Uma vida no campo

Data de publicação: 30/05/2016


Por: Ieda Estergilda

Pensadora, professora e pesquisadora, referência nas universidades, passou a vida no campo, estudando e aprendendo com a natureza. Aos 95 anos, anda com dificuldade, falando baixo, mas o pensamento que fez dela um marco na agricultura tropical continua afiado. “Temos de tratar a terra segundo as necessidades do nosso clima e solo e não conforme as tecnologias importadas.” Com essa abordagem, Primavesi deu uma revirada, foi na contramão das técnicas estabelecidas, procurando sempre se guiar pelos sinais que o solo oferece.  Ideias como “agricultura de país frio é uma coisa, de país quente é outra, vamos fazer uma de país quente, estamos no Brasil”, se espalharam pelas faculdades de Agronomia virando referência obrigatória, principalmente entre estudantes do solo e da agricultura orgânica. Ela costuma cheirar a terra quando vai diagnosticar, para saber se a matéria orgânica foi enterrada profundamente e sentir nas mãos a textura que indica o equilíbrio de nutrientes.

Íntima da terra – Ana Maria Primavesi nasceu num vilarejo da Áustria, em um ambiente sofisticado e ao mesmo tempo simples do campo. Estudou na Universidade Rural de Viena, formando-se em Agronomia e Ciências Florestais. Fez doutorado em mutação de plantas e solos e conheceu o marido, Artur Primavesi. Eles se casaram depois da Segunda Guerra Mundial, perderam parentes e viveram a desolação do pós-guerra. Na procura por uma vida nova, vieram para São Paulo e começaram a trabalhar como agrônomos, visitando fazendas, conversando com os agricultores. Já naturalizada e falando português, Ana começou a escrever com o marido livros e manuais. Publicou 94 artigos científicos no Brasil e em revistas internacionais, escreveu 11 livros e colaborou em inúmeras publicações especializadas. Seu livro mais influente, Manejo ecológico do solo, revolucionou a agricultura ecológica na América Latina. Membro honorário de numerosos movimentos ecológicos, recebeu muitos prêmios, dentre eles, o prêmio mundial da agricultura orgânica, em 2012, pela International Federation of Organic Agriculture Movements (Ifoam).
Em 1980, ela trocou a capital paulista pelo município de Itaí, a 300 quilômetros. Os quase cem hectares de terra árida que adquiriu, transformou em uma fazenda rica e produtiva, com pouco dinheiro e nenhum agrotóxico. Foi lá que morou por mais de três décadas e praticou as técnicas da Agroecologia, ciência que significa extrair dos recursos naturais as condições ideais para o desenvolvimento das lavouras.

Revolução e atrasos – Na sua avaliação, o que aconteceu no Brasil agrícola desde que aqui chegou foi uma revolução tecnológica, a agricultura evoluiu e diversificou os alimentos ofertados, que antes eram importados. Conseguimos autonomia na produção de alimentos. “O que me preocupa é que, desde a Revolução Verde (programa criado por Willian Gown, para acabar a fome no mundo), se desencadeou uma campanha para considerar a matéria orgânica do solo algo supérfluo, inútil. Conceitos fundamentais de uma agricultura que trabalha com a natureza foram abandonados, como a rotação de culturas, a conservação dos solos. E também procedimentos naturais, que a natureza utiliza para o desenvolvimento construtivo de um ecossistema produtivo. O que se vê é um desenvolvimento minerador, predador, em que se tenta retirar mais e mais de um solo morto, inerte, adensado por diversos artifícios químicos e físicos”, ressalta.

Enchentes, infiltração – De acordo com os princípios da Agroecologia, um solo vivo é um solo sadio e as culturas possuem todos os nutrientes necessários para o homem. Na medida em que o solo vai morrendo por causa das práticas incorretas, a planta vai ficando deficiente e, automaticamente, surgem as pragas para eliminá-la. “Quanto mais veneno se colocar no solo, em vez de recuperá-lo, mais ele vai morrendo e endurecendo, provocando enchentes em vez de infiltração de água nas chuvas. Recuperar leva tempo e dinheiro a curto prazo, mas não a longo prazo! Conservar é mais barato do que a agricultura com todos os seus venenos, que são caros”, afirma Ana Primavesi. Ela cita o movimento de conservação de bacias hidrográficas que chegou ao auge no Paraná nos anos 1990 e atualmente foi esquecido, e a erosão anda solta. A ferramenta-chave para a conservação do solo e da água sumiu. “Falta um sistema que mantenha o produtor rural sempre atento ao que a natureza precisa para que o solo possa responder de forma altamente satisfatória.”

As ilhas de calor – Sobre a cidade onde voltou a morar depois de 32 anos no campo, Primavesi percebe que por vezes os terrenos são muito pequenos para se manterem áreas verdes.  Ela recomenda que deveria haver dispositivos para absorver essa água de outra forma (poços e trincheiras ou pisos de infiltração), procurando-se o lançamento zero de água da chuva do terreno para a rua, onde vai alimentar as enchentes. Águas expulsas dos lotes urbanos e rurais contribuem não só para as enchentes, como para o agravamento das secas e as ilhas de calor. Com o aquecimento global, vemos que a natureza tinha razão em incluir as árvores em seus ambientes naturais: além de retirar mais gás carbônico da atmosfera, elas ajudam a interceptar e armazenar água da chuva e também regulam as temperaturas e a umidade relativa do ar. 

Articulação e responsabilidade – Neste momento da vida, Ana Primavesi aspira por um ambiente com serviços ecossistêmicos funcionando eficientemente, para garantir a vida superior e a produção de água, alimentos, fibras e energia sempre contínua. “Para isso, trabalhamos a vida toda, e vimos com satisfação o florescimento de grupos técnicos e produtores rurais que perceberam a necessidade do respeito às normas ecológicas da natureza. Porém, essa tarefa necessita ser ampliada e acelerada, diante do crescimento populacional intenso, que inutiliza áreas produtivas apesar de demanda por mais alimentos. É necessária umamaior articulação entre os movimentos e divulgação dos princípios agroecológicos, que são a conservação do máximo de água residente, em solo poroso e vivo, protegido por cobertura vegetal permanente e diversificada, seus resíduos e sua vida associada”, afirma. De acordo com a agrônoma, esse conhecimento deve interessar não somente aos produtores orgânicos, agroecológicos, como à agricultura conservacionista industrial, que teria eficiência muito maior de seus insumos. E também à população que, ao consumir produtos agroecológicos, não só terá mais saúde, como incentivará com que mais produtores ecológicos contribuiam para a manutenção da vida do planeta. Qualquer pessoa pode ajudar e é responsável.
Em 2012, Ana retornou a São Paulo acatando a decisão da família. “Nasci no campo e queria terminar minha vida lá, porém o corpo não obedece mais meu espírito, e eu preciso de maiores cuidados, próximo de familiares. Felizmente moro num bairro muito arborizado e verde, com muitas aves, em uma casa ampla, com um grande quintal no fundo. Faltam as caminhadas, os estímulos do campo, mas acho que já finalizei minha proposta de vida profissional.”
(Frases de Ana Maria Primavesi para possível utilização na matéria.)
“O solo fofo permite que a água e o ar circulem. As plantas que crescem num ambiente rico em matéria orgânica ficam mais fortes e resistentes ao ataque das pragas e doenças”
“Num ambiente em que não se usa veneno, mas muita matéria orgânica, a vida é diversificada, uns competem com os outros e as populações não aumentam demais. Isso é um controle biológico natural”
“Quando se joga um veneno que elimina a maioria dos insetos e organismos, ficam um ou dois, esses se multiplicam e viram praga”
“Tudo deve ser encaixado, o homem, a terra, as culturas, temos de conviver com a natureza e não combater. Para isso, é preciso voltar e retomar uma agricultura natural, como foi feita por milhares de anos”




Fonte: FC ediçao 965-MAIO 2016
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Caldos, sopas e consumês
Neste inverno, além dos cuidados com a pele, é importante se preocupar com a alimentação.
Conservas caseiras
Resgate o antigo hábito de fazer conservas caseiras. Além da economia, aproveitando os legumes.
Páscoa
Na Páscoa, é muito comum as famílias se reunirem para uma confraternização.
A fruta do mês
Para se alimentar melhor e ainda economizar, os nutricionistas orientam o consumo de frutas
Sabor mineiro
A arte culinária é uma das tradições mais significativas de Minas Gerais.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados