Abuso sem limites

Data de publicação: 12/02/2016


“Mamãe, vamos brincar de mágica? Você passa a mão no meu bracinho, nas perninhas, no bumbum e no pipi.” A mãe pergunta se o filho já tinha brincado disso. “Já sim, com meu pai. Ele pediu para pôr o dedo dentro do bumbum dele.” Atordoada, a mãe continua. “O que mais o papai fez?”. “Pôs o dedo no meu bumbum. Doeu. Fiquei chateado”, responde o pequeno. A mãe interage. “Com razão! O que seu pai fez é feio e não vai acontecer mais. Se ele quiser fazer isso de novo, grite e chame pela mamãe que eu irei te proteger”.
Longe de ser ficção, o diálogo estarrecedor da mãe com o filho é real e está registrado no livro Uma Chance para Lucas (Editora da Praça). Aconteceu em 2005, e a mãe entrou com uma ação de destituição do poder familiar contra o pai. Após seis anos de batalha judicial, perícias médicas e psicológicas, os abusos foram comprovados e o ex-marido não tem mais poderes sobre a criança. “Manda a pensão regularmente e nunca mais nos procurou. Não está preso porque, seguindo os conselhos das psicólogas que acompanharam o caso, não imputei uma ação criminal. Isso seria um fardo ainda maior para meu filho, hoje um pré-adolescente normal”, escreveu a mãe em 2010.
Ao contrário do que muitos pensam, o abusador sexual quase sempre é próximo da vítima, com quem mantém relação de confiança. São geralmente pessoas do sexo masculino, como pai, padrasto, tio, primo, avô, vizinhos ou professores. Quanto mais próximo o vínculo, mais difícil é para a criança revelar o abuso e mais devastadora é a questão do ponto de vista psicoemocional. “O fato de ter autoridade de adulto, a confiança da criança e ser mais forte confere ao abusador o poder para consumar o abuso”, informa Yves de Roussan, especialista do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) da Bahia.
Sinais – Pesquisas recentes do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva), do Ministério da Saúde, apontam que 22% de 14.625 casos de violência sexual infantil envolvem crianças de até um ano de idade. Em 77% dos casos, a vítima tem até nove anos. A agressão sexual foi apontada como o segundo tipo mais praticado na faixa de zero a nove anos, com 35% dos casos, contra 36% provocados por abandono ou negligência. Entre 10 e 14 anos, 10,5% das notificações de violência infantil no Brasil são sexuais. De 15 a 19 anos, a agressão sexual fica em terceiro lugar, com 5,2% dos casos, seguida da psicológica (7,6%) e da física (28,3%).
O Cedeca aponta pistas que facilitam a identificação de uma violência sexual. “São sinais que precisam ser investigados, mas que, isolados, não determinam a violência”, aponta o manual da instituição. Nos sinais físicos, encontramos a dilatação do hímen, sangramentos, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, infecções e dores na região genital e abdominal. Observa-se ainda um conhecimento sexual não condizente com a fase de desenvolvimento da vítima, um comportamento sexualmente explícito ou um embotamento sexual. Já nos sinais comportamentais há isolamento, depressão, tendências suicidas, queda no rendimento escolar, fuga de casa, agressividade ou apatia extremas, além de medo, choro sem causa aparente, distúrbios do sono e da alimentação, autoagressão, preocupação exagerada com a limpeza corporal e aparência desleixada.
Especialistas do Cedeca alertam que é importante estar atento às mudanças de comportamento da criança ou adolescente, pois, na maioria das vezes, elas se comunicam através de atos, não de palavras. Já a psicopedagoga Thaís Ruffatto de Souza orienta que o diálogo é a melhor maneira de abordar o problema junto à vítima. “Ao notar algum comportamento estranho da criança ou adolescente, é importante conversar de maneira tranquila e acolhedora”, orienta.
Apoio – A Promotoria de Justiça de Defesa da Infância e Juventude do Distrito Federal lembra que mulheres e crianças maiores também podem ser abusadoras. Em sua cartilha de orientação, aponta características comuns entre eles: sofreram abuso quando criança, apresentam dificuldades relativas à sexualidade e estão acima de suspeitas, não havendo, aparentemente, nada neles que chame atenção. São amáveis e podem conquistar a vítima com presentes, elogios e dinheiro. “As meninas são seduzidas especialmente através de palavras, presentes e elogios, e abusadas por meio da sedução e carinho. Dando um bichinho de pelúcia, o adulto se aproxima da vítima que é conquistada pela pessoa a ponto de chegar ao seu órgão sexual”, explica Thaís.
O procurador da República e ex-promotor de Justiça da Infância, de Brasília (DF), Guilherme Schelb aponta alguns cuidados ao se constatar um abuso, como preservar a vítima. “Apenas profissionais e familiares que cuidarão do caso devem ter acesso às informações. Muitos pais comentam com familiares e amigos sobre o caso e isso prejudica as investigações e causa dano à imagem e à intimidade da vítima”, aponta. Schelb se lembra da necessidade de realizar exames médicos quanto antes e observar se a criança ou o adolescente entendeu a violência sofrida. “É fundamental ouvir a vítima, deixá-la falar espontaneamente sobre a situação vivida, sem interferências. O objetivo é descobrir como ela elaborou a situação”, explica.
Buscar um psicólogo é um caminho natural e urgente. Ele ouvirá a vítima e dará suporte emocional para enfrentar o problema, que não pode ser varrido para debaixo do tapete. “É preciso dar apoio à vítima e aos pais. Pais e mães com companheiros abusadores se sentem culpados e precisam de tratamento”, lembra Thaís. “Você pode amar seu companheiro, mas se ele abusou de seu filho, cometeu um crime e por isso deve ser punido. É, dever cuidar da saúde física e psicológica da vítima e denunciar o agressor”, orienta. As denúncias podem ser feitas através do Disque 100, do Departamento de Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, de telefones fixos ou celulares de qualquer lugar do País.







Fonte: Edição 962,fevereiro de 2016
Postado por: Família Cristã




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