Ouvidos atentos

Data de publicação: 15/03/2016

Criar filhos independentes e responsáveis passa pela importante tarefa dos pais em ouvir os filhos, dando atenção às necessidades deles

Por Renan de Souza

Uma queixa muito comum entre pais é o famoso “Meu filho não me escuta”. Na hora de se vestir, de terminar a brincadeira, de ir para casa, na hora de comer ou de desligar a televisão. Na maior parte das vezes, a criança vai querer algo diferente ou pedirá mais um pouco de tempo para o que ela quer fazer naquele momento. E aí entra a questão: será que escutamos os filhos? E, mais importante, levamos em conta o que eles dizem? É o momento de estabelecer o diálogo para um acordo.
Ironicamente, numa era em que aparentemente a comunicação está de forma abundante por meio das tecnologias, o que menos fazemos é nos comunicar. A tecnologia, no fundo, só enaltece nosso desejo de sempre falar e sempre estarmos certos, ao invés de dialogar e ensinar os filhos a dialogar também, com o outro, de forma honesta. Naomi Aldort, autora de Raising Our Children, Raising Ourselves, Criando Nossos Filhos, Criando Nós Mesmos, em tradução literal, provoca pais e mães, questionando: como os pais podem querer filhos independentes e que pensem por eles mesmos, se o que esses pais fazem é obrigá-los a algo? Em seu blog, um caso chama a atenção pela familiaridade com que muitos vivem: um pai queria colocar um chapéu no filho para protegê-lo do sol na praia. Algo razoável e compreensivo. Mas o filho não queria colocar o chapéu e tirava o tempo todo. A reação mais comum é o pai ou a mãe obrigar o filho a colocar o chapéu e, por sua vez, a reação do filho será arrancá-lo da cabeça. Embora os pais tenham explicado para o menino por que isso era importante, obviamente a criança não estava convencida. Naomi conta: “Eu perguntei a esse pai se ele se submeteria a alguém que colocasse o chapéu, casaco ou cachecol nele contra sua vontade. Ele percebeu imediatamente que não permitiria aquilo”. A solução foi escutar nas palavras do próprio filho o motivo de ele não querer usar o chapéu: “Ele disse ao seu filho: ‘Entendo que você não gosta de usar chapéu. Preocupa-me que o sol possa queima-lo. Você pode me dizer o que o incomoda em relação ao chapéu?’ A criança disse, e o pai fez mais algumas perguntas até que soube exatamente que tipo de chapéu empolgaria seu filho e quais outras soluções funcionariam”.

Dialogar – O psicólogo e psicanalista Luis Alberto Conti também defende a importância de saber ouvir: “O diálogo é uma forma importante de dar limite”. Ele lembra, porém, que se a criança é muito pequena, a autoridade pode ser mais importante, mesmo assim, “é preciso praticar o diálogo desde cedo” e “quando se atinge os 11 ou 12 anos, as curvas do diálogo do esclarecimento e da punição começam a se cruzar e , então, você precisa conseguir as coisas com conversa”. O saber ouvir o que seu filho quer ajuda a entrar no mundo dele e entendê-lo, por exemplo, por
que está gritando e não simplesmente gritar de volta pedindo para que pare. O psicólogo adverte que estabelecer esse diálogo, colocando-se na posição do outro, faz com que nosso corpo também responda da mesma forma, por isso, ao escutar o que seu filho tem para dizer, não fique em pé. Coloque-o sentado numa cadeira e sente você também ou agache até ao nível dos olhos dele e, simplesmente, escute. Pode ser que ele não esteja acostumado a ser ouvido, logo, estimule-o a falar perguntando.
Para Naomi, ao escutar o filho, é importante levar em conta o que ele disse. Muitos pais escutam e, como são mais velhos, supostamente acreditam que sabem o que é melhor para as crianças. Tolerância em relação à opinião dos filhos, por exemplo, não é diálogo. Saber ouvir é silenciar completamente e entender os motivos do outro, colocando-se no lugar dele, numa atitude humilde e consciente de que não se possui toda a verdade. Naomi, que também é mãe de três filhos, explica que, ao aprenderem a escutar os próprios filhos, o pai e a mãe se surpreenderão com o que vão descobrir.

Dedicar tempo – Padre Nicolás Schwizer aponta: “O diálogo é uma misteriosa ponte estendida entre seres livres: não necessariamente da mesma idade, com a mesma preparação, não necessariamente iguais; mas sim necessariamente conscientes e livres”, lembrando que “o diálogo verdadeiro não exclui a autoridade que um possa ter sobre o outro”, completa. Outro pré-requisito para uma verdadeira escuta é o tempo. É preciso dedicar tempo para ouvir os filhos, para ouvir do que eles gostam e como gostam e, se os pais alegam falta de tempo devido aos compromissos profissionais ou sociais, é preciso refletir qual a prioridade que eles estão dando ao que realmente importa. Sem dúvida, qualquer pai e mãe sabe que sua prioridade será sempre seus filhos, portanto, faça valer com ações essa escolha. É preciso lembrar também que nosso corpo e nosso agir também diz muita coisa, logo, observar o próprio filho e os interesses que ele expressa em determinadas atividades darão pistas, principalmente quando se é muito novo, do que ele pensa e o que quer.
Lembre-se de que isso tudo não surge de uma hora para outra, mas é um exercício diário de escuta e atenção, e o bom convívio leva tempo para ser cultivado, por isso, todos os dias procure estimular os filhos, desde cedo, a falar. A família sempre será o ponto de referência para a criança e o jovem. Saber ouvi-los e entender suas razões fará com que se sintam mais seguros e enaltecerá o diálogo e o entendimento familiar, itens importantes, inclusive, para a convivência social fora da família.

Você já perguntou ao seu filho ou filha hoje:

Como foi seu dia?
Do que você brincou?
O que você sonhou hoje?
Você está bem?
O que mais você deseja?
O que o(a) deixa com raiva?
Qual amigo você mais admira?
Qual sua opinião sobre esse assunto?
O que você faria se estivesse no lugar dos pais/professor/amigo?
Estimule seus filhos a falar desde cedo, lembrando que entre pais e filhos nunca há uma receita de bolo.





Fonte: FC ediçao 963-MAR 2016
Postado por: Família Cristã




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