No ABC da vida

Data de publicação: 04/07/2016

Para superar as estatísticas e a própria vida, dona Cecília,75 anos, vai às aulas e já rabisca algumas palavras, a começar pelo seu nome

Por: texto e fotos: Karla Maria

Ela segura o lápis com firmeza e aos poucos vai traçando as palavras: sertão e abraço. O rosto está próximo do caderno para que nada lhe escape dos olhos já cansados e desafiados pelos 75 anos de idade. Esta é dona Cecília Dias de Oliveira, baiana natural de Santo Estêvão, cidade a 150 quilômetros de Salvador.
Dona Cecília também é a mais nova estudante da turma da professora Ilza Aparecida Fortes, 44 anos, que se reúne de segunda a quinta-feira das 19h30 às 22h no salão da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Damasceno, na periferia da zona oeste de São Paulo.
A turma é uma das dez do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova), coordenado pela Associação Cantareira. “O médico disse que é bom eu ocupar a minha cabeça com essas atividades, então venho aqui. A professora Ilza é muito dedicada e como não enxergo muito o que ela coloca na lousa, ela escreve no meu caderno”, conta a baiana que supera as lacunas do aprendizado e da visão.
- Dona Cecília, a senhora não consegue ler porque não sabe, não conhece as letras ou porque a senhora não enxerga?
- Menina, é os dois. Eu não vejo bem as letras, mas a Ilza faz no meu caderno e aí consigo ler devagar, responde com sorriso tímido que esconde os dentes que lhe faltam.
Dona Cecília é frágil e parecia gripada naquela quarta-feira fria de aula. Conta que vive sozinha em uma casinha ali perto da sala de aula, nos morros da Brasilândia. É viúva, mãe de três rapazes e avó de oito.
Criou-os e educou-os com o dinheiro de seu trabalho como doméstica, desde que chegou em São Paulo, em 1969. Foi assim desde sempre. “A vida toda trabalhei na casa das pessoas, nunca em firma, agora faz oito anos que estou sem trabalhar, mas a gente não pode parar, se parar morre”, diz dona Cecília.
Analfabetos adultos – Ela faz parte das estatísticas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2014 (PNAD), que revelam que a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais no país era de 8,3% (correspondendo a 13,2 milhões de pessoas). Observa-se na pesquisa que a taxa de analfabetismo aumenta à medida que a idade avança, sendo de 23,1% dentre as pessoas com 60 ou mais anos de idade.
A situação de analfabetismo no Brasil coloca o país em 8º lugar no ranking de um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), realizado nos países com maior número de analfabetos adultos, sendo que no total o estudo avaliou a situação de 150 nações.
Em todo o mundo, há 774 milhões de adultos que não sabem ler nem escrever, dos quais 64% são mulheres. E ao que parece, a solução vai além da lousa e dos cadernos. Outro estudo, intitulado Raízes Sociolinguísticas do Analfabetismo no Brasil, publicado na Revista Eletrônica Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua Portuguesa, aponta que o analfabetismo está na raiz de todos os grandes problemas sociais no Brasil e constitui um mal radicado na sociedade brasileira, praticamente tão antigo quanto o próprio país, e infenso às diversas campanhas de alfabetização que surgem no bojo de políticas educacionais.
“Não se pode implementar uma política nacional eficiente de alfabetização sem que se leve em conta a variação linguística distribuída ao longo do contínuo de urbanização e estratificada em função de renda e status socioeconômico, pois a língua padrão neste país é basicamente associada à classe social”, conclui o estudo.
Dona Cecília, a nova estudante da turma da professora Ilza, é pobre. Vive em uma região onde a infraestrutura de saneamento básico e a iluminação pública ainda são precárias, embora tenha evoluído nas últimas décadas. Sua renda mensal é de R$ 880, um salário mínimo que recebe de pensão do marido falecido.

O mundo do educando –
Observando a realidade dos seus colegas de sala de aula, com alunos de diversas idades, vê-se que ela não é muito diferente, o que para a professora Ilza não difere em nada no seu trabalho. “Aqui, criamos atividades que todos possam fazer juntos. Tentamos incluir mesmo, não separar, para não ter divisões de salas como ocorre por aí. Nosso trabalho é ensinar também a viver em sociedade”, diz a professora, que tem como metodologia os princípios filosóficos, políticos e pedagógicos de Paulo Freire, o mais influente educador brasileiro, para quem a ação pedagógica se desenvolve com base na leitura de mundo do educando, a partir da qual se identificam as situações significativas da realidade em que ele ou ela está inserido.
“O diferencial aqui no Mova da Associação Cantareira é que educamos a partir daquilo que o educando traz, da realidade dele, e aquilo acaba tendo sentido e despertando mais interesse”, aponta Carmem Fátima de Jesus Araújo, pedagoga e pós-graduada em letramento e alfabetização.
Ela é coordenadora pedagógica das 12 salas de aula do Mova da Associação Cantareira e acredita que o alto nível de analfabetismo no Brasil se dá também pela falta de metodologia específica no trato com os alunos adultos e idosos, que têm outro tempo para compreensão e elaboração dos conteúdos absorvidos.
“Temos formação toda semana com as professoras e é gostoso. Lembro muito bem de uma aluna chamada Albertina, ela usava o alfabeto móvel e um dia ela chegou toda feliz na sala de aula e me disse: ‘Desci do ônibus em frente à banca de jornal, consegui ler o jornal e me atrasei para o trabalho’. Eu a abracei e chorei”, conta a professora que ensina mais do que a ler e escrever.
Nossa dona Cecília já assina seu nome na lista de chamada e promete tentar ler essas linhas que contam parte de sua história, de seu aprendizado.




Fonte: FC ediçao 967 -JULHO 2016
Postado por: Família Cristã




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