Dona Lucia do Pindaré

Data de publicação: 22/03/2016

Ela vive há 21 anos às margens do Rio Pindaré, no interior do Maranhão, tempo em que o sangue de suas veias parece ter cedido espaço à água do rio que corre pra um futuro amargo

Por: Karla Maria, da Vila Pindaré (MA)
Fotos: Felipe Larozza

Ela acorda cedo com o som do rio, dos pássaros que visitam sua varanda toda enfeitada de flores e frutos. Acelera o passo, lava o rosto que brilha de suor, faz muito calor, e segue para coar o café. Assim começa mais um dia de dona Lucia Maria Moraes Souza, à margem do Rio Pindaré, na Vila Pindaré, um dos rios mais importantes do estado do Maranhão.
É assim há 21 anos. Tempo em que ela mora em uma casinha de madeira construída ao lado do seu esposo, o rio, assim o chama carinhosamente, já que é viúva. Tem 64 anos, dois filhos e vive ali sozinha. Os filhos não gostam do interior, vivem na capital São Luís e dão motivo de orgulho pra mãe. “Já pedi a eles vivessem aqui comigo, mas não adianta, eles não gostam, então aparecem de vez em quando, fazer o quê?”, lamenta Lucia.
Ela é uma bióloga aposentada, mas prefere ser apresentada como uma ambientalista, árdua defensora do rio que lhe oferece o alimento de cada dia e os sons que lhe aliviam o coração. Este rio atravessa os municípios de Alto Alegre do Pindaré, Santa Inês, Pindaré Mirim e dezenas de outros povoados maranhenses.
Dona Lucia também é professora, daquelas que ensinam com o exemplo, mais do que com as palavras. Educa novas e velhas consciências para que cuidem do rio. “O Rio Pindaré tinha uma diversidade de peixe muito grande. Tinha o tucunaré, o trairão. Hoje tem apenas piranha e sardinha. Está péssima a pesca”, revela a ambientalista, que no período da piracema, tempo de ovada dos peixes, quando eles sobem os rios até suas nascentes para desovar, ela não come peixe de água doce, para não incentivar as demais pessoas a pescar no rio neste período.
“Estou fazendo a minha parte, trabalho de formiguinha. Quando eu fizer a minha ‘viagem’ eu gostaria que meus afilhados continuassem cuidando aqui do rio.” A “viagem” a que dona Lucia se refere é a morte, e, enquanto está viva, faz sim a sua parte. Com uma energia admirável, ela caminha pela casa arrastando sua sandália que levanta um pó típico de roça, afinal estamos no interior do Maranhão, a 36 quilômetros do município de Buriticupu, outra cidade maranhense, que vive com seus desesperos ambientais e socioeconômicos.

Faça sua parte -
A casa Lucia é também um restaurante sustentável. Serve pesquisadores que se adentram pelo rio para fazer suas pesquisas e, às vezes, serve também de repouso em quartos com camas e redes. E assim, com pernas fortes para sua idade, vai mostrando iniciativas em prol do meio ambiente, para que nada cause impactos ao rio.
“Dejeto nenhum cai no rio, acabei de mostrar para vocês como foi feito o banheiro com a Fossa Séptica Biodigestora que comprei da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). É viável porque não polui o rio, nada vai para lá”, conta. Sobre o resto de alimentos, garante que para os peixes oferece apenas arroz.
Em um dos cômodos da casa/restaurante há uma espécie de biblioteca improvisada, com diversos livros sobre educação ambiental, projetos de reciclagem e mudas de diferentes plantas. Todas iniciativas alimentadas pela pós-graduação que Lucia fez na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) sobre educação ambiental. “Porque este rio, o Pindaré, é pai e mãe de todo mundo. Já criei o Clube Vamos Cuidar do Planeta. Quanto mais houver conscientização, melhor”, diz com sorriso largo.
Estudos também da UFMA apontam que o rio Pindaré apresenta graves problemas quanto aos aspectos ecológicos, decorrentes da retirada da mata ciliar, do assoreamento do leito, além da poluição e contaminação das águas.
A urbanização de algumas áreas, como a cidade vizinha Pindaré Mirim, e a aceleração do processo industrial também acrescentaram e empilharam problemas ao meio ambiente. “Mesmo tendo uma fazenda, você sabe que tem de preservar 30 metros da margem do rio. Você tem de deixar. Eu tenho uma reserva e sou a única”, diz Lucia, apontando para os fazendeiros também vizinhos ao rio.
Observa-se ao longo das margens a deficiência de saneamento básico, como coleta e tratamento dos resíduos sólidos e úmidos. Outra situação preocupante são terrenos baldios que acumulam resíduos que após as chuvas são carregados para o rio, poluindo e contaminando suas águas. Há ainda o desmatamento das áreas que estão às margens do Rio Pindaré. “A destruição das margens altera significativamente a profundidade do rio, pois promove o assoreamento, dificultando a navegabilidade e a vida dos peixes”, lembra Lucia.

Fazer a diferença - Diante da importância socioeconômica do rio para os municípios que o atravessam e para a vida dos ribeirinhos, seria natural encontrar atividades voltadas para preservação e fiscalização, mas uma breve consulta ao redor e chegamos à conclusão de que faltam políticas públicas que promovam fiscalização, cuidado do rio e promoção de uma consciência preventiva com relação ao ambiente.
“É um trabalho individual. Fizemos vários trabalhos. Outras professoras da região também fazem incentivam a limpeza e o diálogo com a população que vive próxima ao rio, mas a comunidade ainda está muito dispersa. Eles dão mais valor aos políticos do que ao trabalho com o meio ambiente”, diz desapontada.
Lucia também chora ao falar do rio. Sentada, olhando para ele, com as mãos a descansar no colo de saia azul, ela fala da tristeza e do abandono em que se encontra o rio, o meio ambiente. Um peixe pula e ela sorri, e depois chora. Parece até que, como na canção de Roberto Malvezzi, o Gogó, o Rio Pindaré é que corre pelas veias de dona Lucia.
“Todos os rios mirins, todos os Mearins, em cada Pindaré, em cada Subaé…. Existe um rio correndo em nós.”







Fonte: FC ediçao 963-MAR 2016
Postado por: Família Cristã




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