Família em tempo de crise

Data de publicação: 11/04/2016

O papa Francisco adverte que não podemos ter uma religião intimista e pessoal, que nos impossibilite e até isente de influenciar na vida social


Por:
Cleusa e Alvício Thewes *

José e Emília – Estão casados há 30 anos e são pais de três filhos. A família elaborou um orçamento familiar, anos atrás, discriminando como e onde o dinheiro seria gasto. Seguindo o orçamento, consumia e mantinha as contas em dia. Porém Emília perdeu o emprego e seu seguro-desemprego já acabou. Para piorar, os filhos tiveram os estágios encerrados. Assim, a crise econômica brasileira passou a fazer parte do cotidiano da família, que passou a depender exclusivamente da renda de José.
Agora, as prestações da casa própria estão atrasadas, a luz e a água não são pagas em dia, o convênio médico, a internet, a TV a cabo e a faculdade dos filhos foram cancelados.
“Nossa alimentação está reduzida ao essencial. O prato do dia é arroz, feijão, omelete e muita alface”, disse Emília. E, como não se vive só de amor, era questão de tempo para que a redução drástica do poder aquisitivo gerasse brigas e conflitos internos na família. E qual a família que consegue conviver tranquila na instabilidade financeira?
Emília chora muito e teve um princípio de depressão. José sente-se sobrecarregado e frustrado por não conseguir atender às necessidades da família. Felizmente, em meio às brigas, prevaleceu a união e a busca de alternativas. Nos fundos da casa, onde antes havia um gramado, hoje tem uma horta. Emília e os filhos fazem pastéis e saem a vendê-los. José buscou e conseguiu um trabalho extra, como garçom, aos fins de semana. Os filhos passaram a auxiliar a mãe nas tarefas domésticas. Tudo isso, na cabeça deles, é para ser provisório. Os filhos estão enviando currículos às agências de emprego. A época de estagiar já foi, agora querem empregos com os direitos trabalhistas.  
Emília não perdeu a esperança. “O momento é de desconforto, tensão e dificuldades, mas estamos juntos pela fé e haveremos de ter dias melhores”, declarou.

Léo e Ana – Casados há 15 anos e pais de uma adolescente. Preocupada com a situação econômico-financeira da família, Ana vive angustiada e deprimida.  Léo é vendedor. Nos últimos quatro meses, ele teve uma queda de 60% nas vendas e isto desestabilizou a renda familiar.
Venderam um dos carros, o de Ana, e fizeram um empréstimo. Mesmo assim não conseguiram colocar em dia as contas da casa. Outro dia, Ana comentou: “Recebo meu salário hoje, amanhã pago as contas e passo o resto do mês sem dinheiro. O preço da luz, da água, da gasolina e da alimentação fugiu do controle”. Léo está inconformado. Nunca pensou que um dia passaria por tamanho aperto financeiro. Tanta preocupação e estresse arrebentaram com a saúde dele. Desenvolveu um quadro de ansiedade e hipertensão. Deprimidos, os cônjuges atritam num rodeio mútuo de cobranças. No desespero, pensaram em separação, mas não souberam como proceder, nem sabiam se essa era a solução. O que fazer com as dívidas? E a crise? Será que, separando-se, a crise passaria, ou cada um levaria a sua consigo?  Debateram o assunto e concluíram que a crise deles foi provocada por fatores externos, e a separação não era a solução. Prevaleceu a sensatez, e a confiança foi retomada. Agora, fortalecidos no relacionamento, administram a crise financeira doméstica.

A crise – A sociedade brasileira está passando por uma profunda crise. O Brasil está em crise. O povo não caminha à margem dos problemas da Nação. As causas foram sintetizadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Os bispos brasileiros, pastores deste rebanho, reuniram-se e redigiram uma nota de apoio à população, divulgada pela CNBB: “Vivemos uma profunda crise política, econômica e institucional que tem como pano de fundo a ausência de referenciais éticos e morais, pilares para a vida e organização de toda a sociedade”.   Os bispos orientam a população para o resgate de uma postura ética e moral, e a flexibilidade ao diálogo, evitando confrontos e violência.
É ilusório pensar que a fragilização das instituições democráticas não provoque sérias consequências à instituição familiar. A história política de um país, quando subjugada por sua própria corrupção, ao constituir-se na troca de favores aos corruptos e estes a ele, todos os envolvidos perdem o foco, rompem os compromissos com a ética, desrespeitam a cidadania e, o que é muito grave, afrontam a justiça. Nessas circunstâncias, o que resta ao cidadão comum, à sociedade?
O papa Francisco adverte que não podemos ter uma religião intimista e pessoal, que nos impossibilite e até isente de influenciar na vida social e nas instituições nacionais, convocando-nos à ação e ao protagonismo.

Há esperança – Há pais e filhos que, desafiados, não desistem. Eles constituem as famílias que confiam nos pilares que as mantêm em pé. Redescobrem uma força interna, sedimentada no amor, na fé, na parceria, na própria crise e também na dor. Sofrem, mas permanecem juntos, aguardando a passagem da tempestade e a volta da calmaria. Assim como José e Emília, Léo e Ana, há muitos outros brasileiros timoneiros e confiantes no comando do navio familiar.
Em tempos de crise econômica, as famílias aprendem a conter o consumismo e o desperdício. Há o aprendizado do poupar, do economizar, maximizando necessidades e minimizando desejos. Pessoas antes esvaziadas interiormente pela satisfação que lhes trazia o consumo de supérfluos, hoje abrem mão dele e voltam a sentir prazer nas pequenas coisas, no convívio familiar. A ordem é poupar para que não falte amanhã. Qualquer crise econômico-financeira sempre é nefasta. Tira das famílias o direito à qualidade de vida, ao alimento, à moradia, ao lazer, à saúde, à satisfação das necessidades básicas. Agora é hora de unir e prosseguir!

*Cleusa e Alivio Thewes são casados há 29 anos e têm dois filhos. Ela terapeuta familiar e especialista em Orientação Familiar. Ele, advogado e especialista em Familia.




Fonte: FC ediçao 964-ABRIL 2016
Postado por: Família Cristã




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