O normal

Data de publicação: 13/05/2016



Por: Jucelene Rocha, especial para a Revista Família Cristã

Histórias de sofrimento afastam mulheres do parto normal, informação é a principal aliada na hora de decidir como será este momento fundamental para a saúde do bebê e da mãe
Na contramão do que orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS), no Brasil a taxa de cesáreas chega a 55% dos casos. A situação é ainda mais alarmante nos hospitais particulares, onde esse índice oscila entre 80% e 90%. As altas taxas se dão pelo fato de que quanto maior o número de partos realizados, maior a remuneração para a equipe médica.
A recomendação da própria OMS é a de que a cesárea não ultrapasse 15% do total de partos por se tratar de uma operação de grande porte, na qual são abertas sete camadas do abdômen da mulher. Embora não seja alta a probabilidade de infecção, quando isso ocorre costuma ser mais grave em partos cesarianos do que no processo natural. Os especialistas defendem que o procedimento cirúrgico é um ótimo recurso, mas é preciso ter uma causa justa, como o surgimento de algum risco à saúde do bebê ou da mãe.

Direito de escolher - Na teoria médica, as mulheres têm direito de escolher o que vai acontecer com o próprio corpo. Entretanto, na prática isso nem sempre acontece.  Muitas mulheres acabam não tendo esse direito respeitado, seja no sistema público ou no sistema privado, e acabam sendo submetidas ao tipo de parto decidido pelas circunstâncias e pelos protocolos que forem determinados pela instituição hospitalar. O direito à presença de acompanhante, determinado pela Lei 11.108 desde 2005, também não é respeitado em muitos hospitais brasileiros e, de acordo com pesquisas, pelo menos 25% das mulheres sofreram algum tipo de abuso físico ou verbal dentro das maternidades.
Tradicionalmente, quando uma mulher tem indicação para o parto normal e é admitida em uma maternidade, são utilizados procedimentos de rotina para a sua realização, mas nem sempre as orientações necessárias, são oferecidas à mulher e seus familiares, e o ambiente vivenciado nesta experiência é o hospitalar, com luzes fortes, pessoas transitando e conversando, falta de privacidade, e até de ar condicionado.   O parto passa de sua normalidade a um evento repleto de procedimentos e interferências muitas vezes desnecessárias. Garantir a presença de um acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) é também uma forma de inibir possíveis maus-tratos. Para o conforto da parturiente, o acompanhante escolhido pela mulher deve refletir um relacionamento de confiança, intimidade e apoio emocional, e pode tratar-se de seu parceiro, amiga, mãe ou outra pessoa de sua confiança.


Atendimento humanizado -
O parto natural com atendimento humanizado não tem intervenção de medicamentos, ou seja, o parto acontece naturalmente. As atitudes dos profissionais envolvidos neste parto também são fundamentais, e devem respeitar o tempo, limites, desejos, anseios e expectativas de cada mulher durante todo o acompanhamento do trabalho de parto, parto e pós-parto.
No sistema de saúde privado, as mulheres que escolhem o parto normal geralmente são aquelas que procuram informação e acabam conhecendo os benefícios e sabendo que isso é melhor para a mãe e para o bebê.
Em tempos de alta tecnologia e superdesenvolvimento da ciência médica, a sabedoria das antigas parteiras volta ao centro da discussão e toma lugar no mundo moderno com o nome de doula, palavra grega que significa “mulher que serve”. Seu trabalho é dar suporte físico e emocional às parturientes antes, durante e após o parto, seja no ambiente hospitalar ou residencial.
Antigamente a parturiente era acompanhada durante todo o parto por mulheres mais experientes, mães, irmãs mais velhas, vizinhas, geralmente mulheres que já tinham filhos e haviam passado pela experiência da maternidade. Depois do parto, durante as primeiras semanas de vida do bebê eram elas que continuavam na casa da mulher parida, onde cuidavam inclusive dos afazeres domésticos, cozinhando e ajudando a cuidar das outras crianças.
Conforme o parto foi passando para a esfera médica e as famílias ficaram cada vez menores, foi-se perdendo essa interação e contato das mães mais experientes com as novatas. Dentro de hospitais e maternidades, a assistência passou para as mãos de uma equipe especializada: médico obstetra, enfermeira obstetra, auxiliar de enfermagem e pediatra. Cada um com sua função bem definida no cenário do parto.

Bem-estar - Apesar de toda a especialização, ficou uma lacuna: quem cuida especificamente do bem- estar físico e emocional da mãe que está prestes a dar à luz? Essa lacuna pode ser preenchida pela doula ou acompanhante do parto.
Tal escolha tem se revelada como tendência mundial. O Brasil é um dos últimos países onde está chegando esse movimento. Na Inglaterra e nos Estados Unidos já se fala disso há pelo menos 30 anos, e em países da Europa isso nunca deixou de ser opção. Em nível mundial, há um crescimento dessa visão do parto como sendo um processo fisiológico e que, dentro das circunstâncias normais, não deveria ser hospitalizado.
Foi a consciência dos benefícios do parto normal que deu a Daniella Coelho Gomes de Paula, 31 anos, mãe do Arthur, a certeza do que queria para a sua primeira experiência na maternidade. “Antes mesmo de engravidar, sempre ouvi falar dos benefícios do parto normal, principalmente no período de recuperação da mulher. A cesárea não era uma opção pra mim, porque sempre tive medo de ter complicações pós-parto e não conseguir cuidar do meu bebê. Sem falar da vaidade, também me preocupava com o corte da cirurgia e uma má cicatrização, porque todas as minhas cicatrizes formam queloide”, explica convicta de que fez a escolha certa.
Para Carolina Messias Agostinho, 25 anos, que teve o pequeno Matheus em uma clínica particular de Osasco (SP), o conselho das mulheres da família e amigas foi fundamental na escolha. “Recebi muitos conselhos de amigos, familiares e, principalmente, do meu obstetra, que é 100% adepto do parto normal. Meu corpo também colaborou, tive bom desenvolvimento durante a gravidez, isso ajudou na escolha do parto”, confirma a jovem mãe, que está grávida do segundo filho. Carolina, assim como milhares de mulheres no Brasil, também escutou conselhos contrários ao parto normal: “Houveram pessoas que me aconselharam a fazer parto cesariano devido à comodidade de escolher a data e o horário de nascimento do bebê e pelo fato de não sentir a dor”, revela.
De fato, as dores do parto sempre surgem como um dos principais temores de quem opta pelo procedimento cirúrgico em vez do parto normal, mas Carolina disse que viveu cada momento conscientemente. “As dores são muito intensas, mas eu escolhi viver aquilo, e a dor é o maior sinal de que seu filho está pronto para vir ao mundo, que chegou o momento. Apesar das dores, tudo foi tranquilo, fui bem amparada pelos profissionais e também tive o apoio do meu marido e minha mãe que estavam comigo.”

Trabalho de parto - Ao se referir ao momento do parto, Daniella Coelho Gomes de Paula, que foi atendida no Hospital Universitário de Taubaté (SP), revela: “O momento do parto foi exaustivo, o bebê estava alto, tiveram que estourar minha bolsa, e me colocaram naquele soro para acelerar o processo natural, o que acho um pouco desumano, prático apenas para os médicos, isso tornou tudo difícil e intenso para mim. O medo de o bebê ser retirado pelo fórceps começou a me preocupar nos últimos segundos, porque ele não descia e no final, com a ajuda dos médicos, ele saiu naturalmente. E aí foi lindo! Um alívio, porque ele já estava entre nós, em perfeitas condições”.
Apesar das mais de seis horas em trabalho de parto, Daniella não teve maiores complicações até o momento do nascimento do Arthur, mas viu de perto o sofrimento de algumas mães e destaca que o respeito sobre a necessidade de cada mulher deveria ser mais exigido. “O que mais aterrorizava a minha família era o receio da negligência médica, ou forçarem um parto normal causando sofrimento a mim e ao bebê ou até mesmo uma cesárea desnecessária. Pelo que notei no dia seguinte do meu parto, algumas mulheres sofreram até 12 horas na tentativa de realizar o parto normal e terminaram realizando cesáreas.”

Parto normal e saúde - Quanto aos benefícios do parto normal, a OMS afirma que as vantagens podem se apresentar também a longo prazo. Sabe-se, por exemplo, que quem nasce por parto natural tem uma tendência menor a desenvolver alegrias. O parto natural também prepara o bebê para a vida fora do útero e aumenta a chance de crescimento saudável.
Ao avaliar a própria decisão, Carolina sente-se feliz, mas não julga quem decidiu pela cirurgia. “Vejo que fiz o melhor. Não julgo quem escolheu a cesárea, mas vemos muitos casos em que o bebê entra em sofrimento devido à interrupção precoce da gravidez por escolha da mãe e, muitas vezes, do próprio profissional que a acompanha.”
Sobre os benefícios do parto natural, Daniella sente que é difícil afirmar que o filho traz as marcas da escolha pelo parto natural: “Sinceramente não sei afirmar se ele teve marcas desta escolha, mas posso afirmar que para mim como mãe e mulher foi a melhor decisão, porque tive total disposição para cuidar dele. E cuidar do seu bebê é a maior alegria que uma mãe pode ter após dar à luz. Completa um ciclo e inicia-se outro, no qual, olhei pro meu marido e disse: ‘Ele é lindo! Enfim conseguimos, Graças a Deus!’.”















   




Fonte: FC ediçao 964-ABRIL 2016
Postado por: Família Cristã




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