Título Profetas da chuva

Data de publicação: 21/06/2016


Por:
Nathan Xavier

Satélites, simuladores no computador e aparatos eletrônicos que medem pressão atmosférica, temperatura e umidade ajudam os meteorologistas a prever o tempo. São ferramentas que auxiliam os profissionais a serem mais assertivos quanto ao clima para as próximas horas, dias, meses e até décadas. Longe de ser mero capricho, a previsão do tempo é importante aliada para agricultores, pescadores, controladores de voo e mesmo agentes públicos que usam as previsões, ou deveriam usar, para administrar recursos hídricos, obras, podas de árvores, entre outros. Além de tudo isso a previsão do tempo ainda dá aquela mãozinha para você saber se leva o guarda-chuva hoje ou não.
Porém, milhares de anos antes do primeiro satélite ser colocado em órbita na nossa pequena esfera azul, o ser humano já conseguia prever o tempo. Como? Pela observação da natureza. Nesse quesito, os profetas da chuva, no Nordeste, têm fama internacional. São pessoas simples, a maior parte sem formação acadêmica alguma, mas com uma sabedoria e uma experiência ímpares na previsão do tempo. Através de técnicas das mais diversas, os profetas conseguem prever se naquele ano a quadra chuvosa será boa ou não. Conhecida na região como “inverno”, a quadra chuvosa compreende quatro meses (fevereiro, março, abril e maio) e é muito importante para a economia local, já que coincide com o ciclo de plantio de culturas no Nordeste, como a mandioca, o milho e o feijão. Nos demais meses do ano não chove, portanto, se o período de fevereiro a maio for ruim, a colheita possivelmente também será. “Esse sistema atinge não apenas o Ceará, mas alguns estados vizinhos, como parte da Paraíba e Rio Grande do Norte, norte do Piauí e norte do Maranhão”, afirma Celso Oliveira, meteorologista da Somar Meteorologia, em São Paulo, mostrando a importância da estação chuvosa para a região.
João Soares de Freitas é o organizador do Encontro Anual dos Profetas da Chuva, que acontece sempre em janeiro, na cidade de Quixadá, no Ceará. O encontro deste ano, o de número 20, reuniu 35 participantes e foi precedido por uma relativa apreensão, pois há quatro anos a seca castiga a região. O organizador do encontro confirma: “Se chover nesses meses (da quadra chuvosa), tudo o que plantar, vai dar”. Ele se diverte com a quantidade de diferentes técnicas de previsão que os profetas usam e destaca as mais interessantes que já viu: “Diz que quando o João-de-barro faz a casa pra nascente não chove. Também a da formiga, em outubro e novembro, se vai ter inverno, ela começa a limpar a casa dela. Se não houver, ela fica com aquela comida lá dentro mesmo”. E será que este ano o joão-de-barro fez a casa para o oeste e a formiga colocou o bagaço para fora?

Sinais da natureza – O prognóstico do inverno 2016 ficou dividido. Manoel Alves, de Catolé do Rocha, ao norte da Paraíba, estava otimista. Ele observou que o joão-de-barro fez sua casa virada para o oeste, sinal de que terá chuva, além do amanhecer do primeiro dia do ano e as nuvens dos cinco primeiros. Já Paulo Costa de Oliveira afirma que o inverno não será bom e as chuvas serão isoladas e localizadas. Sua previsão baseia-se na observação do céu de setembro e leva em conta a posição dos ventos, astros e até mesmo a corrente de ar. Segundo ele, “quando as bolhas de ar quente que ficam no infinito desaparecerem é que vai chover no Nordeste”, e isso não aconteceu. Josimar Pacheco da Silva afirma que a florada das árvores está começando com atraso, sinal de que a época de chuva também começará tarde.
Além da própria experiência, muitas dessas técnicas são passadas oralmente, de geração em geração. “A natureza costuma dar dicas”, confirma o meteorologista Celso Oliveira. “Nós é que não percebemos mais essas dicas, ou mesmo nas grandes cidades se torna difícil a observação por causa das modificações que causamos no meio ambiente. Mas pescadores, por exemplo, batem o olho no mar e já sabem se tem tempestade em alto-mar ou não.” Celso, que nasceu no litoral paulista, conta as técnicas da sabedoria popular de previsão do tempo que conheceu: “Existe um morro na divisa de São Vicente com Praia Grande chamado Xixová, que, se estiver coberto de nuvem, os pescadores sabem que há problemas em alto-mar. É interessante que, depois de formado, eu comecei a prestar atenção nessas coisas. Corria pra ver nos radares e via que em alto-mar estava realmente chovendo”. Outro exemplo famoso são os cupinzeiros do Pantanal que conseguem “prever” até que ponto a água subirá na época da cheia, construindo suas casas altas o bastante para que o topo não fique submerso. “Teve um ano em que os cupins levantaram casas enormes e, realmente, foi a vez que o Pantanal teve uma de suas maiores cheias.” Por isso Celso afirma que tem o maior respeito pelos profetas da chuva do Nordeste, porém, faz uma ressalva: “Esses tipos de previsões são locais, cada região tem sua particularidade. A fauna e a flora que existem no Ceará, por exemplo, não são as mesmas do Pantanal, então não dá para aplicar um tipo de previsão num local e um tipo em outro”.


Sabedoria dos profetas –
No fundo, todos os parâmetros que mexem com a flora e a fauna (temperatura do solo, umidade relativa do ar, quantidade de vento e direção, pressão atmosférica, entre outros) são os mesmos captados pelos modernos equipamentos de monitoração do tempo. “Se num determinado lugar as formigas, por exemplo, ficam agitadas antes da chuva, é provável que seja porque elas sintam o calor do solo aumentar. Tal mudança de temperatura é captada pelos nossos equipamentos, e a diferença é essa: não olhamos a reação da natureza, mas olhamos diretamente aquele parâmetro, aquela variável, que também mexe com os animais ou a natureza.”
Mesmo já tendo feito suas previsões, os profetas da chuva reclamam que cada vez mais fica difícil entender a natureza e, por vezes, ela manda sinais diferentes. A ciência meteorológica pode dar uma explicação: “Nesses últimos anos, a gente tem observado mudanças no meio do caminho. O Nordeste tem uma dependência muito grande do Oceano Pacífico e percebemos que justamente dentro do período da quadra chuvosa o Pacífico estava em transição”. Fica difícil realmente definir como será essa quadra. Tivemos um El Niño (aquecimento das águas), muito forte na primavera e esse fenômeno atrapalha a quadra chuvosa. Porém, atualmente, o fenômeno está em rápido enfraquecimento. É o tipo de ano que começa de um jeito, mas que muda no meio do caminho, então pode ser que a natureza reaja de forma diferente, ficando difícil definir, pois a natureza também reage nesse meio termo”. E emenda na previsão para a região: “É provável que vá chover mais perto do fim da quadra chuvosa, mas não sabemos se será suficiente para a principal atividade econômica do estado e das famílias da região, que é a agricultura”.
Até o momento, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) informa que a primeira metade da quadra chuvosa ficou 40% abaixo da média histórica e, apesar de abril ter vindo com muita chuva, em maio, último mês da quadra, a previsão é de que as chuvas continuem abaixo da média. Com a dependência do Nordeste por chuva, mesmo o profeta mais pessimista, que afirmou que o inverno não seria bom, torce para que os meteorologistas, e ele próprio, estejam enganados.




Fonte: FC ediçao 965-MAIO 2016
Postado por: Família Cristã




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