Ser Rocinha, ser Brasil

Data de publicação: 04/02/2016

O carnaval para as crianças não é só um momento de descontração, é aprendizagem de valores culturais e históricos do Brasil e do mundo, que o digam Camille e Cauan

Por Osnilda Lima, fsp
Fotos Iafa Cac

Ela chegou com um sorriso largo. O rosto em brilhos. Olhar vibrante. Nas mãos o figurino, fantasias e adereços de carnaval dos filhos, Camille Augusta Caldeiras de Oliveira, 12 anos, e Cauan Caldeiras Fernandes, 6. Mas não só, numa mochila, muitas medalhas que os filhos conquistaram em competições de ginástica artística, natação e judô. Com orgulho nobre e respeitável, apresentou-se: “Sou Maria de Lourdes Caldeiras de Oliveira, tenho 50 anos, e desde os dois anos moro aqui na Rocinha. Vim de Minas Gerais. Depois de cuidar de minha mãe de criação, até seus últimos dias de vida, me casei com o Ernani Fernandes Jorge, que é cearense, com quem tenho esses dois filhos maravilhosos, a Camille e o Cauan”.
A família mora na Rocinha, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ), localizada no Morro Dois Irmãos, entre os bairros de São Conrado e Gávea. Destaca-se por ser a maior favela do País, contando com cerca de 70 mil habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base nos dados do Censo Demográfico 2010. A comunidade teve origem na divisão, em chácaras, da antiga Fazenda Quebra Cangalha, de imigrantes portugueses. Por volta da década de 1930, a fazenda se tornou um centro fornecedor de hortaliças para a feira da Praça Santos Dumont, no Rio, que abastecia a Zona Sul da cidade. Os consumidores perguntavam de onde vinham os produtos, e os comerciantes diziam que era lá da “rocinha”, daí o nome da favela.
No início dos anos 1950, com o fluxo da migração de nordestinos para o Rio de Janeiro, a Rocinha se tornou uma cidade dentro da cidade. Foi aí que Lurdinha, como é chamada na comunidade, Camille e Cauan receberam a equipe de reportagem da Revista Família Cristã, na quadra do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha. Ao entrar na quadra, de imediato, os olhos se deparam com um grande letreiro, que diz: “O desenvolvimento humano nas asas da paz e nas cores da alegria”. Nesse espaço, conversamos com os membros da família Caldeiras Fernandes, que esbanjaram simpatia e, com muita simplicidade, contaram suas histórias, lutas, persistência e determinação.
Na Acadêmicos da Rocinha, Camille e Cauan são passistas mirins. Eles têm muito samba no pé. Encantam! Fascinam! Não poupam charme e carisma. Num primeiro momento se mostram tímidos, reservados. Mas quando rola o samba, ninguém segura, a alegria transborda, se derrama em ritmo. Cauan participa somente nos ensaios e desfile técnico.  No desfile oficial, só a partir dos 12 anos.

O passista ─
Na escola de samba, o passista traz o carnaval de raiz com alegria e descontração, não apenas brinca na avenida, mas incentiva ao canto, domina o samba-enredo e empolga os demais componentes e a plateia. A função de passista num desfile é seduzir a quem assiste pelo gingado e samba no pé.
“Eu tenho orgulho de viver aqui, fazer parte desta comunidade, representar a escola. E meu sonho é crescer e me tornar a porta-bandeira”, conta Camille. Ela insistiu muito com a mãe para se inscrever, preencher o formulário junto à secretaria da Acadêmicos da Rocinha. Vencida, a mãe a acompanhou e, a partir de julho de 2015, Camille faz parte da ala de passistas mirins.  
“Para ser passista, é preciso estar em dia com os estudos, frequentar regularmente a escola, só então será aceito na escola de samba, do contrário não entra”, afirma Pedro Telles, diretor da Ala de Passistas da Acadêmicos da Rocinha. “Sambar é lazer sério, compromisso, primeiro com os estudos, depois com o samba. Todos os ensaios são uma constante aula. O samba é cultura, responsabilidade, disciplina, um constante desafiar-se”, enfatiza Telles. E nisso Camille e Cauan entendem bem, são superfocados. Contaram que levantam cedo, vão à escola, retornam às 12 horas, almoçam e à tarde treinam de terça a sexta na escolinha do Fluminense. Camille faz ginástica artística e natação. Cauan, ginástica, natação e judô. À noite, voltam para a casa com a mãe, que durante o dia trabalha como doméstica.
Os irmãos ensaiam duas vezes por semana na escola de samba. “Eu não sabia sambar. A mãe trazia a Camille ao ensaio, eu vinha junto e ficava brincando com meu skate na quadra, mas sempre olhando para minha irmã. Daí um dia perguntei quando eu ia começar a ensaiar também, o Pedro me colocou e eu já sabia”, revela Cauan (abrindo um sorriso danado de bonito).
A mãe, Lurdinha, diz desafiá-los constantemente. “Já que você quer, então dê tudo o que pode e sabe! E, se quer ser alguma coisa na vida, agora é hora de começar. Eu desafio mesmo! E insisto: ‘Não é falar muito, é ir lá e fazer. Dou a eles tudo o que posso”. Lurdinha se mostra feliz. “Camille é centrada, responsável, dedicada, planeja o futuro, sonha em crescer como ginasta; e o Cauan a segue em tudo”, revela a mãe coruja com um orgulho bonito de se ver. “Aqui na Acadêmicos eles aprendem muito, desde a história de como surgiu a Rocinha até a boa convivência com os colegas de samba. Camille já consegue colocar o que sabe de ginástica no samba, faz uma mistura e sai um samba diferente”, enfatiza.

Enredo 2016 ─ O samba-enredo da escola de Camille, Cauan, Lurdinha, Pedro e toda a Rocinha para este ano é: Nova Roma é Brasil, Brasil É Rocinha. “Indígena, negro, branco, mameluco portugueses, nossa comunidade é essa mistura de raça, religião, cultura e saberes. Por isso, digo que todos aprendem brincando”, observa Pedro Telles, ao falar do samba-enredo 2016 da escola. “Sou a alma, a cara desse lugar/ vem no meu gingado, a Rocinha vai passar/ é o meu povo valente e lutador/ brasileiro com orgulho e amor”, canta o refrão do enredo, que faz um resgate histórico do surgimento da Rocinha, mas além-mares, além-morros.
“É isso a aventura brasileira, que se resume, dizendo: O que nós somos, mesmo, é uma nova Roma”, diz o argumento para a defesa do samba-enredo, que viaja no tempo, até o Império Romano. E esse contexto data de, há mais de 2 mil, quando os soldados romanos saíram da Itália, dominaram a Península Ibérica e conseguiram latinizá-la. “1.500 anos depois, os marinheiros ibéricos (portugueses e espanhóis) saltaram ao mar e vieram aqui e por estas terras, a coisa deu certo, e hoje somos esse caldeirão cultural, um coliseu de emoção, essa doideira insana, mas que do nosso jeito fazemos dar certo”, destaca Pedro Telles. “Então, a nova Roma é o Brasil, e o Brasil é a Rocinha”, reforça.
“Uma Roma lavada em sangue índio, lavada em sangue negro, sangue mestiço, nordestino, ou melhor... Tropical e humanista e que está herdada a representar um importante papel no mundo ocidental. E esse enredo, gloriosamente, entre vitórias e dificuldades, entre desafios e gritos de esperança, mostra cada passo dessa epopeia”, ressalta o argumento que toma como base o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997).
Relato de um povo ─ A sinopse do samba-enredo diz: “De grande e abundante beleza, porque aqui tudo é beleza, face às agruras, infortúnios, adversidades, revéses, acreditamos e nos refazemos a cada dia. Afinal o povão está aí, com fome de renovação, de regeneração, reestruturação, vontade viver. Essa força do povo brasileiro é realmente espantosa. Por que neste País tudo é extremado? O que podemos deixar como legado para nossas crianças? O que devemos combater para assumir nosso destino campeão? Deuses de todas as crenças abram nossos caminhos e estejam conosco nesta caminhada”. De fato, isso entusiasma Camille e Cauan, que dizem se orgulharem de morar na Rocinha e não pensam em deixá-la nunca.
Cauan, Camille, Lurdinha pedem passagem para cantar e sambar sua história, as lutas e conquistas da família Caldeiras Fernandes, e tantos migrantes e nativos que fazem a Rocinha e mostram sua humana substância. “Vivam o samba e o baião. Viva a moda de viola. Viva o nosso show de bola. Vivam o Tom e o Gonzagão. Vivam a praia e o sertão. Viva o pulso do pandeiro. Vivam a verve e o violeiro. Vivam nossa fauna e flora. Viva meu Brasil de agora, esse é o povo brasileiro, essa é a Rocinha.”
E prossegue a sinopse: “Um País tão diferente, tantos povos, tantas raças. Toda força dessas massas. Grande povo inteligente. Tem cordel e tem repente, têm batuques no terreiro. Tanta fé, mas há o sincretismo. Rezas, benzimentos, curas e os mitos. Tem guerreiro e tem romeiro. O rezar tão costumeiro, brasileiro é muita fé. Nossa herança que seduz. Oxalá e tem Jesus. Num Tupã de índio festeiro. Um Brasil sopro primeiro. Da raiz da identidade, brasileiro com verdade. Do Brasil foi pioneiro. Misturou ao estrangeiro. Recriou nossa raiz. De primaz toda matriz. Irmãos, branco e africano. Sob a força de um grilhão. Quem forjou na servidão e plasmou em todo canto nosso bailar humano. De perfil alvissareiro, com seu corpo de guerreiro, venceu dominação, rigidez do tesão. Construiu nossa nação. Os demais povos do mundo que vieram aqui para ‘roçar’, construir, nos transformar, no sentido mais profundo irmanados indo a fundo, nordestino a cantar. Esse irmão por companheiro, instalou-se nesse outeiro, meu Brasil, ver timoneiro, imanados rumo à paz, pois seu povo é tão capaz. Esse é o Povo Brasileiro”, assim conclui o texto da sinopse com pesquisa e texto de Alex de Oliveira, Junior Falcão e Guilherme Guaral. E colocado na literatura de cordel por Alan Salles.




Fonte: Fc edição 962- FEV- 2016
Postado por: Família Cristã




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