Renasce a ESPERANÇA

Data de publicação: 09/09/2016

Sob o azul, do céu renasce a esperança

O dia a dia de uma família que vive há 15 anos em um assentamento no interior do estado do Paraná, suas lutas, preocupações e compromissos
                        
      Por: Osnilda Lima

Sob o límpido azul do céu e no horizonte suavemente iluminado, o sol soltava seus primeiros raios, a fumaça branca saindo da chaminé do fogão a lenha da família Jauer Lima anunciava mais um amanhecer no Assentamento Nova Itaúna, no município de Manoel Ribas, localizado no centro do estado do Paraná, a 372 quilômetros da capital Curitiba.
No assentamento, Geovane Lima, 37 anos, e Fabiana Jauer, 32, vivem com as filhas Geovana, 14, e Natali, 4. Eles fazem parte das 120 famílias assentadas pelo projeto do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no ano de 1999, com a área de mais de 2.210 hectares.
A família Jauer Lima está em seu próprio lote há 16 anos. Quando receberam a terra não tinham absolutamente nada além da vontade de trabalhá-la e dela ter a livre escolha dos seus meios de vida, subsistência e cuidado com o meio ambiente.
Segundo Geovane, inicialmente, um dos desafios foi ter saído os primeiros créditos para a aquisição de ferramentas e insumos para o plantio de alimentos e compra de animais. Ele ressalta que os programas para assistência ao produtor rural, na maioria das vezes, vêm de uma proposta verticalista, sem o mínimo de diálogo com o que é parceiro da terra.
“O que nos fez resistir, persistir, é o amor à terra”, revela Geovane, que, assim como Fabiana, são filhos de pequenos produtores rurais e jamais o casal teria condições econômicas para adquirir e manter um imóvel rural por outras vias, que não a do assentamento. Eles receberam o lote com o compromisso de morar na parcela, “explorá-la” para o sustento e utilizam exclusivamente a mão de obra familiar.
Nos 18 hectares que receberam, cuidam da terra de forma sustentável para desenvolver os recursos produtivos do sustento. Na gleba há plantação de mandioca, batatas de diversas espécies, milho, feijão, diversidade de frutas no pomar. A horta é verde em tonalidades várias de verduras, legumes e cheiro-verde.
No almoço tudo o que estava na mesa era produção das mãos da família. “A alimentação é toda orgânica, não contém nada de agrotóxico”, avisa Fabiana. Já a pequena Natali foi logo enchendo o prato de rúcula. Comeu folhinha por folhinha. A mãe lembra um episódio em que a pequena no supermercado, dentre as tantas possibilidades, quis uma cenoura.
A sobremesa era pudim de leite, a família produz uma pequena quantia de leite para o consumo e venda, sobretudo, durante o inverno, quando eles param com o cultivo da sericicultura, a criação do bicho-da-seda. Essas atividades são para gerar renda adicional à família.
“Não podemos pensar em dinheiro, capital, lucro. Por exemplo, há três anos começamos com o bicho-da-seda, no primeiro momento a intenção era fazer dinheiro. O lucro veio sim, mas quando nos demos conta tudo o que estava na nossa mesa buscávamos no supermercado, pois a dedicação estava exclusiva no bicho-da-seda. E quem garantia a qualidade de nosso alimento? Isso não justificou nos ‘matarmos’ de trabalhar para uma empresa sem que tivéssemos qualidade no que comíamos e como estávamos vivendo”, expõe Geovane. “Quantas vezes ao pegar o tomate no supermercado, tinha beleza, mas percebíamos o cheiro de veneno nas frutas, então por que não cultivarmos nosso tomate?”, recorda Fabiana. 

A perseverança – A família Jauer Lima, assim como tantas famílias de produtores rurais, se vê desafiada a assumir para si a responsabilidade da resistência como único caminho para permanecerem existindo e propondo um caminho alternativo de subsistência, pois não há programas efetivos de desenvolvimento agrícola para os pequenos produtores rurais, frente ao grande incentivo do agronegócio que no uso excessivo de fertilizantes químicos e a compactação do solo pelo uso de máquinas, causam progressivamente o empobrecimento e vida curta da terra.
Fabiana conta que eles mantêm a terra viva com o uso de fertilizantes naturais. “Enriquecemos o solo principalmente com raízes dos alimentos e restos de matéria orgânica das culturas. Usamos fertilizantes não químicos, vindos da adubação verde e de dejetos dos animais”, explica a agricultora, que mostra com orgulho a horta verde com repolhos já fechando cabeças e cenouras robustas, entre as diversas hortaliças.  A família cria ainda porcos e galinhas.
Pesquisa realizada numa parceria entre o agora extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), o Ministério do Planejamento e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dá conta de que 36% da população brasileira é rural. A agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros. A família Jauer Lima quer continuar lutando e reafirmando a importância de uma agricultura voltada à produção de alimentos saudáveis, de cuidado com a terra, e pede respeito ao trabalhador do campo.
Não são poucos os desafios que se apresentam ao produtor rural diante da força e persistência do modelo alicerçado no agronegócio, no monopólio do latifúndio. São irrisórios os incentivos aos povos do campo ou com o meio ambiente e enormes os desafios! À população do campo cabe a firmeza no olhar e a coragem nos passos para avançar em seus direitos, como sempre fizeram. Assim como nos despediram, Geovane, Fabiana, Geovana e Natali, em frente à casa colorida em tons de verde, em meio a diversas árvores nativas na gleba da família e aos fundos galinhas cocoricando, porcos grunhindo e vacas com seus bezerros mugindo em harmonia com a terra e a família.





Fonte: FC ediçao 968 -Agosto 2016
Postado por: Família Cristã




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