Dois no divã

Data de publicação: 03/03/2016

Embora não seja um remédio para todos os males, a terapia de casal facilita a comunicação e pode ajudar a salvar muitos relacionamentos

Por: Sérgio Esteves

Um é pouco, dois é bom e três é demais. A lógica desse ditado popular dá a entender que a presença de uma terceira pessoa em um relacionamento a dois não apenas é indesejada, mas um complicador que, geralmente, leva a uma séria desestruturação na relação de um casal, quando não a um rompimento definitivo devido ao ciúme e, principalmente, à traição envolvendo uma das partes. Nem sempre, porém, um terceiro elemento em uma relação a dois é sinônimo de encrenca. Ao contrário, em pelo menos uma situação este elemento pode se traduzir em moderação, imparcialidade, na solução de questões mal esclarecidas que resultam em crises constantes na vida a dois e, com um empenho maior, ajudar a resgatar os melhores momentos vividos pelo casal, retomando o caminho de uma felicidade que há muito tempo parecia perdida. Como assim? Não, não se trata, aqui, de defender o adultério como salvação, mas uma prática bem mais respeitável. Na verdade, bastante ética: a terapia cognitivo-comportamental de casais.
Embora não seja uma panaceia que remedeia todos os males, como aquelas que trazem “de volta a pessoa amada em 24 horas”, essa psicoterapia a dois funciona como facilitadora para melhorar a comunicação do casal quando esta se encontra truncada pelos desgastes, desencontros e acúmulo de responsabilidades, ou pelas preocupações, desatenções, competições e a falta de partilha entre as partes. Em resumo, a terapia ajuda a evitar uma indesejada separação que equivale à perda de um investimento emocional realizado, às vezes, durante anos. “Em primeiro lugar, essa psicoterapia serve para harmonizarmos o passo do casal e, depois, entrarmos em contato com os problemas que foram surgindo ao longo do relacionamento. Ela não enfoca uma ou outra parte, mas o relacionamento como um todo. O profissional atua para entender os dois lados do problema e ajudar o casal a dialogar sobre ele, buscando uma solução conjunta”, define a psicóloga Mariângela Mantovani, especializada em psicodrama e terapia de casais e famílias.

Arrumação – Em uma psicoterapia individual atende-se apenas um paciente, com objetivo unicamente de obter uma melhora sistemática de seus problemas. Dependendo da necessidade, porém, pessoas próximas a ele, como familiares, podem ser chamadas a participar de uma ou outra sessão. Já em uma psicoterapia de casal o atendimento é centrado no relacionamento amoroso conjugal e em modificar padrões de comportamento que concorrem para discórdias ou tensões – algumas vezes, o casal também é levado aos consultórios por problemas externos a ambos, como a perda de um filho. Seja qual for a razão, o objetivo dessa psicoterapia é obter ou recuperar o bem-estar conjugal. “Atendemos o casal para os dois reaprenderem a dialogar, voltarem a ouvir o outro até o fim da conversa. Geralmente os casais chegam ao consultório com muitos problemas de comunicação: um fala, o outro fala em cima e os dois não se escutam”, explica Mariângela.
O que, a princípio, levou o casal Mariana e Rodolfo (nomes fictícios) ao divã não foi um problema de comunicação, mas o gênio um tanto rebelde do filho adolescente Lucas. “A terapeuta entendeu que parte dos problemas do menino tinha a ver conosco. De fato, não demorou para percebermos que precisávamos de ajuda, pois criar bem os filhos é uma tarefa difícil que pode distanciar o casal. Vários casamentos acabam devido a esse distanciamento e pela incapacidade de pedir ajuda, e nós não queríamos isso acontecendo conosco. Não podíamos jogar fora 30 anos de nossas vidas. Quem precisa de ajuda também precisa pedir ajuda e esse, felizmente, foi nosso caso”, justifica Rodolfo para o fato dele e da mulher estarem fazendo terapia há cinco meses e já obtendo alguns progressos. “Para começar a melhorarmos como pessoas, tivemos que arrumar a bagunça de nossas gavetas internas, como se faz com um guarda-roupa. Tudo o que estiver sujo dentro dele precisa ser retirado, lavado, passado e novamente arrumado. Senão continuará incomodando”, compara.     

Menos dor – Mesmo quando demonstra falibilidade e não dá conta de ajudar a resolver os problemas de um casal, a psicoterapia pode apresentar resultados que, se não foram aqueles mais esperados, ao menos apontam algumas soluções para, de uma maneira menos dolorosa possível, se proceder a um desembarque da vida a dois – o que nem sempre acontece quando o casal não recebe nenhuma orientação. Segundo os especialistas, isso tem mais chance de acontecer quando, no casal, há ocorrências de agressões físicas, distúrbios de caráter de uma das partes, caso de adultério há longo tempo e de forma continuada ou, simplesmente, quando não há mais amor ou sequer sentimento de amizade para ser compartilhado. Em tais circunstâncias, a psicoterapia pode servir, e muito, para ajudar o casal a compreender que chegou ao fim de sua estrada em comum e que, muito provavelmente, os dois estarão menos infelizes, e em paz, vivendo separadamente. Afinal, nem sempre é possível viver junto e feliz, e isso, às vezes, é o mais difícil de aceitar principalmente para quem, um dia, viveu uma vida de casal.





Fonte: Edição 961,janeiro de 2016
Postado por: Família Cristã




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