, que modernamente chamamos de capital social familiar. Se esse capital se apresenta alto e sadio dá origem a uma maior confiança no próximo. Há menos violência e corrupção e mais participação nos movimentos sociais e no voluntariado. Os conflitos familiares e os divórcios diminuem. Quando o capital social familiar se dilui, emergem situações críticas com desfechos muitas vezes dramáticos ou trágicos.
Ao analisarmos o José da história, artesão, esposo, pai, educador e justo, veremos que ele representa a família judaica, piedosa e ordeira. Porém, ele inaugurou uma forma de coabitação absolutamente nova e até escandalosa para a época: casa com uma mulher grávida do Espírito Santo. Leva-a para casa, quem sabe enfrentando comentários, como insinuam os evangelhos apócrifos. Superaram tempestades, porque na raiz estavam valores mais importantes. Esses valores foram vividos outrora e são vividos hoje por famílias, parceiros ou outros que optaram por viver juntos com coragem, fidelidade, responsabilidade e, não raro, sob uma dimensão religiosa. A questão é superarmos moralismos que não ajudam, prejulgam e nos fazem perder os valores sinceros que podem estar presentes. São tais realidades que contam numa perspectiva ética e valem diante de Deus.

Movendo corações – O valor da doutrina da Igreja sobre a família reside em recordar os valores perenes e trazer à consideração uma perspectiva utópica. Infelizmente nem sempre a Igreja é compreendida, porque ela mesma não sabe bem esclarecer a utopia e o mundo dos valores. Utiliza muito o rigor da doutrina e menos a compreensão cordial, a revolução da ternura e a misericórdia enfatizadas pelo papa Francisco. Assim o faz, por exemplo, João Paulo II na carta apostólica Familiaris Consortio e na Carta às Famílias. Em ambos os documentos, afirma que a família é uma comunidade de pessoas fundada sobre o amor e animada pelo amor, cuja origem e meta é o divino Nós. Na Familiaris Consortio predomina a dimensão de relação sobre a dimensão de instituição. Define-se família “por um complexo de relações interpessoais – relação conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade – mediante as quais cada pessoa humana é introduzida na família humana”.
São as relações interpessoais que constroem uma comunidade: “A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma comunidade de pessoas: dos cônjuges, dos pais e dos filhos, dos parentes. A comunhão caracteriza a família. A lei do amor conjugal é comunhão e participação, não a dominação”. São valores que fazem da família, como bem o diz o Catecismo da Igreja Católica, “um símbolo e imagem da comunidade do Pai e do Filho no Espírito Santo”, a “Igreja doméstica”.
Os valores e inspirações que deram vida à família de Nazaré continuam a sustentar as relações conjugais, as parcerias humanas e todos os que celebram o sentido da vida na relação de amor e de intimidade. O Deus-Trindade que penetrou profundamente na condição familiar pela trindade de Nazaré, a ponto de aí se personificar, continua assistindo os seres humanos em suas buscas. As formas e os caminhos podem variar. Mas não variam o amor e a comunhão que movem os corações, na direção um ao outro e na direção ao grande outro que é trindade de pessoas, intercambiando eternamente vida, amor e comunhão.

* Frei Osmar Otávio Junior é bacharel em Filosofia, licenciado em Teologia e mestrado em Teologia Sistemática com especialização em Pneumatologia.




Fonte: Família Cristã, 948
Postado por: Família Cristã




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