Duas vidas pela arte

Data de publicação: 26/04/2016

Ângela Maria e Cauby Peixoto dividem o palco para dar ao Brasil o que de melhor tem a sua música popular

Por: Irene Paz

Camarins do Teatro Bradesco, São Paulo (SP), 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Faltando pouco para as 21 horas, Ângela Maria e Cauby Peixoto se preparam para mais uma apresentação. Ela, vaidosa do alto de seu 1,55 metro e 88 anos, tem a cabeleira castanho claro arranjada sobre os ombros. Ele, não menos cuidadoso, tem a maquiagem retocada para realçar o mistério de um olhar que, ainda aos 85 anos, sob as luzes da ribalta, provoca frisson em admiradoras. A plateia compõe-se de um público de meia e de terceira idades e é salpicada por jovens adultos – inclusive membros de fã-clubes dos artistas. Todos mal contêm a expectativa de dividir o mesmo espaço com os dois maiores intérpretes vivos do show business brasileiro. E não há favor nenhum em guindá-los a esse olimpo. Até porque o nome do espetáculo que ambos estrelam, 120 Anos de Música, precisa ser urgentemente retificado. E para mais. Ângela e Cauby somam, por enquanto, exatos 137 anos de carreira musical – 69 dele e 68 dela. São duas vidas inteiras dedicadas à arte de cantar.
Ângela, ou Abelim Maria da Cunha, já foi parar no Guinness Book como recordista mundial de gravações. São 121 álbuns e mais de 60 milhões de cópias vendidas. Sem falar nos desejos que, na juventude, o tom trigueiro de sua pele incendiou. Atribui-se a Getúlio Vargas o apelido de Sapoti – frutinha de polpa doce e casca marrom. “Você tem a voz doce e a cor do sapoti”, teria dito o presidente à cantora de agudos quase insustentáveis treinada no coral de uma Igreja Batista, onde seu pai era diácono, e nos antigos dancings – casas de música ao vivo – de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ). Em 1954, sua popularidade a elegeu rainha do rádio. Hoje, ela, Dalva de Oliveira e Elis Regina são consideradas as intérpretes brasileiras de maior extensão vocal, embora a voz da Sapoti apresente uma vantagem: está viva. Seu mais recente álbum, de 2015, Ângela À Vontade em Voz e Violão, traz versões de clássicos como Nunca (Lupicínio Rodrigues), Gente Humilde (Chico Buarque, Garoto e Vinícius de Moraes) e As Rosas Não Falam (Cartola) acompanhada pelo violão de Ronaldo Rayol.

Bossa-nova – A parceria com o amigo Cauby não é de hoje. Data da época de ouro do samba-canção. Nos primeiros anos da década de 1960, Ângela se apresentava na boate do cantor, a Drink, na praia do Leme, no Rio de Janeiro, quando ele subiu ao palco para acompanhá-la em um improvisado dueto para Samba em Prelúdio (Baden Powell e Vinícius). Deu-se, então, uma química instantânea entre a voz aveludada do barítono e as texturas cristalinas da mezzosoprano. “Ângela é a parceira ideal. Tem um dos timbres de vozes mais lindos que já ouvi e sabe cantar como ninguém. Nossas vozes se combinam, se completam e temos cumplicidade no palco”, reconhece Cauby. “É uma honra fazer dupla com uma das vozes mais bonitas do Brasil. Cauby é um amigo maravilhoso pelo qual tenho a maior consideração do mundo”, retribui a cantora. Pena não ser possível ouvir, ao vivo, a parceria sempre, pois ela está sujeita a espaços comuns – sempre raros – entre os compromissos dos dois intérpretes. Enquanto Ângela tem agenda cheia em função do seu novo álbum, o cantor segue promovendo A Bossa de Cauby, CD lançado no ano passado e no qual relê clássicos da bossa-nova.
O eterno intérprete de Conceição (Jair Amorim e Dunga), e que já lançou mais de 110 álbuns, surpreendeu a crítica ao quase se reinventar em A Bossa de Cauby. Forjado em um tempo no qual o estilo “banquinho e violão” era projeto e imperavam os vozeirões de Francisco Alves, Sílvio Caldas e Orlando Silva, Cauby associou-se a canções que valorizavam seus dotes vocais. Era, afinal, o que o público, em especial o feminino, queria. Às vezes em excesso. Mais de uma vez, como as bobby boxers – adolescentes que fizeram a fama de um jovem Frank Sinatra – demonstravam, as fãs de Cauby desmaiavam ou rasgavam as roupas de seu ídolo, então ostentando um irresistível bigodinho e um cabelo domado a gel, durante os shows nos auditórios das emissoras de rádio, nos anos 1950. Mas prestando-se menos atenção à histeria e mais ao repertório, redescobre-se que o cantor já havia aderido à bossa-nova antes mesmo de o movimento assim ser denominado pelo jornalista e escritor Sergio Porto, em 1959. Cauby gravou Foi a Noite (Tom Jobim e Newton Mendonça), um dos marcos zero da bossa-nova, em 1956.

Conservados – A ideia em gravar um álbum exclusivamente com standards da bossa-nova partiu do próprio Cauby e foi imediatamente acatada pelo produtor Thiago Marques Luiz, aliás o mesmo que trabalhou com a Sapoti em Ângela À Vontade em Voz e Violão. O resultado foi um registro particular de como o cantor, com uma voz que nem sempre cabe nos limites minimalistas da bossa-novistas, entende canções feitas a partir de uma estética mais contida do que derramada. Quem canta Wave (Tom Jobim), Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira) ou Eu e a Brisa (Johnny Alf), afinal, embora em um tom mais baixo, é Cauby Peixoto, com seu estilo personalíssimo, e não a voz sincopada de João Gilberto. E aí reside a razão de existir do álbum. “A bossa-nova é uma derivação do jazz, e eu sou jazzístico”, define Cauby, sem restrições ao gênero. “Sempre gostei da bossa-nova, em particular das canções de Tom e Vinícius, eternas em qualquer ritmo. Apenas achei que era hora de gravar as que considero mais belas. Aliás, eu já as cantava e canto nos meus shows”, completa.
Ter a possibilidade de ainda ouvir ao vivo vozes como as de Cauby ou de Ângela é um privilégio que precisa ser desfrutado o quanto antes. Sem precisarem mais de falsa modéstia depois de tanto tempo em evidência, ambos têm consciência do que representam e se cuidam para dar ao público sempre um pouco mais. “Eu tenho cuidados especiais. Não bebo, não fumo, sigo uma alimentação equilibrada e durmo 16 horas por dia. Para conservar a voz, sempre falo baixo e pouco. Não discuto nunca! Isso ajuda muito a conservar a garganta. Claro que também existe a genética e o fator sorte”, reconhece Cauby, que no ano passado esteve internado durante três semanas para tratamento de uma doença. Já Ângela não dispensa as visitas periódicas ao otorrinolaringologista e passa longe de qualquer extravagância que agrida as cordas vocais. “O máximo a que me atrevo é uma água gelada, porque tem dia que o calor está demais”, reclama. Em comum com o amigo Cauby, a Sapoti agradece à genética. “Toda a minha família cantava e tínhamos um coral em casa. Minha mãe, em especial, tinha uma voz linda”, lembra. À genética de Ângela e Cauby, pois, todo o Brasil aplaude de pé e, se possível, pede mais um bis.




Fonte: FC ediçao 964-ABRIL 2016
Postado por: Família Cristã




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